A culpa e a salvação

A relação com o deus-imaginário se fundamenta na culpa, já a relação com o Deus de Jesus se fundamenta no encontro solidário, que não solicita perdão e que justamente por isso faz surgir uma sadia consciência do próprio pecado.

A dinâmica da relação com o deus-imaginário é da culpa para o perdão. A relação com o Deus de Jesus é da convicção do perdão para a transformação da vida e da sociedade em que vivemos.

A culpa constitui uma das experiências humanas mais antigas. Surgiu em nós como produto da nossa ambivalência, da incapacidade de compreender o paradoxo e a ausência daquela condição de harmonia e totalidade. Na busca da harmonia criamos um ciclo de culpa-reparação que é à base de todas as demais experiências imaginárias, das relações edipianas até as religiosas. Porém com isso dito, não podemos pensar a culpa apenas como algo patológico, pois ela dá conta de uma estrutura social que nos marca e nos define.

A culpa relacionada ao deus-imaginário é sempre uma culpa persecutória, egocêntrica que leva o indivíduo a viver para si mesmo ou para dar conta da sua culpa que jamais é terminada.

A doutrina da expiação da morte de Jesus acaba se apresentado como solução para esse esquema, solução que não dá conta da culpa, mas a afirma como necessidade para Jesus fazer sentido. A morte de Jesus é vista como uma reparação da culpa. Um sacrifício a um deus que precisa de sangue para perdoar, e todas as razões históricas da morte são completamente ignoradas. O deus-imaginário agora confundido com termos bíblicos é um deus impotente para exercer misericórdia a menos que seja satisfeito em seu desejo por sacrifícios.

O Deus de Jesus não precisa de sacrifícios dos filhos, e nem exige preços a pagar dos amados. Não há nada nas parábolas de Jesus que nos aponte para um deus que necessita de sacrifícios ou consciências culposas para amar.

A salvação do deus-imaginário, então, é sempre a salvação da culpa e de tudo que daí deriva, enquanto a salvação do Deus de Jesus não é uma salvação “da”, mas “para” o bem, a vida o Reino. A salvação do deus-imaginário põe seus filhos numa marcha em direção ao asceticismo já a salvação do Deus de Jesus põe os seus num projeto de transformação da realidade no Reino de Deus, assumindo seu próprio destino e com a disposição de carregar a cruz.

O deus-imaginário é fruto de nossos temores e angústias, tornado o autor de proibições do nosso inconsciente diante das temidas pulsões. Nosso medo vira lei de um deus que jamais se satisfaz. Já o Deus de Jesus é um Deus de vida, maior que nossa consciência, livre e libertador.

Ivo Fernandes
29 de outubro de 2010

Comentários

Anônimo disse…
Muito bom!!!!!!!!!!
Gresder Sil disse…
O deus imaginado versos o Deus de Jesus?!

O deus imaginado só pode ser o deus imaginado do senso comum das pessoas religiosas tradicionais.
Mas quem é o Deus de Jesus?

No mínimo: um deus imaginado por Jesus!

Ou não?! ou existe outra fonte e canal que não seja a imaginação e intuição de Jesus para perceber este deus “só” dele?!

E como era o deus que Jesus sentiu e intuiu?

Partindo do ponto de que criamos nossos deuses a nossa imagem, o Deus de Jesus só poderia ser um deus feito a imagem e semelhança de Jesus, que já perdoava pecados em vida antes mesmo de seu “sacrifício”.

Perdoava não porque era deus, mas por que não existia pecados, a não ser na mente das pessoas que precisava desta medida curativa para suas vidas.
Ivo Fernandes disse…
Quem é o Deus de Jesus? Boa pergunta mano. Penso que ele mesmo não respondeu essa pergunta, não do ponto de vista filosófico-teológico.

Seria então o Deus de Jesus, somente imaginação do mesmo? Talvez. Quem de fato saberá? Será em razão disso que ele falou da fé?

Talvez exista essa fonte e canal que não seja a imaginação e intuição de Jesus para perceber este deus “só” dele. Talvez tenha haver com o Amor tão amplamente ensinado por ele.

Assim digo amém à compreensão joanina – Deus é Amor, e quem ama conhece a Deus.
Cristina Faraon disse…
To so lembrando do "arrependei-vos porque é chegado o reino de Deus"...

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