segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A oração sob análise

O que estamos realmente fazendo quando oramos? Com quem realmente estamos falando? Essas perguntas dificilmente fazemos quando pensamos a oração e acabamos ignorando que todo tipo de fantasia é possível para quem ora.

Depois de um tempo ouvindo várias histórias contadas por indivíduos religiosos e de muita auto-avaliação, descobri que muitas orações não são dirigidas de fato ao Deus de Jesus, mas ao deus-eu-mesmo, uma espécie de prolongamento narcísico do próprio eu, ou um deus-criado para substituir as figuras de autoridade e poder da nossa mentalidade infantil.

O problema é que quando descobrimos isso quase que imediatamente vamos para o extremo oposto do ato de orar, ou seja, não oramos mais, no entanto, não conseguimos ignorar a consciência que nos aponta para o que nos transcende. Assim se estabelece uma crise. Mas afinal o que separa a oração ao Deus de Jesus da oração ao deus-si-mesmo?

É preciso resgatar a consciência do Pai que está nos céus, ou seja, entender que nossa oração é mediada pelos símbolos que são nossas criações para representar o que nos escapa, isso nos liberta de confundir Deus com suas representações. É preciso respeitar esse espaço vazio que há entre o crente e Deus. É necessário dá ouvidos ao silêncio divino que todo ser que realmente ora encontra. É o mistério da Ausência presente ou da Presença ausente de Deus. Quando confundimos Deus com suas representações criamos para nós mesmo outro deus que é manipulável e dado aos caprichos humanos. O deus-solução é simplesmente uma ilusão.

Depois é preciso reconhecer que oração revela mais de nós do que supomos, assim é preciso voltar para si mesmo, estabelecer um compromisso com a própria história, isso minimiza os elementos mágicos, animistas e infantis da oração. Toda oração que não se realiza com os pés na terra, ou que nega tal realidade é apenas um delírio.

Que cada um que ora, possa rever seus caminhos, entendendo que a oração delirante nos conduz a uma relação neurótica com um deus-imaginário, nos mantendo presos a visão mágica do mundo, já a oração ao Deus de Jesus nos conduz ao Evangelho, que nos liberta através de uma visão crítica do mundo e de si mesmo.

Ivo Fernandes
22 de outubro de 2010

2 comentários:

Wilson disse...

Caro Ivo, esta reflexão revela que a oração, meu tempo para o Deus de Jesus,independe da minha fé. Ao externar minhas ansiedades, as exponho à avaliação, como disse:"...não conseguimos ignorar a consciência que nos aponta para o que nos transcende...". Falo realmente com o Deus de Jesus, quando silenciosamente contemplo minhas mazelas e entendo que o Evangelho da Graça me liberta "da consciência das obras mortas", isto é, uma representação simbólica que preenche o vazio existencial, gerador da culpa que me torna ansioso e deus de mim mesmo. Quando olho para dentro de mim com o olhar de Deus, encontro Deus me olhando com os meus olhos. E isso é encantador, que bom! que Deus me enxerga com os Seus olhos que são meus.
Encontrar o mistério da Ausência presente ou da Presença ausente de Deus. Perceber toda a criação e catalizar-se a ela, é tornar-se simplesmente um com Deus, componente da Sua existência.
Reservo-me o direito de dizer que seu texto é uma pérola. Vale um mergulho ao encontro da ostra.
Sem orar Deus me permitiu encontrá-la.
Somos do Senhor.

Gresder Sil disse...

É interessante que principalmente praticamente toda oração pública é uma espécie de sermão para Deus, ou indiretamente para o povo.

Quem ao orar a deus, fala ao povo, é porque pessoalmente não ora mais a deus, e quem não ora mais a deus é porque não o vê mais como ser pessoal comunicável por palavras.

Ou ele não crê no inconsciente, mais que ainda não sabe ou inconscientemente se recusa em admitir, ou Sabe que deus só se comunica agora por sentimento e por isso não consegue formular argumentos e pronuncias para um Ser supra-pessoal que nada disso precisa.

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