domingo, 15 de maio de 2016

Alma Roubada


Durante as últimas reuniões da Estação do Caminho da Graça falei sobre a questão da identidade e da representação, que levantou muitas questões resultando no texto “identidade?! De Deus”. Porém as questões não se esgotam. Ao afirmar que a identidade não é algo dado, pronto, acabado a qual simplesmente seguimos como lei, não quer dizer que não tenhamos uma unidade no eu. Sim, há um eu como plataforma donde se pode a dança das máscaras, donde surge nossas personalidades. Podemos chamar esse eu de alma. Logo, o eu não é uma representação, mas é uma condição que a permite.

Existe algo nessa alma que seja dela mesma? Sim! Trata-se daquilo que garante a unidade do ser, fazendo com o que, independente de quantas máscaras tenhamos saibamos ainda do eu que somos. E este eu deve permanecer livre das máscaras para que possa fazer sua gerência. Quando a alma é capturada então perde-se o eu dinâmico e livre e torna-se escravo da imagem.

O curta-metragem “Alma” de Rodrigo Blaas (2009) me foi útil para explicar aos meus alunos tais questões! Alma, a pequena personagem, trilha sua saga através de uma busca incessante pelo contato com uma boneca idêntica a ela e que ao final, acaba roubando a de si mesma.

O drama começa com “Alma” passeando distraída pelas ruas desertas e geladas até se deparar com uma parede repleta de assinaturas de outras pessoas e crianças. Nosso nome e nossa assinatura são símbolos de identidade. Isso faz com que ela também sinta vontade de deixar sua marca naquele lugar. Neste momento, do outro lado da calçada surge na vitrine de uma loja, uma boneca idêntica a ela, que a seduz de modo surpreendente.

Interessante! De deixar a marca de uma identidade – o nome – ela é seduzida para outra – a autoimagem. O desejo de si mesmo, de possuir o que seria ela mesma. Possuir a imagem de si.

Neste caso, não há como não associar a personagem ao mito de Narciso. Em sua história, o belo jovem apaixona-se por sua própria imagem e ao tentar beijá-la cai na água e se afoga. Quando o personagem mitológico encontra sua imagem refletida na água se vê revelado por meio do seu reflexo. Porém, por não conseguir diferenciar e compreender o que vê, confunde sua imagem projetada fora de si como um OUTRO que deseja possuir e seu encantamento faz com que isso lhe custe sua própria vida.

O mesmo ocorre com Alma, que encantada com a boneca idêntica a ela não resiste a querer possuí-la. Ao tocá-la, a personagem é transportada para dentro do objeto e quando percebe o ocorrido, de dentro da sua nova casa, entende que outras almas também foram roubadas. Uma nova boneca é elevada na vitrine, à espera da próxima vítima.

Qual a consequência de desejar a imagem de si mesmo? Perder a alma! Pois o si mesmo desejado não é alma, mas uma representação, uma identidade, uma máscara. Ser o si mesmo, é deixar de ser eu. Por essa razão está proibido fazer imagem de qualquer coisa que seja.

Buscar a imagem de si é idolatria. Não são as imagens de nós mesmos o que somos. Essas imagens são forjadas na relação entre eu e o mundo, são imagens necessárias, mas não podem deixar de serem dinâmicas. Não se pode furtar a alma de sua liberdade estabelecendo o reino da imagem. Sim! Não é livre aquele que se tornou a imagem de si. A alma só é livre mantendo-se como plataforma para vários devires.

Concluo com essa poesia de Manoel de Barros

Retrato do artista quando coisa

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

Ivo Fernandes
15 de maio de 2016


quarta-feira, 11 de maio de 2016

A identidade?! De Deus


Como fruto de uma mensagem por mim pregada sobre a questão das identidades, onde fiz uma apresentação sobre a representação na filosofia e na psicologia, mostrando os desdobramentos sociais e políticos da existência de uma identidade ou representação, e a proposta dos usos das máscaras conscientes, me chegou por meio de um dos meus ouvintes a questão da identidade de Deus. Questionava ele – A bíblia afirma que Deus é o mesmo ontem, hoje e será eternamente e também nos estimula a sermos seus imitadores, isso não seria a afirmação e a necessidade da identidade? – como fruto desse questionamento surgiu esse texto.

Afinal Deus tem uma identidade? Se sim, qual é? Bom essa é uma questão que de cara esbarraria na nossa total impossibilidade de conhecer a Deus. Porém existe o argumento da revelação. Assim deveríamos avaliar a revelação para saber se por meio dela podemos responder à pergunta sobre a identidade divina.

É importante, antes ressaltar que a crença de que podemos conhecer a Deus, está intimamente ligada a tradição platônica do reconhecimento das ideias eternas. O fundamento da identidade e da representação. O fato é que de acordo com a própria escritura não podemos conhecer a Deus por meio de nossa capacidade. Assim resta-nos avaliar a revelação, mas antes cito Tomás de Aquino: “embora sejamos elevados pela revelação para conhecer algo que de outro modo seria desconhecido para nós, não o somos a que conheçamos de outro modo que não pelos sensíveis”. Isso significa que a própria revelação estará atravessada pelos nossos modos de conhecer, as escrituras são bons exemplos disso, somos nós a falar de Deus e não ele a falar de si mesmo.

Falamos por meio dos nossos sentidos, ou seja, o que é significado pode ser afirmado de Deus, mas não sabemos o que é isto em Deus, pois o modo de significar a que temos acesso é sempre o referente às criaturas. Isso quer dizer que no final das contas nosso conhecimento de Deus permanece um desconhecimento. Dito todas as essas coisas iniciais, sigo.

Pois bem, minha fé é forjada pelas teias desse saber anterior descrito, assim apesar de toda convicção que me move, não dependo da razão para ter fé. Assim, estou sempre pronto a mudar minhas crenças na medida do meu conhecimento, visto que minha fé é intuição pura, potência e não exclusivamente inteligência.

E quando uno minha fé e minha crença surge minha confissão, e ela se fundamenta no Deus encarnado, assim posso falar de um evoluir da revelação, como referente ao desenvolvimento do menino Deus até sua ressurreição.

Revelação, portanto, para mim manifesta-se na alteridade. Nenhum mortal pode ver a face de Deus. Em Êxodo 33, 18 Moisés só pode ver Deus pelas costas. O conhecimento direto de Deus não é concedido ao ser humano. Conhecimento de Deus significa conhecimento das costas de Deus. Em outros termos a alteridade é entendida como devir. Como afirma Lutero "Deus é aquele que está abscôndito”, logo toda sua manifestação é devir.

Deus não se deixa capturar por nenhuma forma que dele fazemos. Ao contrário, constantemente se põe contra toda imagem que dele fazemos. “Não farás para ti imagem”. Mas ao afirmar a encarnação como fundamento da minha fé afirmo que Deus é relação, e por ser relação, é Pessoal e não necessariamente Identidade. Pessoal porque sai de si para buscar a Outra, para se dar à Outra, para perder-se na Outra e, assim, ser ela mesma, enquanto devir. Por isso se diz que Deus é amor. Deus é relação, e por isso quer livremente dar-se inteiramente ao humano. Ao doar-se, Deus está amando; amando, está se doando. Neste movimento de amar e doar-se, de sair de si e buscar o outro, está a revelação. Assim, também o humano é chamado a assumir a natureza do devir de relação e encontro consigo mesmo, com o outro e com Deus.

Sim, respondo ao meu ouvinte que me questionou -  Deus é o mesmo, ontem, hoje e eternamente.  Mas o que é esse “é”? Trata-se de dizer que Ele é aquele que é o que preciso for, o que necessitar vir a ser para estabelecer relação com o outro. Deus é Amor. Se devemos falar de identidade divina, essa é a sua.

Deus não quis ser tratado como Deus na encarnação. Veja que grande golpe a toda necessidade de representação fixa! O próprio conceito de trindade nos aponta para isso. A trindade é o Pai que se esvazia de sua condição de Pai para se encontrar no Filho, e o Espírito Santo que é o próprio amor e a relação; o Espírito se dissimula do seu ser pessoa para ser a relação de amor entre o Pai e o Filho; ele é o movimento, a dinâmica.

Deus se despoja de toda a sua divindade para se relacionar com o humano e chega a despojar-se totalmente para ser servo. A ação de um Deus totalmente entregue ao outro para se relacionar e se encontrar no outro; um Deus que testemunha e chama a seguir seus exemplos. O humano, em Deus, é chamado a ser seu imitador sim, e isso se dá ao entrar em relacionamento com Deus e com o outro. É chamado a se esvaziar para se encontrar no outro. É chamado a abrir mão da representação, da identidade, e assumir vir-a-ser.

Ivo Fernandes
08 de maio de 16


Ídolos – da construção à necessidade de destruí-los

O termo ídolo não é um termo usado em nossa nação comumente. Aparece mais nos discursos evangélicos numa referência a qualquer entidad...