O que a religião?


Durante alguns dias tive com um amigo uma conversa que envolvia o tema da religião. Percebi num momento que o que nos separava era o conceito que tínhamos sobre o tema. Ele apresentava a fé cristã como aquilo que era maior do que as religiões fazendo destas algo completamente sem sentido e em certo sentido más. Eu já insistia numa leitura mais sociológica e existencial e menos teológico-cristã da religião.
O que é a religião? Porque elas existem? Apesar das muitas respostas dadas a essas perguntas, penso que elas revelam nossa busca, nossa sede, nossa necessidade de significados. Portanto somos todos religiosos até mesmo quando não possuímos uma religião específica ou mesmo quando negamos qualquer elemento de fé. Como já disse Rubem Alves “a religião está mais próxima de nossa experiência pessoal do que desejamos admitir.”
Não penso a religião como a Revelação de Deus, mas também não penso como inimiga da Revelação, nem mesmo como negativa, concordo com Feuerbach quando disse que “a religião é o solene desvelar dos tesouros ocultos dos homens, a revelação dos seus pensamentos íntimos, a confissão aberta de seus segredos de amor.” Se nego a religião, nego a mim mesmo, e se nego a mim mesmo, nego a busca e se não busco não encontro.
Somos filhos do Mistério, em nós há uma pergunta, uma busca, um desejo que não sabemos nomear e que ao mesmo tempo damos vários nomes e é na religião que mais se manifesta a busca desse desejo. Não podemos confundir aspectos religiosos específicos ou teologias provenientes das religiões com a religião em si, ou com o sentimento religioso.
Sou um crítico de diversas religiões, principalmente a cristã que conheço de perto, mas não confundo religiões com religião. Religiões são sistemas com liturgia e sistemas teológicos definidos, a religião é uma fala, a fala humana na busca de sentido. É na religião que a transcendência humana é revelada e que o invisível por meio do símbolo é experimentado.
Os cristãos costumam dizer que não são religiosos, que é isso que faz do cristianismo superior a todas as demais religiões da terra, pois enquanto elas buscam a Deus, Deus buscou um povo, que é a sua igreja. Nesse sentido a afirmação do cristianismo como não-religião é a base de todo o seu fundamentalismo e exclusivismo. Por causa do fundamentalismo e exclusivismo cristão deixei de ser um, mas não deixei a religião, pois continuo na busca. Enquanto os temas que envolver minha vida forem da minha busca essencial, então serei um religioso, mesmo que não tenha nenhuma religião especifica. Estamos condenados à religião, como diz Rubem Alves.
Quando falo de religião, estou seguindo a orientação de Kierkegaard que era crítico de toda análise institucional, dogmática, histórica, eclesiástica da religião. Religião é subjetividade. Seguindo as palavras de Schleiermacher, “a religião não aspira a conhecer e explicar o universo em sua natureza, como a metafísica, nem aspira a continuar o seu desenvolvimento e aperfeiçoá-lo através da liberdade e da vontade divina do homem, como a moral. A sua essência não está no pensamento nem na ação, e sim na intuição e no sentimento. Ela aspira a intuir o Universo; quer ficar contemplando-o piedosamente em suas manifestações e ações originais; quer fazer-se penetrar e preencher por suas influências imediatas, com passividade infantil.” Enquanto que nas religiões tenta-se dominar o divino por meio da conceituação na religião o homem se rende ao Mistério que o cerca, sabendo-se totalmente dependente Dele.
Enquanto não diferenciarmos as religiões da religião, sendo a primeira os sistemas e organizações e a segunda o sentimento, a busca, correremos o risco de discursamos ingenuamente sobre o tema, negando aquilo que não se pode negar.
Ivo Fernandes
20 de janeiro de 2010

Comentários

eduardo medeiros disse…
Oi Ivo, beleza? vi teu blog na lista do marcinho do "outro evangelho" e vim dar uma olhada. E fiquei feliz em achar mais um que é tocado pelo divino e pelo mistério, mas que não dá muita bola para teologia e dogma.

Crente dizer que não tem religião é um auto-engano. eles sabem que o sistema que seguem é religioso mesmo, mas como possuem o orgulho de se considerarem a pedra angular da revelação e da vontade de deus,acabam excluindo outras possibilidades de encontro com o divino.

se quiser aparecer lá na minha sala do pensamento, fique à vontade. Coicidentemente, o texto que postei essa semana fala do mesmo tema que você tratou aqui.

saladopensamento.blogspot.com

um abraço

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