sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Como caíram os valentes!


O título desse texto é o lamento de Davi pela morte de Saul e Jônatas no campo de batalha. A história dos judeus Deus não é apenas uma história de glória, mas é também uma feia novela de relacionamentos quebrados, infidelidade, ambição, orgulho, política de força e atos imorais e consequentemente de queda dos valentes.

Essa semana entre os vários acontecimentos que envolvem a corrupção em nosso país, duas cenas me chamam a atenção, a prisão de Garotinho e de Sérgio Cabral. A razão pela qual destaco essas duas histórias é porque os dois foram figuras que despontaram no cenário político brasileiro como ícone de moralidade e que acabaram preso acusados de diversos crimes. A cena da prisão de ambos ficará para nossa história política e a de Garotinho com cenas deprimentes.

Como caíram os valentes!

Há mais de 10 anos vivi bem de perto a queda de um valente. Um jovem pastor que me convidara a pastorear sua igreja e que aceitei por ter me encantando com tudo que vi ali. Um homem carismático, eloquente, que tinha um crescente número de adeptos apaixonados por ele e completamente obedientes. Pois bem, vi esse homem ruindo até o seu assassinato na frente de sua família e de sua comunidade religiosa.

Como caíram os valentes!

Mas porque caíram? 

Penso que entre as muitas causas que levam os valentes caírem uma das principais é a sensação de onipotência que vai tomando a mente na medida em que vão conseguindo tudo que querem e nada parece os impedi-los e associado a isso uma impressão de se estar além do bem e do mal se instala no ser. É o que podemos chamar de síndrome de onipotência, que atinge com frequência políticos, empresários, autoridades religiosas, mafiosos, pessoas geniais, vencedores.

Essa síndrome tem sua gênese no relato bíblico do Édem, quando o homem desejou “ser como Deus”. Mesmo sabendo que era contra a ordem de Deus o homem preferiu obter o que desejava. A sedução do poder, do prazer e do ter foi maior que a obediência. "E vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela." (Gn 3.6.).

E como se evita tal desejo, ou como se impede que tal desejo nos destruam?

Ironicamente a única cura para esse mal da onipotência nos é dada pelo único de fato Poderoso. Transcrevo aqui o entendimento do apóstolo Paulo sobre o caminho da cura, e o único caminho de evitar a queda dos valentes.


Portanto, se há algum conforto em Cristo, se alguma consolação de amor, se alguma comunhão no Espírito, se alguns entranháveis afetos e compaixões,
Completai o meu gozo, para que sintais o mesmo, tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo, sentindo uma mesma coisa. Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo.Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros. De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.
Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, E toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai. De sorte que, meus amados, assim como sempre obedecestes, não só na minha presença, mas muito mais agora na minha ausência, assim também operai a vossa salvação com temor e tremor; Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade. Fazei todas as coisas sem murmurações nem contendas; Para que sejais irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis, no meio de uma geração corrompida e perversa, entre a qual resplandeceis como astros no mundo; Retendo a palavra da vida, para que no dia de Cristo possa gloriar-me de não ter corrido nem trabalhado em vão.
E, ainda que seja oferecido por libação sobre o sacrifício e serviço da vossa fé, folgo e me regozijo com todos vós. E vós também regozijai-vos e alegrai-vos comigo por isto mesmo.
Filipenses 2:1-18

domingo, 20 de novembro de 2016

Ele derrubou os muros


Leitura Bíblica: "Pois foi Cristo quem nos trouxe a paz, tornando os judeus e os não-judeus um só povo. Por meio do sacrifício do seu corpo, ele derrubou o muro de inimizade que separava os judeus dos não-judeus." – Ef. 2.14

Esse é um tempo onde os homens voltaram a levantar muros. Muros físicos, morais, virtuais, espirituais, separando as pessoas e com essa separação estabelecendo uma nova onda de ódio e atos contra o próximo.

Apenas algumas décadas das últimas grandes guerras e já esquecemos daquilo que as promoveram e novamente erguemos bandeiras de preconceito e toda espécie de segregação. Nos 35 anos da minha existência nunca senti tão forte a presença dos muros como estou sentindo nesse tempo.

Para quem não se recorda dos fatos ou mesmo desconhece a História, Lúcia Hipólito, jornalista da Rádio CBN, resumiu com brilhantismo um evento onde muros foram erguidos – trata-se do muro de Berlim - esse evento sócio-político insano, que não apenas dividiu a Alemanha, dividiu o Planeta. Acompanhe o resumo:

"Em 13 de agosto de 1961, com o acirramento da Guerra Fria e com a grande migração de berlinenses do lado oriental para o ocidental, o governo da Alemanha Oriental resolveu construir um muro dividindo os dois setores. Dele faziam parte 66,5 km d
e gradeamento metálico, 302 torres de observação, 127 redes metálicas eletrificadas com alarme e 255 pistas de corrida para ferozes cães de guarda. Foi também proibido a passagem das pessoas para o setor ocidental da cidade. Checkpoint Charlie, um dos pontos de passagem entre os lados da cidade. A construção do muro – símbolo da separação dos blocos capitalistas e comunistas – não respeitou casas, prédios ou ruas. Policiais e soldados da Alemanha Oriental impediam e até mesmo matavam quem tentasse ultrapassar o muro. Muitas famílias foram separadas da noite para o dia. Pelo menos 80 pessoas morreram, 112 ficaram feridas e milhares foram aprisionadas nas diversas tentativas de atravessá-lo. Sua estrutura chegou a ser reforçada por quatro vezes."

Ora, hoje nações elegem presidentes que prometem erguer novos muros de separação. Muros físicos para separar nações, muros legais para separar orientações sexuais diferentes, muros morais para separar homens e mulheres, muros espirituais para separar humanos.

E em que se fundamentam esses muros?

Todo muro se fundamenta na noção de superioridade, de qualquer tipo que seja. Povos, religiões, culturas que se acham superiores, passando a condenar tudo aquilo que é diferente e que aponta as fraquezas de sua suposta supremacia. A questão é que não existem superiores de nenhuma forma. 

O conselho bíblico é que imitemos a Cristo:

Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo. Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros.
De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus,
Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.
Filipenses 2:3-8
Lembrando que:
Os olhos altivos, o coração orgulhoso e a lavoura dos ímpios é pecado. Provérbios 21:4
Aquele que murmura do seu próximo às escondidas, eu o destruirei; aquele que tem olhar altivo e coração soberbo, não suportarei. Salmos 101:5
Abominação é ao Senhor todo o altivo de coração; não ficará impune mesmo de mãos postas. Provérbios 16:5

A arrogância, a presunção e a ganância do ser humano são o cimento e as pedras que continuam erguendo muros de separação por toda a parte.

Imitar a Jesus é derrubar muros de separação, é abrir caminhos para todos. E como fazer isso?

Primeiro derrubando muros interiores construídos dentro de nós por nossa cultura e religião. Se acolhemos qualquer ideia de superioridade, precisamos eliminá-las de dentro de nós com urgência.

Lembremo-nos, não fomos chamados para sermos os melhores, mas os servos.

Lembrem-se desse exemplo:
Ora, antes da festa da páscoa, sabendo Jesus que já era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, como havia amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim. E, acabada a ceia, tendo já o diabo posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que o traísse, Jesus, sabendo que o Pai tinha depositado nas suas mãos todas as coisas, e que havia saído de Deus e ia para Deus, Levantou-se da ceia, tirou as vestes, e, tomando uma toalha, cingiu-se. Depois deitou água numa bacia, e começou a lavar os pés aos discípulos, e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido.
Aproximou-se, pois, de Simão Pedro, que lhe disse: Senhor, tu lavas-me os pés a mim? Respondeu Jesus, e disse-lhe: O que eu faço não o sabes tu agora, mas tu o saberás depois. Disse-lhe Pedro: Nunca me lavarás os pés. Respondeu-lhe Jesus: Se eu te não lavar, não tens parte comigo. Disse-lhe Simão Pedro: Senhor, não só os meus pés, mas também as mãos e a cabeça.
Disse-lhe Jesus: Aquele que está lavado não necessita de lavar senão os pés, pois no mais todo está limpo. Ora vós estais limpos, mas não todos.
Porque bem sabia ele quem o havia de trair; por isso disse: Nem todos estais limpos. Depois que lhes lavou os pés, e tomou as suas vestes, e se assentou outra vez à mesa, disse-lhes: Entendeis o que vos tenho feito?
Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou.
Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou.
Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as fizerdes.
João 13:1-17

Esse é o caminho que fomos chamados a trilhar, o de lavar os pés uns dos outros. Cristo nos trouxe a paz, derrubando muros de inimizade, façamos o mesmo. Usemos o martelo do perdão e do amor e derrubamos os muros da arrogância e da presunção. Pois muros nos tornam todos escravos e prisioneiros.

Ivo Fernandes

13 de novembro de 2016

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

O inferno



Leitura sugerida: Mt 5.29

Ao longo da história do cristianismo, diversas interpretações acerca do inferno foram formuladas, muitas dessas interpretações mesmo que medievais ainda regem o pensamento de muitos cristãos. Porém, no decorrer desses séculos o inferno foi pensado e repensado. É um tema que volta mesmo entre nós, os do Caminho. Alguns ainda questionam sobre a condenação dos homens. Quando criticamos teorias sobre o inferno, somos tachados rapidamente de universalistas, como se afirmássemos que todos serão salvos até contra a própria vontade.

Em determinados grupos cristãos o inferno é tão presente como tema, que certa vez ouvi um líder neopentecostal dizer que "a Bíblia se refere muito mais ao inferno do que ao Reino..." o que é evidentemente uma grande mentira, que para mim só revela a má intenção de tal pregador. A verdade é que os termos associados ao céu ocorrem cerca de 269 só no NT, enquanto os termos relacionados ao inferno só ocorrem 28 vezes. E isso no NT pois no AT o inferno como nós fomos ensinados não faz o menor sentido.

Na minha infância inferno basicamente era o lugar para onde ia os membros de todas as demais religiões ou de outros grupos cristãos diferentes do meu. Ou seja, a arrasadora maioria das pessoas. Na adolescência servia para evitar que pecasse, os chamados pecados sexuais. E na vida adulta, tornou-se uma arma contra os adversários.

Mas vamos começar uma análise. Afinal o que sabemos sobre esse tema? A palavra inferno, que hoje conhecemos, origina-se da palavra latina pré-cristã infernus "lugares baixos", infernus. Na Bíblia latina, a palavra é usada para representar o termo hebraico Seol e os termos gregos Hades e Geena, sem distinção. A maioria das versões em idioma Português seguem o latim, e eles não fazem distinção do original hebraico ou grego. Das palavras Hades e Sheol, ambas com mesmo significado, tendo conotação clara de um lugar para onde os mortos vão, todos eles. O próprio Jesus foi, pois refere-se a sepultura, sua câmara mortuária. Diz as escrituras “ele não foi esquecido no Inferno, foi ressuscitado ao terceiro dia”.

Na época de Cristo, o mundo dos mortos não possuía a importância e a função infernal como tal conhecemos hoje. Foi no século IV que o inferno passou a ganhar força e importância no cristianismo e surgiu uma doutrina cristã acerca da visita de três dias de Cristo ao Mundo dos Mortos. Nesta fase, o inferno cristão, enquanto produto do pensamento Ocidental, começava a se tornar no inferno mais bem elaborado que se tem registro. Ela passou a ser elaborada conforme o desenvolvimento da teologia dogmática e alcançou seu auge na Idade Média como podemos encontrar na famosa obra de Dante – A divina Comédia.

O inferno, segundo Dante, possui nove estágios. Os cinco primeiros estão no limbo: (1) lugar das almas não batizadas, (2) dos sensuais, (3) gulosos, (4) avarentos e pródigos, e (5) furiosos. No Baixo Inferno estão (6) hereges e incrédulos, (7) os que pecaram contra o próximo, contra si mesmo e contra Deus, (8) sedutores, adulteradores, adivinhadores, hipócritas, ladrões, maus conselheiros e fundadores de seitas, e (9) traidores da família, da pátria, dos amigos e dos benfeitores. Ainda, no lugar mais baixo do inferno está o Diabo. O comando do Diabo é ambíguo: é o império do reino doloroso e, ao mesmo tempo, o império do nada.

A crença no inferno como saída para o mal denota em submissão ao catolicismo e, ao mesmo tempo, paradoxalmente, em um ódio que não se harmoniza com os preceitos dos Evangelhos.

Sendo assim porque então esse tema sempre volta, até em círculos como os dos caminhantes? Creio que por causa de má compreensão soteriológicas. A questão da salvação é fundamental para a configuração de “infernos”. A exclusividade da salvação coloca em jogo discursos moralistas e formas de viver. Para a maioria dos cristãos a salvação é um bem exclusivo dos adeptos dessa religião. Até mesmo um ateu com boas intenções não poderia se salvar.

A exclusividade da salvação é um dos fatores determinantes na configuração do imaginário do céu e do inferno na teologia sistemática. Teólogos que tentaram mostrar outras formas de pensar a salvação foram excluídos e considerados herege pela igreja.

Mas afinal, o inferno existe? Gosto de pensar com Karl Rahner que disse “O inferno é uma Virtualidade”. O inferno não é um lugar, mas é um estado, uma situação. Está muito mais ligado a vida do que a pós vida. Assim da mesma maneira que não se pode negar a existência do mal, não se pode negar situações infernais na vida. Sobre a condenação pós-morte ninguém pode afirmar que não existam condenados, nem que os condenados são numerosos, ou que não existem nenhum. Conhecemos, somente, uma coisa: se o mal não for combatido energeticamente, o inferno será a realidade entre nós e por nós.

E engana-se que com isso a tragédia do inferno é diminuída. Não há nada mais trágico do que a perda da singularidade, da ameaça de não ser e não poder vir a ser. O inferno é o aniquilamento do ser e do vir-a-ser. O inferno é uma experiência radical e possui significados profundos.  O inferno é a vida sem Deus. E como é possível uma vida sem Deus? Não é possível realmente, mas é possível virtualmente, ou seja, é possível a mente ser imersa numa condição infernal. E como isso se dá? Quando negamos o que somos em Deus, ou seja quando negamos o status de criatura finita e colocamos nossa força vital e motivação existencial num determinado grupo, apenas, ou em si mesmo, e não em Deus.

Ora qualquer outra ideia do inferno não posso aceita-la pois não condiz com minha fé no amor de Deus. Posso retratar isso com a parábola de Rubem Alves

“ Era uma vez um velhinho simpático que morava numa casa cercada de jardins. O velhinho amava os seus jardins e cuidava deles pessoalmente. Na verdade fora ele que pessoalmente o plantara – flores de todos os tipos, árvores frutíferas das mais variadas espécies, fontes, cachoeiras, lagos cheios de peixes, patos, gansos, garças. Os pássaros amavam o jardim, faziam seus ninhos em suas árvores e comiam dos seus frutos. As borboletas e abelhas iam de flor em flor, enchendo o espaço com as suas danças. Tão bom era o velhinho que o seu jardim era aberto a todos: crianças, velhos, namorados, adultos cansados. Todos podiam comer de suas frutas e nadar nos seus lagos de águas cristalinas. O jardim do velhinho era um verdadeiro paraíso, um lugar de felicidade.

O velhinho amava a todas as criaturas e havia sempre um sorriso manso no seu rosto. Prestando-se um pouco de atenção era possível ver que havia profundas cicatrizes nas mãos e nas pernas do velhinho. Contava-se que, certa vez, vendo uma criança sendo atacada por um cão feroz, o velhinho, para salvar a criança, lutou com o cão e foi nessa luta que ele ganhou suas cicatrizes.

Os fundos do terreno da casa do velhinho davam para um bosque misterioso que se transformava numa mata. Era diferente do jardim, porque a mata, não tocada pelas mãos do velhinho, crescera selvagem como crescem todas as matas. O velhinho achava as matas selvagens tão belas quanto os jardins. Quando o sol se punha e a noite descia, o velhinho tinha um hábito que a todos intrigava: ele se embrenhava pela mata e desaparecia, só voltando para o seu jardim quando o sol nascia. Ninguém sabia direito o que ele fazia na mata e estranhos rumores começaram a circular. Os seres humanos têm sempre uma tendência para imaginar coisas sinistras. Começaram, então, a espalhar o boato de que o velhinho, quando a noite caía, se transformava num ser monstruoso, parecido com lobisomem, e que na floresta existia uma caverna profunda onde o velhinho mantinha, acorrentadas, pessoas de quem ele não gostava, e que o seu prazer era torturá-las com lâminas afiadas e ferros em brasa. Lá – assim corria o boato – o velhinho babava de prazer vendo o sofrimento dos seus prisioneiros.

Outros diziam, ao contrário, que não era nada disto. Não havia nem caverna, nem prisioneiros e nem torturas. Essas coisas existiam mesmo era só na imaginação de pessoas malvadas que inventavam os boatos. O que acontecia era que o velhinho era um místico que amava as florestas e ele entrava no seu escuro para ficar em silêncio, em comunhão com o mistério do universo.”

Bom! Em que versão acreditar? Eu já fiz minha escolha. Creio na bondade de Deus e por isso o amo. Jamais amaria um Deus que tem um inferno guardado para os homens.

E a Bíblia? Creio em suas parábolas e parábolas são metáforas que falam sobre os cenários da alma humana. E as parábolas não falam sobre um lugar exterior chamado inferno. Elas falam do fogo que jamais se acaba, dentro da alma, a não ser pela fé e pelo amor.

Alguns insistirão. Então você não crer no inferno Ivo? Para quem ainda não entendeu tudo que disse, termino com as palavras de Lutero: “o inferno existe, mas Deus é tão generoso que não manda ninguém para lá.”

Ivo Fernandes
16 de outubro de 2016

 

terça-feira, 11 de outubro de 2016

O bem e mal no ensino de Jesus


Leitura Inicial Recomendada:

“Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal” Mateus 6:34
“E não nos conduzas à tentação; mas livra-nos do mal; porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amém.” Mateus 6:13

O Século XX é considerado um dos séculos mais sangrentos da história da humanidade. Somente na segunda guerra mundial cerca de 60 milhões de pessoas morreram, incluindo cerca de 20 milhões de soldados e 40 milhões de civis. 5,6 a 6.1 milhões de judeus foram executados ou mortos como prisioneiros de guerra nos campos de concentração.

Também no século XX que presenciamos o genocídio brutal dos Tutsis em Ruanda. Mais de 500.000 pessoas foram massacradas. Quase todas as mulheres foram estupradas. Muitos dos 5.000 meninos nascidos dessas violações foram assassinados. No mesmo continente africano, de 1948 a 1994, a África do Sul viveu sob o regime de segregação racial, conhecido como Apartheid, onde uma minoria branca e cristã sobrepujou os direitos de cidadania e a liberdade de uma maioria negra, promovendo um dos fenômenos sociais mais violentos vistos no século XX.

Tudo isso nos leva a pensar a questão do mal, o que já fizemos em outras oportunidades que podem ser vistos aqui:



A questão do mal sempre ocupou um lugar de grande destaque na teologia e na filosofia, trata-se de um tema complexo.

No campo filosófico, Epicuro (341 a.C., Samos — 271 ou 270 a.C., Atenas) já alertava para o grande dilema:

“Ou Deus quer tirar o mal do mundo, mas não pode; ou pode, mas não quer tirá-lo; ou não pode nem quer; ou pode e quer. Se quer e não pode, é impotente; se pode e não quer, não nos ama; senão quer nem pode, não é o Deus bom, e, além do mais, é impotente; se pode e quer – e esta é a única alternativa que, como Deus, lhe diz respeito – de onde vem, então, o mal real e por que não o elimina de uma vez por todas?”

No campo teológico essa questão ganha sua resposta primeiramente com Santo Agostinho na sua formulação da doutrina do pecado original. Assim ele retira de Deus a culpa pelo mal. Deus não pode ser considerado responsável pelo mal, nem por sua origem, nem por sua conservação, a não ser por “permissão” para proteger a liberdade humana.

O fato é que o mal existe, se podemos discutir a realidade do mal metafísico não podemos negar o mal físico e moral, ou seja o mal é um problema humano que nos afeta a todos. Somos seres finitos e a finitude implica imperfeição, e o que sofre de imperfeição é passível do mal, pois está em processo de construção. Porém a finitude não é o mal. É tão somente sua condição de possibilidade: condição que torna inevitável sua aparição. E por que, então, Deus criaria um mundo onde a possibilidade do mal seria inevitável? Se Deus cria, não pode criar-se a si próprio: tem de criar um mundo finito. Mas, se o mundo é finito, comporta necessariamente o mal.

E como Jesus vê essa questão?

Não há nos relatos dos evangelhos nenhuma teologia ou filosofia sistemática proposta por Cristo. Ou seja, ele não se detém na explicação do mal, apenas assume sua realidade e a partir daí desenvolve uma práxis pregando aos que sofrem, socorrendo os feridos e consolando os pobres e marginalizados. A sua mensagem tinha como ponto fundamental uma nova imagem de Deus, o Abbá. Não explicou o mal, mas o experimentou e o combateu. E estimula a fé em Deus apesar do mal. Não se trata de uma questão de onipotência ou soberania, e sim de amor. Ter fé no amor de Deus. Essa nova perspectiva faz toda a diferença: crer que Deus cria por amor e que por isso toda a sua força está sendo aplicada em ajudar na luta contra o mal, contra tudo aquilo que fere, oprime e distorce.

Com isso Jesus nos ensina não sobre origem do mal, mas como combate-lo. Nos leva assumir uma postura que contrarie as estruturas sociais dominadas pela maldade, todas as formas de opressão e descaso para com o humano.

O que sei é que o mal é ambíguo, portanto, não cabem rotulações e simplificações, sejam elas, religiosas, filosóficas ou políticas. Por outro lado, gastar tempo nas explicações do mal não irá nos ajudar. É preciso seguir as orientações apostólicas que compreenderam o espírito de Cristo ao nos aconselhar o que segue:

Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem. Romanos 12:21
A ninguém torneis mal por mal; procurai as coisas honestas, perante todos os homens. Romanos 12:17
Vede que ninguém dê a outrem mal por mal, mas segui sempre o bem, tanto uns para com os outros, como para com todos. 1 Tessalonicenses 5:15
O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor. Romanos 13:10
Amado, não sigas o mal, mas o bem. Quem faz o bem é de Deus; mas quem faz o mal não tem visto a Deus. 3 João 1:11
Porque melhor é que padeçais fazendo bem (se a vontade de Deus assim o quer), do que fazendo mal. 1 Pedro 3:17
Não tornando mal por mal, ou injúria por injúria; antes, pelo contrário, bendizendo; sabendo que para isto fostes chamados, para que por herança alcanceis a bênção.1 Pedro 3:9
Aparte-se do mal, e faça o bem; Busque a paz, e siga-a.1 Pedro 3:11

Ivo Fernandes

11 de outubro de 2016

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Os dois caminhos


Leitura recomendada: Mt 7. 13.29

Dois caminhos, talvez o termo mais conhecido entre os cristãos. Desde a meninice que somos apresentados os caminhos da perdição e da salvação, do céu e do inferno, do bem e do mal. O problema é que a maneira com que a religião cristã em sua versão ortodoxa fundamentalista nos apresenta esse tema não correspondem ao ensino simples e profundo de Jesus.

Em geral o ensino religioso cristão ainda está atrelado a contrapor vida católica-evangélica, tida como vida santa, o caminho certo, e a vida mundana (ou a não religiosa) vista como o caminho errado. Assim quem segue a cultura da igreja seguirá para o céu, porém quem segue a cultura de fora da igreja irá para o inferno. E a coisa no decorrer dos anos só piorou pois a cultura da igreja ficou cada vez mais pobre e a do mundo cada vez mais atraente. Assim o passaporte para o céu era a estar condenado a uma vida sem graça, sem prazer, sem alegria. E o inferno passou a ser sedutor por reunir tudo de bom que poderíamos desejar, fazendo com que boa parte dos jovens começassem a reproduzir a frase: prefiro o inferno, lá estarão meus amigos.

Mas apesar da perversão do ensino que a religião fez do tema dos dois caminhos, ele é um tema do Evangelho. Jesus anunciou dois caminhos, um que começa por uma porta estreita e que conduz a salvação e outro que começa com a porta larga e nos conduz a perdição.

O tema dos caminhos está atrelado a denúncia dos falsos profetas, esses tais são os que apregoam um caminho largo, fácil, mas engana-se que atrelado a prazeres normais da vida, a facilidade desse falso caminho não se refere a uma vida feliz mas ao anúncio de fórmulas fáceis e infalíveis para uma vida bem-sucedida, em troca basta a submissão dos adeptos ao controle de tais profetas. O caminho largo é o caminho da barganha com Deus incentivado por líderes carismáticos mas sem caráter, líderes que exploram as emoções e a economia do povo. É um caminho onde a obediência a Deus é trocada pela obediência aos falsos profetas e suas formulas mágicas.

Ao contrário, o caminho da salvação começa com a Porta é estreita mas leva para o caminho do amor. E por que é estreita? Porque não há nada que os nossos instintos mais aborreçam do que o amor. Sim! O amor tudo sofre. E quem gosta de ser abusado? Tudo Suporta. E Quem aceita ser provocado? Tudo perdoa. E quem está disposto a perdoar sempre? O Caminho é Estreito porque tudo se concentra numa só coisa: amar.

Não cabem nesse caminho justiça própria, orgulho, desejos de poder, juízos ou qualquer mal contra quem quer que seja.

O caminho estreito é o caminho da cruz; é o caminho dos que choram; é o caminho dos buscam a justiça; é o caminho da bondade; e entrar pela porta estreita requer empenho, esforço, enquanto que o caminho largo é o caminho da prosperidade fácil; o caminho da ilusão; o caminho da mentira.

Quem prefere a dureza da realidade a tranquilidade de uma ilusão? Quem prefere o Evangelho aos mestres da auto-ajuda? Quem prefere a fé as crendices?

O caminho de Cristo é da porta estreita e o Caminho do anticristo é largo.

Escolha hoje que caminho seguirá.

Ivo Fernandes

25 de setembro de 16

domingo, 25 de setembro de 2016

Religião, espiritualidade e transtornos



São muitos anos de escuta clínica-pastoral e um dado arrasador é que na maioria das pessoas os diversos distúrbios emocionais e mentais têm relação direto com a religião. Sigmund Freud acreditava que a religião causava sintomas neuróticos e, possivelmente, até mesmo sintomas psicóticos. Em Futuro de uma Ilusão, Freud (1962) escreveu: “Religião seria assim a neurose obsessiva universal da humanidade...”, e baseado em minha experiência posso afirmar que em muitos casos é exatamente assim que ocorre.

Freud pensava que as crenças religiosas tinham suas raízes em fantasia e ilusão e poderiam ser responsáveis pelo desenvolvimento de psicoses (embora nunca tenha atribuído diretamente a causa da psicose à religião, apenas à neurose). Esta visão negativa de religião no campo da saúde mental permaneceu até os tempos modernos. Porém, esta perspectiva negativa relativa à religião não se baseava em pesquisas sistemáticas nem em cuidadosas observações objetivas. Hoje fica claro que a religião também tem outro lado, e inversamente também gera benefícios sociais e psicológicos. Com isso podemos dizer que existe uma religião maléfica – produtora de distúrbios e uma saudável, que chamarei aqui de espiritualidade.

Há evidências mostrando que as pessoas se tornam mais religiosas quando estão doentes, tanto física como mentalmente. Em situações de alto estresse psicológico, a religião é frequentemente buscada para auxiliar a lidar com as situações de sofrimento. O problema aqui é que no meio desse processo revela-se a manifestação dos delírios religiosos. Mas como separar o que é um delírio religioso e uma experiência legítima de espiritualidade? Em pacientes psicóticos, delírios religiosos são habitualmente acompanhados por outros sintomas e/ou comportamentos de doença mental, e não parecem ter nenhuma função positiva, enquanto as experiências legítimas de espiritualidade são extremamente benéficas no melhoramento do homem.

A prática religiosa adoecida é marcada por uma repetição constante e obsessiva, atrelada a crenças nitidamente danosas ao ser e envolvidas em religião de controle, e não importa o quão óbvio é a falsidade do processo, esse tipo de religião é marcada por um dogmatismo completamente desprovido de espírito crítico.

Uma das formas que tenho usado para avaliar e distinguir experiências psicóticas de experiência religiosa normal é o nível de prejuízo da capacidade de a pessoa desempenhar suas atividades diárias. Se o desempenho social ou ocupacional for prejudicado, então a chance da crença ou experiência religiosa ser patológica é imensa. Pessoas com espiritualidade sadia ao contrário apresenta frequentemente com o passar do tempo um resultado positivo, como maior maturidade e crescimento psicológico ou espiritual.

O fato mais claro é que a religião em geral faz mal aos doentes emocionais e mentais, porém a espiritualidade é um mecanismo terapêutico poderoso no processo de cura. A religião tanto gera, como mascara, e intensifica doenças, já a espiritualidade as revela e as ajuda no processo de cura.

Religião (aqui do modo exposto) é um conjunto de crenças e práticas firmadas em dogmas que não admitem contraditórios, e que se fundamentam na autoridade da instituição e de seus representantes, enquanto Espiritualidade é um modo de vida de fé que qualifica todas as percepções, interpretações, atitudes, e decisões de uma pessoa.

Jesus possuía uma religião exclusivamente do ponto de vista sociológico, e não no sentido aqui exposto, pois seguindo o raciocínio desse texto o que ele possuía era uma espiritualidade. (Mais informações sobre a religião do ponto de vista sociológico ver: O que é religião? )

E a espiritualidade de Jesus não era desprovidas de disciplinas espirituais como alguns hoje parecem querer viverem as suas. Jesus orava, jejuava, cantava louvores, fazia reuniões de oração e pregava, intercedia por doentes e oprimidos além de acolher pessoas, andar com elas.

Dessa forma afirmo a importância da espiritualidade nos processos de cura e apoio todo afastamento da má religião. Eu mesmo sou discípulo da espiritualidade de Jesus e enquanto mentor de um grupo que se reúne em torno da fé continuo promovendo cultos, reuniões, ceia, batismos, sustento de pessoas, e anuncio a Palavra; e faço tudo isso sem ser um movimento da religião conforme aqui descrito, mas sim da espiritualidade e essa segundo Jesus.

Ivo Fernandes

18 de setembro de 16

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