sábado, 8 de outubro de 2011

A dúvida e a fé



Vivemos num tempo onde a dúvida foi entronizada. Ela já não é caminho para a verdade como na modernidade, ela é o destino. Nenhuma verdade deve ser aceita, afinal não existem verdades, tudo é apenas interpretação.

Conhecer é pôr-se em relação a alguma coisa, e um conhecimento absoluto é não somente um ideal inatingível na prática como uma contradição em termos. E a radicalidade desse pensamento não reside em afirmar que o conhecimento varia segundo o ponto de vista, e sim em negar a existência de um ponto de vista transcendente que poderia reunir os demais em uma síntese ou totalização, e que seria a única condição pela qual poderíamos conceber uma “coisa em si” para além das perspectivas. Dito de outro modo, o que está em questão não é a possibilidade de conhecermos a verdade, mas a existência mesma da verdade, isto é, de um estado de coisas constituído do qual o conhecimento seria a representação mais ou menos exata.

Assim o caminho proposto é semelhante ao do eremita de Nietzsche: “[Um eremita] duvidará inclusive de que um filósofo possa ter opiniões “verdadeiras e últimas”, e que nele não haja, não tenha de haver, uma caverna mais profunda ainda por trás de cada caverna — um mundo mais amplo, mais rico, mais estranho além da superfície, um abismo atrás de cada chão, cada razão, por baixo de toda “fundamentação”. (Além do bem e do mal, § 289.)

Do outro lado está o sujeito religioso a assegurar a sua convicção inabalável, a sua certeza absoluta e o seu acesso perfeito à verdade divina. Admitir a remota possibilidade de não estar alinhado à verdade absoluta, constitui-se em uma fraqueza inadmissível para uma boa parte de religiosos.

Entre esses dois grupos estão os cristãos e teólogos pós-modernos, tentando fazer uma teologia que abra mão dos absolutos metafísicos. Uma teologia que rejeita o Deus Absoluto da tradição cristã e o Totalmente Outro da neo-otodoxia, forjando um Deus que permaneça vivo ainda que morto, um Deus que permaneça presente ainda que ausente, um Deus que não atrapalhe a entronização da dúvida.

E o que Jesus disse sobre essas coisas? Uma leitura das fontes que nos apresentam seus ensinos nos mostra que ele jamais teceu elogios à dúvida. Todas as vezes que a citou foi contrapondo a fé. Jesus não se dedica a questões que envolvem compreender Deus, ele não tem um Deus para compreender, mas para obedecer.

Isso então quer dizer que não há espaços para a dúvida na fé cristã? Eu responderia que não há espaço para a dúvida na Fé Jesuológica que é um ato de paixão, um ímpeto na direção do Impossível, e não um saber, um sentir ou um querer.

Concordando com Soren Kierkegaard que diz em Temor e tremor: “A fé é um assombro e, contudo, nenhum ser humano é excluído dela; pois a paixão reúne a vida humana e a fé é essa paixão”. A fé, portanto, não é algo que se possa dar, receber e muito menos entender, mas é a chave que apaixonadamente nos ajuda a tomar decisões.

A dúvida não está para a fé, mas para a crença, pois esta tem haver com o saber, e mesmo nas crenças fundamentalistas onde a dúvida é negada epistemologicamente, na verdade com isso ela é afirmada. É uma relação dialética, crença versus dúvida.

Desta forma posso afirmar que a dúvida está em mim e a fé também e só não são excludentes porque são de ordens completamente diferentes. Assim aquele que tem fé, duvida, mas jamais do objeto de sua fé, mas de toda e qualquer construção do saber.

Eu posso dizer então que duvido, mas isso não me gera uma crise de fé. Posso mudar minhas crenças movido por dúvidas, mas jamais minha fé, pois a semelhança  de um personagem de Dostoiévski: “[...] se lhe provassem matematicamente que a verdade estava fora de Cristo, você aceitaria melhor fi car com Cristo do que com a verdade?”.Toda sua vida ele guardou um sentimento exclusivo, um amor exaltado por sua face divina [...] se alguém me demonstrasse que Cristo está fora da verdade e se realmente a verdade estivesse fora de Cristo, melhor para mim seria querer ficar com Cristo do que com a verdade” (DOSTOIEVSKI, F. M. Os demônios. p. 249, 250)

Ivo Fernandes
9 de outubro de 2011

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