segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Batismo de Sangue


“O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.”
Martin Luther King

Hoje assisti na minha casa ao filme Batismo de Sangue, baseado no livro do Frei Beto como o mesmo nome. Emocionei-me bastante, e lembrei-me da frase de Martin Luther King sobre o silêncio dos bons, pois foi isso que para mim foi e é mais chocante.

Sei que o sangue de muitos marca a estrada da vida. Esse sangue é que realmente alimenta a esperança de muitos outros na luta por um mundo melhor. Prefiro estar do lado destes e com eles estar associado do que viver do lado daqueles que em nome de ‘sei lá o que’ silenciam, ignoram, escondem-se.


Passaram-se 30 anos desde a morte de Frei Tito, o Brasil enfim vive um estado democrático, mas ainda há muito pelo que lutar. Milhares ainda morrem de fome e de falta de assistência médica. A violência é algo sem limite. A corrupção parece ser nossa bandeira. Sim! Ainda falta muito.


Quero fazer parte de uma geração que nasceu da esperança daqueles que foram batizados com sangue. Quero abrir minha boca em favor do oprimido mesmo com riscos. Quero combater todas as ordens e instituições da opressão seja ela política ou religiosa.


O Evangelho me mostra um Cristo que por meio de sua mensagem e de seus atos denunciou todas as formas de opressão de sua época e anunciou a libertação do pobre e oprimido. Dele recebi uma ordem de no caminho ser semente do Reino onde não há diferenças.


Espero que muitos leiam, assistam sobre os atos do que com sangue foram batizados e que isso desperte em nós sede de justiça, pois afinal foi Ele, o crucificado quem nos disse:
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos (Mateus 5.6)


Ivo Fernandes
Conterrâneo de Frei Tito

Uma biografia


Tito de Alencar Lima, o Frei Tito, OP, (Fortaleza, 14 de setembro de 1945Lyon, 10 de agosto de 1974) foi um sacerdote católico brasileiro.


Assumiu a direção da Juventude Estudantil Católica em 1963 e foi morar em Recife. Em outubro de 1968, Frei Tito foi preso por participar de um congresso clandestino da União Nacional dos Estudantes em Ibiúna. Foi fichado pela polícia e tornou-se alvo de perseguição da repressão militar.


No início de 1970, Frei Tito foi torturado nos porões da chamada “Operação Bandeirantes”. Na prisão, ele escreveu sobre a sua tortura e o documento correu pelo mundo e se transformou em símbolo de luta pelos direitos humanos. Em 1971 foi deportado para o Chile e, sob a ameaça de novamente ser preso, fugiu para a Itália. Em Roma, não encontrou apoio da Igreja Católica, por ser considerado um “frade terrorista”. De Roma foi para Paris, onde recebeu apoio dos dominicanos.


Traumatizado pela tortura que sofreu, Frei Tito submeteu-se a um tratamento psiquiátrico. Seu estado era instável, vivendo uma agoniada alternância entre prisão e liberdade diante do passado. No dia 10 de agosto de 1974, um morador dos arredores de Lyon, encontrou o corpo de Frei Tito, suspenso por uma corda. A causa da morte – suspeita de suicídio – tornou-se um enigma.


Foi enterrado no cemitério dominicano Sainte Maire de La Tourrete, em L'Abresle. Em 25 de março de 1983, o corpo de Frei Tito chegou ao Brasil. Antes de chegar a Fortaleza, passou por São Paulo, onde foi realizada uma celebração litúrgica em memória dos mortos pela ditadura de 1964: o próprio Frei Tito e Alexandre Vannucchi. Cercado por bispos e numeroso grupo de sacerdotes, Dom Paulo Evaristo Arns repudiou a tragédia da tortura em missa de corpo presente acompanhada por mais de quatro mil pessoas.


Frases de Frei Tito


«Assim suspendido, despido, eu recebi descargas elétricas de corrente contínua nos tendões dos pés e na cabeça. Os torturadores eram seis. Eles me aplicaram o "telefone" (bater as duas orelhas com a palma da mão ao mesmo tempo para fazer explodir os tímpanos) e eles me gritavam injúrias.»

«Eles lançaram algumas descargas elétricas em minhas mãos, em meus pés, em minhas orelhas e em minha cabeça. A cada descarga todo meu corpo passava a tremer como se fosse despedaçar»

«Era eu impossível saber que parte do corpo era mais doída. Eu tinha a impressão de ser esmagado por toda parte. Minha mente não era mais coordenada, eu só tinha o desejo de perder os sentidos”.

«Quando eu venho na Operação-Bandeirante, eu deixo o coração em casa. Eu tenho horror dos curas... Você conhece Fulano e Beltrano? (menciona os nomes de dois presos políticos torturados, com muita selvageria por ele), você vai ter direito ao mesmo tratamento: descargas elétricas o dia todo. Para cada um de seus NÃO, você receberá uma descarga mais importante. Havia três militares na sala. Um deles gritou: "Eu quero nomes de homens e de organizações clandestinas ".
Quando eu respondi: "Eu não sei, eu recebi uma descarga elétrica tão forte, daquelas diretamente plugadas na tomada, que eu perdi o controle de minhas funções fisiológicas .»
«Ele (o torturador) entrou nos ataques morais: Quais os padres que têm amantes? Por que a Igreja não expulsou vocês todos? Quem são os padres terroristas? Disse que a Igreja é corrupta, que pratica malversações financeiras, que o Vaticano é o proprietário das maiores empresas. A todas minhas respostas negativas, eles me davam descargas, socos, pontapés, e golpes de vara no tórax. Num determinado momento, o capitão Albernaz ordenou que eu abrisse a boca para receber "a hóstia sagrada ". Ele introduziu um fio elétrico. Eu permaneci de boca inchada, sem poder falar adequadamente. Eles gritavam contra a Igreja. Eles gritavam que os padres são uns homossexuais porque eles não são casados... Eles só pararam às quatorze horas» (nota-se que tinham começado de manhã às oito horas).

"Em minha cela eu não conseguia dormir. A dor aumentava cada vez mais. Eu tinha a impressão que minha cabeça era três vezes mais grossa que meu corpo. Era preciso acabar com isso uma vez por todas. Eu sentia que não poderia agüentar tamanho sofrimento por muito tempo. Eu estava angustiado à idéia que meus Irmãos Dominicanos pudessem sofrer a mesma coisa".

"Quando secar o rio da minha infância / secará toda dor. / Quando os regatos límpidos de meu ser secarem / minh'alma perderá sua força. / Buscarei, então, pastagens distantes / lá onde o ódio não tem teto para repousar. / Ali erguerei uma tenda junto aos bosques. / Todas as tardes me deitarei na relva / e nos dias silenciosos farei minha oração. / Meu eterno canto de amor: / expressão pura de minha mais profunda angústia. / Nos dias primaveris, colherei flores / para meu jardim da saudade. / Assim, exterminarei a lembrança de um passado sombrio.


“É preferível morrer do que perder a vida”

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