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A mulher e o mendigo, e a pobreza de nossas almas

Desde o primeiro momento em que vi o vídeo que circulou na internet, naquele instante apenas sobre uma possível traição conjugal, quis falar sobre o assunto, por diversas razões e questões que essa história desperta. Quando vi, eu estava na academia, e um programa desses de fofoca noticiava o acontecimento. Como não seria diferente, cheio de sensacionalismo, com foco na traição e no ato de um marido “que levou cifre” estar indignado.  A primeira coisa que me veio à mente foi a questão da exposição pública, que hoje, com a força das redes sociais e da internet, faz com que todos sejamos todos vítimas e algozes desse processo cruel. Depois a história com um tom de humor, afinal brasileiro “não perde a piada”, e “é pra isso que a gente paga a internet”. E, por alguns momentos, eu também ri da situação. O nosso humor esconde muita coisa sobre nós.  A segunda questão que me tomou, e quase sempre me toma, é perceber a hipocrisia dos comentadores de plantão. Como é danoso para minha ...

Deus está distraído?

Assisti o filme “O Bombardeio” (2021), do diretor dinamarquês Ole Bornedal, e ele já entrou para a lista dos filmes que me emocionam pela qualidade da produção, atuação, direção, mas acima de tudo por me fazer pensar e sentir. Sobre o que ele me fez pensar? Sobre a guerra, a humanidade, Deus e nossa frágil, porém insistente, esperança e fé. A frase que para mim faz elo é dita pela noviça Teresa... “Deus nunca dorme, mas pode se distrair” e no fim, por Rigmor, com a pergunta: “Deus deixou um lápis cair?”, pois, diante dos horrores da guerra, como manter a crença? A mera atribuição de culpa ao homem, como única explicação para tamanha miséria nunca me foi suficiente. No fundo eu nunca acreditei nas explicações que boa parte da teologia me deu. Como Teresa, sempre me vi entre a vocação e as questões filosóficas que espreitavam minhas crenças.  Coincidentemente, no dia anterior, numa conversa sobre o suicídio com alunos, depois de alguns relatos, uma aluna me perguntou se eu acreditava...

O que quer a mulher?

O que é a mulher? A mulher existe? Qual sua origem? Toda redução das questões envolvidas nas perguntas anteriores é um prejuízo para todos nós.  A psicanálise não se omitiu da questão. Freud não se omitiu, mesmo não conseguindo atravessar a barreira de si mesmo rumo àquilo que ela chamava de continente negro. Ele partiu da máxima que “não se nasce mulher nem homem, mas nos tornamos um ou outro”, quão revolucionária foi essa questão. É a partir dela que podemos tentar desconstruir a figura universal e abstrata de A Mulher, que nada mais é que “um conjunto de imagens e representações que tentam produzir uma identidade para todas as mulheres sem alcançar nenhuma delas em sua singularidade”.  Para entendermos as questões se faz necessário o mergulho na história do conceito, e suas produções de feitos no percurso histórico. Quem é a mulher da história? Quem é a mulher em cada momento histórico? Ser uma mulher é o mesmo que ser A Mulher?  A psicanálise foi fundada pelas mulhere...

“Eu estou sendo eu mesmo”

Uma das frases mais repetidas em ‘reality shows’ é  - eu estou sendo eu mesmo. E aqui está uma questão que torna programas assim tão interessantes para quem deseja dele extrair uma reflexão psicanalítica.   Lacan nos disse “a verdade tem uma estrutura de ficção”. A verdade de quem somos manifesta num programa televiso é como tudo em nosso tempo líquido. As coisas são, mas não mais como um ser, e sim como um menos de ser, tal qual café descafeinado, é café, mas não é café. Dessa forma, as pessoas participam de uma ficção onde elas representam a si mesmas.   As pessoas nos reality shows são elas mesmos como menos de ser, o que vemos é ficção de cada pessoa. Podemos dizer, assim, que cada um que vive tal experiência representa a si mesmo, fazendo-nos achar que estão sendo eles mesmos, ignorando que estão representando.   Mas isso não é só para quem está nos tais programas, isso é sobre todos nós, e aqueles que acham que não representam a si mesmos numa const...

Por que dizer não à formação universitária em psicanálise?

  Por que dizer não à formação universitária em psicanálise? Porque nada na psicanálise é estável ou universal. Nem um dos seus temas cabe no discurso universitário. Psicanálise só é possível na clínica e na transmissão pela reflexão e pesquisa contínua. Como levar o divã para a sala de aula? Como determinar o período de análise necessário? Já bastam as várias escolas psicanalíticas que transformaram a psicanálise em curso que pode ser certificado, colocando a análise pessoal dentro de um número e não no correto exercício analítico. Eu amo psicanálise como amo filosofia por uma mesma razão, elas nascem da questão posta em mim, por mim e para mim. Não há transmissão da psicanálise sem análise pessoal. O território psicanalítico não é médico, nem pastoral, nem universitário. A psicanálise opera no campo das questões, e diferente da filosofia não é uma busca de autoconhecimento, mas uma busca do não saber, aí onde somos. De Freud a Lacan, vimos que a psicanálise lida com o q...

Natal 2021

Escrever sobre o Natal de 2021 foi um desafio, diferente de muitos anos anteriores não havia em mim vontade de tratar nenhuma temática teológica, mas aí lembrei que, na verdade, nunca tratei o Natal assim. Em mim o Natal é uma questão de fé, e não de crença. E o que isso significa? Significa que ela não precisa fazer sentido, não precisa ser aceita, não precisa ser crida. Ela tem apenas que calar a questão, encerrar a pergunta e fazer o ser saber sem conhecimento algum. Loucura? Talvez! A fé é o absurdo dos absurdos! Nos últimos anos, algo que sempre em mim esteve presente ganhou forma e realidade, o fato de que sou um homem de fé firme e constante, mas de crenças móveis abertas a toda revisão e até ao abandono. Não me importo em rejeitar crenças, pois em mim a fé é a força que me move. Quanto ao Natal, minha crença pouco mudou, mas se fosse explicá-la aqui seria em muitos aspectos diferentes de muitos cristãos. Por exemplo, não sinto necessidade do evento do Natal ser um evento ...

Alice, seus encantos e mistérios

  Quem não conhece a história de Alice no país das maravilhas, mesmo que nunca tenha lido?! A grande questão é o que faz dessa obra uma das mais lidas e comentadas, ao lado da bíblia e de Shakespeare?   Escrita por Charles Lutwidge Dodgson, pseudônimo de Lewis Carroll, que nasceu em 27 de janeiro de 1832, na Inglaterra, e faleceu em 14 de janeiro de 1898. Um poeta, romancista e matemático, que, apesar de sua brilhante inteligência, carregava o peso de um corpo frágil.   Lewis Carroll, segundo seus biógrafos era um cristão devoto e praticante, e, no entanto, via-se como um pecador contumaz. Nunca se casou ou teve filhos e se alegrava muito com as amizades de crianças do sexo feminino, o que cerca até hoje o escritor com sombras a respeito dessas amizades.   O fato é que ele gostava de crianças e crianças gostavam dele. De acordo com suas biografias, o que concluo é que Lewis apreciava o belo e via na criança, especialmente do sexo feminino, o apontamento...