sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A justificação pela fé – uma exposição no Caminho


Leitura:  Romanos capítulos 1 a 3

A doutrina da justificação pela fé é um dos principais pilares da fé cristã, em especial a protestante. O cristianismo ocidental enfatizou desde o início a morte de Cristo como parte fundamental da fé, acima da própria ressurreição, ênfase dada mais pelos cristãos orientais.

Tal ênfase ocidental, acabou transformando o caminho da confissão da fé no sacrifício de Cristo, no único caminho para a salvação. Isso permitiu a igreja entrar como elemento fundamental nesse jogo, como aquela que atesta a fé como legítima.

Em outras palavras, a doutrina da justificação pela fé como a conhecemos, é geralmente o seguinte, desde que você creia (aceite a doutrina) que Deus matou Jesus para nos garantir a possibilidade de salvação, só assim teremos o beneplácito de Deus.

Ainda podemos dizer que os cristãos abandonaram as obras da lei como mecanismos de salvação e substituíram pela “obra” da fé. Sem esta fé é impossível ser salvo.

Ora, mais aqui mora o grande equívoco da doutrina como nós a conhecemos, pois na prática a Graça é uma farsa, pois a nossa salvação está garantida por uma obra nossa, porém menos nobre do que os esforços para alcançar a salvação.

Romanos 3.9-20 garante que “nenhum caminho conduz o homem a Deus: nem o caminho da experiência religiosa (Schleiermacher), nem o caminho da história (Troeltsch), e nem mesmo o caminho da metafísica: o único caminho praticável vem de Deus ao homem e chama-se Jesus Cristo.

A salvação não é mérito das atividades humanas, mas graça de Deus diante da situação de pecado e atitude de conversão. A salvação é atitude, primeiramente, de Deus, pois a “unidade [do homem] com Deus foi tão profundamente destruída, dilacerada, que o reatamento dessa união é absolutamente inimaginável para o homem”

Aqui nasce um conceito a priori da justificação pela fé, o conceito de pecado, e este está atrelado ao conceito de Deus como Justo e Bom. Sobre Deus, podemos dizer com Romanos capitulo 1 e 2 que Deus é Bom e não pode compartilhar com nenhuma espécie de mal. Porém a única possibilidade do mal nunca vir-a-ser era se não houvesse criação, pois só haveria Deus e Deus é Bom e nele não habita mal algum. Mas a criação foi decisão de Deus, e tal criação para não ser mero jogo de aparências, foi criada e assentada sobre a liberdade. E liberdade pressupõe que posso me afastar ou me aproximar do que quer que seja.

O mito edênico nos fala do homem que em sua liberdade decide se afastar de Deus. E o afastamento de Deus é por natureza conceitual o mal. E como Deus não pode conviver com o mal, dá-se necessariamente a impossibilidade desse ser continuar a existir. Aqui, está a condenação do mal.

E por isso, afim de não destruir a possibilidade da criação e da liberdade, e consequentemente da salvação, Deus providenciou o meio para garantir tal existência sem anular sua Bondade e sua completa aversão ao mal, o meio é a Cruz Eterna, pois antes de haver mundo, o Cordeiro foi imolado para garantir a vida. A Cruz é o início da vida.

A Cruz da História é somente a da Crucificação. A Cruz é o que vem antes de tudo, inclusive da Crucificação. O Cordeiro de Deus foi imolado antes da criação de qualquer criação.

Não foi o sofrimento histórico de Jesus que nos salvou.

Sofrimento não salva. Nossa salvação não vem da Crucificação, mas da Cruz! A Crucificação é um cenário! A Cruz é o sacrifício eterno que teve na Crucificação apenas o seu cenário histórico! A Cruz, todavia, é infinitamente maior que a Crucificação. O Sangue que purifica de todo pecado não um líquido; é uma oferta de amor perdoador que existiu como tal ainda antes que qualquer forma de sangue tivesse sido criada. A Cruz é uma eterna decisão de Deus com Deus. O Sangue Eterno é a Decisão da Graça! Na história, o sangue foi derramado para manifestar aquilo que em Deus já estava feito! Jesus Consumou o que nEle já estava Consumado desde a eternidade!

Na Ceia nós celebramos o cordeiro simbólico, que aparece em várias religiões e culturas do mundo.

A Crucificação é o Cenário exterior! A Cruz tem que ser a Realidade interior! A Crucificação revela a maldade humana! A Cruz revela a salvação de Deus! Quem crê é Justificado e tem paz com Deus. Além disso, já passou da morte para a vida!

A mensagem da Cruz é mensagem da Graça. “Graça é fato real, embora incompreensível, […] [pois] graça somente é graça quando ela for reconhecida como inexplicável [sem razão de ser]. É nisto que cremos, porém, crer para nós significa “‘experimentar’ não significa ‘tomar conhecimento’, mas ‘confrontar-se com’ o que é experimentado”. Anunciar a salvação não é simplesmente afirmar que Deus é bom, misericordioso e compassivo; anunciar a salvação é viver de maneira autêntica o evangelho e ter certeza da ação da graça de Deus.

Paulo afirma: “o justo viverá da fé” (Rm 1,17). Fé também é graça de Deus e, logo, vivenciar a fé é vivenciar a graça divina. Com isso afirmamos que está tudo feito e acabado.

A fé não é redutível a uma aceitação racional ou intelectual de uma verdade do tipo "Jesus Cristo é Deus" ou mesmo "Jesus é meu Senhoril. Fé significa confiança na incomensurável bondade divina, confiança de que Deus superou o abismo entre o divino e o humano. Isso implica que a ação humana, sempre incerta de agradar a Deus, é justificada, isto é, é declarada justa pela misericórdia divina. A partir desta fé no Deus revelado e escondido em Cristo, o ser humano poderia agir com liberdade, sem o propósito de conseguir algo de Deus. A grande obra já teria sido realizada por Ele. Deus não poderia ser entendido como um mercador de salvação. A ação humana realizada na confiança da misericórdia divina deveria visar o bem do próximo na terra, não qualquer recompensa celeste para quem age.
Mas, e como fica? Os pecados que ainda cometemos não devem ser encarados com seriedade, pois tudo já foi resolvido na cruz?

Ora, o pecado que eu peco é fruto de minha queda, mas já não carrega em si mesmo o poder de me matar, tanto quanto já não carrega mais o poder de me fazer “compulsivo”, pelo simples fato de que em minha consciência ele já não se faz acompanhar da condenação da morte, pois esta já foi satisfeita na cruz.

O pecado faz mal ao meu ser, mas já não tem o poder de daná-lo, se se está confiante no poder e na consumação do que Jesus já fez por nós. Afinal, o pecado só existe em mim, mas já não existe como algo que pende como espada da morte sobre minha cabeça. Eu estou em Cristo!

 Já não há mais nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus!

 Diz as Escrituras: Filhinhos meus, não pequeis; se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai; Jesus Cristo, o Justo; Ele é a propiciação pelos nossos pecados; e não somente pelos nossos próprios, mas inda pelos do mundo inteiro! O Deus que se fez carne também se fez pecado por nós!

Resumindo: O fato real é um só: o pecado existe na vida de cada um de nós, mas já não existe como condenação. O fato do pecado em mim é inegável. Todavia, é também inegável que ele já não tem poder sobre mim.

Quem eu sou no meu estado de pecado já não me mata! Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo! Com efeito Deus condenou na carne o pecado! Com efeito a condenação do pecado aconteceu na Cruz! Com efeito, quem crê já está liberto; ainda que pratique a sua própria liberdade tomando consciência de que quem ele é, o é em Cristo; não em si-mesmo. Com o pecado morto, e com a Lei sepultada, o que sai da morte e da sepultura não é mais o que me mata, mas o que me salva. Cristo morreu pelas nossas transgressões e ressuscitou para a nossa justificação!

 A pergunta que fica então, é: Quem creu em nossa pregação? Quem pode descansar na certeza de que o justo viverá pela fé!

Ivo Fernandes
6 de agosto de 2017

(Os textos em itálico é de autoria de Caio Fábio)

terça-feira, 2 de maio de 2017

Ídolos – da construção à necessidade de destruí-los


O termo ídolo não é um termo usado em nossa nação comumente. Aparece mais nos discursos evangélicos numa referência a qualquer entidade ou indivíduo reverenciado em outras religiões. E também no meio artístico quando para se referir a um personagem de preferência.

O termo ídolo (do grego antigo εδωλον) significa “simulacro", “figura. Passou a designar no tempo entidade espiritual ou divina, e frequentemente é associado a ele poderes sobrenaturais, ou a propriedade de permitir uma comunicação entre os mortais e o outro mundo. A idolatria é, portanto, a prática de adoração de ídolos.

Porém para as pessoas cultas os tipos mais primitivos de idolatria deixaram de ser atraentes. Apesar da presença da superstição fetichista presente em algumas religiões, já não exercem fascínio sobre uma boa parte da população.

Mas isso não significa que a idolatria tem diminuído. Francis Bacon, filósofo moderno, afirmou que o pensamento humano precisa estar sempre consciente de sua possível tendência a idolatrar algo ou alguém. Em outras palavras, podemos até nos livrar dos modos primitivos de idolatria, mas não das formas desenvolvidas e mais modernas de idolatria!

Essas formas mais sofisticadas lograram não apenas a sobrevivência, mas o mais alto grau de respeitabilidade em certos círculos cristãos. A tradição protestante identificou e atacou a idolatria católica mas desenvolveu uma espécie de fanatismo idólatra que conhecemos por fundamentalismo.

Para facilitar nossa identificação da idolatria me utilizarei das designações do filósofo Francis Bacon, que classificou 4 tipos de ídolos.

a) os ídolos da tribo: Tribo é equivalente à espécie humana, ou seja, os ídolos da tribo são aqueles que criamos por pensar que somos seres especiais, privilegiados e que tal privilégio garante a possibilidade de conhecermos tudo que quisermos. São os ídolos produzidos por nossa limitação e arrogância de não a reconhecermos. Ocorre quando o intelecto sofre influência da nossa vontade e dos afetos, de forma a confundir a natureza das coisas com aquilo que projetamos delas. 

b) os ídolos da caverna: Se a natureza humana não é garantia de que a partir dela o intelecto humano possa conhecer as coisas tal como são, então a experiência individual pode ser essa garantia. Tal compreensão produz os ídolos da caverna que são advindos de cada indivíduo quando preso a uma espécie de caverna pessoal. Isso se deve, pois, os homens procuram a verdade em seus pequenos mundos, não no mundo maior, que é idêntico para todos os homens. Portanto, os ídolos da caverna perturbam o conhecimento, uma vez que mantém o homem preso em preconceitos e singularidades.

c) os ídolos do foro: São aqueles que decorrem da linguagem que os humanos estabelecem com os outros, atribuindo nomes a coisas inexistentes ou nomes confusos a coisas que existem. As palavras, desse modo, exercem grande impacto sobre a razão. São ídolos, que através das palavras, penetram no intelecto.

d) os ídolos do teatro: São aqueles derivados de teorias ou reflexões filosóficas, científicas, teológicas, etc. que apresentam ideias que não podem ser validadas.

Os ídolos segundo Francis Bacon são noções falsas que invadem o intelecto e dificultam o acesso à verdade. Por isso, qualquer um que ame a verdade e a busque precisa destruir os ídolos que a impedem.

No meio cristão há muitos ídolos. Várias correntes teológicas que tornam a bíblia um livro mágico, impossível de análise crítica são espécies de ídolos do teatro. A bíblia é um deus de papel para muitos e as tradições teológicas sobre ela ídolos sofisticados. Há também os ídolos humanos, encarnados nas personalidades carismáticas. Além da própria igreja, como instituição, tornada divina em nossas produções idolátricas. 

Mas não é só no cristianismo ou religiões que podemos identificar ídolos. Há ídolos na ciência, na política, na moral. Alguns apostam na redenção humana como resultado de programas políticos ou de determinado modelo moral, ou mesmo com o avanço da educação ou coisa semelhante. Qualquer um desses ídolos insistem em esquecer nossa condição, são todos ídolos da tribo.

A idolatria moral, por outro lado, assume a condição do homem, quase que num ataque aos ídolos da tribo. Porém produzem outro tipo de ídolo, o ideal ético, exaltando o modelo acima do conhecimento da verdade. E aqui nascem os fanatismos. Ou seja, o fanático adora a si próprio projetado nos ídolos criados.

O moralismo fanático é idolatria na medida em que o que se busca é um aperfeiçoamento não como produto do caminho da verdade, mas como tão-somente uma projeção ampliada de nossas próprias ideias. É a vitória do meu modelo, do meu arcabouço teológico, do meu modelo moral, do meu projeto político, da minha visão de mundo.

Onde há idolatria não há verdadeiro culto a Deus. E destruir ídolos não é uma tarefa fácil. Todos temo
ídolos, ainda que não admitamos isso. Lutar contra essa realidade é lutar contra nós mesmos, por isso o evangelho é a negação do eu, é o negar-se a si mesmo, não só nas vontades, mas também, e principalmente, contra os deuses que nos habitam a alma.

Porém existe um caminho sobremodo excelente contra a idolatria, o caminho da Graça pois neste caminho somos estimulados a assumir nossa completa dependência de Deus, cientes de que não somos senhores de nenhum saber, de nenhuma especialidade singular em detrimentos de outros. É um caminho onde o saber começa com reconhecimento de finitude e, portanto, de ignorância.

O caminho da Graça é o caminho do Amor. Sim! Pois só no amor há verdadeiro conhecimento. Quem ama conhece! Fora do amor todo conhecimento produz ídolos. E ídolos nada são, porém, cheios de significados de não-amor provocam diversos males a alma.

Por isso quando Paulo nos recomenda agir em relação aos irmãos frágeis na fé, não faz isso em relação aos ídolos, mas em relação ao amor.

E quando o assunto é amor não há melhor exemplo do que Jesus, por isso mesmo podemos dizer que que vê ele vê a Deus, não em razão de qualquer explicação teológica, mas porque Deus é amor e Jesus é aquele que encarnou na vida o amor.

Olhando Jesus, vemos Deus se relacionando com os seres humanos num mundo não-ideal. E ele propõe a relação do homem com Deus como amor a Deus que se manifesta de modo humano; amando a Deus no próximo. Desse modo, podemos substituir toda doutrina ou sistema teológico pelo simples faça como Ele.

E aqui está o problema da igreja, ela não quer ser simplesmente como Jesus, pois isso significa destruir seus ídolos, e mais destruir a si mesma enquanto ídolo. Preferimos os nossos santos, nossos ritos, nossas doutrinas, nossas campanhas, nossa glória — do que simplesmente andar como Jesus andou.

Concluo dizendo, ídolos todos nós criamos no decorrer da existência, mas precisamos destruí-los afim de conhecermos a verdade no caminho da vida, do contrário jamais veremos a Deus, e Deus só pode ser visto e conhecido no Amor.
Ivo Fernandes

30 de abril de 2017

domingo, 9 de abril de 2017

Quando a igreja não presta para mais nada



Leitura: Mateus 23

Essa semana uma novela da rede aberta exibiu no seu último capítulo uma cena onde políticos e religiosos estavam unidos celebrando o fato de estarem conseguido poder e dinheiro, uma clara alusão ao atual quadro da política e da religião brasileira, em especial sua versão evangélica.

Quando a cena foi ao ar me perguntei onde foi que a igreja no Brasil perdeu sua credibilidade? Quase todos os ambientes televisivos retratam a igreja de forma negativa, sempre denunciando seus abusos, sua ganância, e sua loucura. E para não deixar mentir tais programas, passei para os canais evangélicos e o que vi foi muito pior do que o retratado na ficção. Um certo pastor estava em locais sagrados em Jerusalém, “ungindo” óleos (supostamente de ouro, prata, petróleo, dimanante) com o qual iria “ungir” os membros de sua seita, com a unção das riquezas.

Qualquer pessoa de bom senso perceberá que pelo menos as versões midiáticas da igreja evangélica, maioria composta por neopentecostais, alguns pentecostais e outros carismáticos, conseguiram a proeza de firmar-se, no Brasil, por algumas características: pobreza cultural, superficialismo ético, pragmatismo da riqueza fácil associado a ganância, hipocrisia moralista, fundamentalismo teológico e loucura.

A igreja que sonhei existir na minha infância composta de gente que tentava viver uma vida ética, e anunciar o Evangelho da salvação, não existe mais, exceto em pequenos grupos, cada vez mais massacrado por essa religião da prosperidade e das autoridades religiosas.

Começamos com o nosso fundamentalismo, que diga-se de passagem é no mínimo ingênuo do ponto de vista da lógica filosófica e literária, que afirmava conseguir ler a Bíblia “ao pé da letra”, até nosso triunfalismo da fé, crendo que conquistando espaço das diversas mídias e na política estaríamos experimentando o cumprimento das promessas de Deus.

O fato é que com o nosso fundamentalismo afastamos os que tinham uma mente aberta ao diálogo e a busca legítima da verdade. Atraímos as pessoas que não se importam com nada, a não ser com a manutenção a todo custo de suas próprias verdades.

No Brasil, além de adotar a agenda moralista e fundamentalista americana, os evangélicos se neopentecostalizaram. E o resultado foi desastroso: viraram chacota nacional.

A pobreza cultural da igreja se revela no circo mágico que vemos todos os dias, onde se inventa toda espécie de apelo com a única intenção de conquistar mentes fracas a darem o máximo de dinheiro possível. E qualquer um que for honesto precisará assumir que tal igreja não tem nada a ver com Jesus o Nazareno.

Considero tais manifestações da ordem do ridículo, completamente reprovável e até mesmo criminoso. O espírito medieval da venda das indulgências e das relíquias ganhou uma nova cara e vende-se de tudo: óleos e águas ungidas, sabonetes sagrados, canetas da riqueza, vassoura sagrada, Bíblia ungida, sal grosso, água do rio Jordão, tijolo da bênção, toalha milagrosa. E a multidão de interessados, meros consumidores de porcaria passam a associar Deus a esse mercador e as igrejas que tratem de oferecer os “melhores” produtos. E nessa guerra comercial cada igreja desce mais fundo na produção do ridículo.

E mesmo que alguém diga que nem todas as igrejas fazem a mesma coisa, não podemos negar que o neopentecostalismo virou o discurso modelo, afinal, são essas igrejas donas de emissoras de televisão, com o horário nobre, e tem bancada de políticos. Com tamanho sucesso, os demais evangélicos, ou pelo menos a maior parte, se viu exigida a caminhar com esses, por causa da vaidade do poder que essas igrejas possuem. E os poucos que discordam também acabaram silenciando, com medo de na denúncia acabar dando um tiro no próprio pé. Assim os justos se calaram e isso foi pior do que o grito dos maus.

Deus é mercadoria a serviço da alienação e a igreja o balcão onde ele é oferecido. Se um dia fomos chamados de sal da terra, com certeza esse sal perdeu seu sabor. O movimento evangélico tornou-se um mercado onde cada igreja disputa pelos consumidores. Não há mais conteúdo. Mas o fato de ter se tornado insípida não põe fim a essa igreja. Alguns argumentam que a igreja tem um papel social importante por isso não pode acabar, papel esse que se resume em produzir pessoas politicamente corretas, com uma ética pobre e uma moralidade hipócrita. Esses mesmos indivíduos também se tornam completamente “judiciosos”, cheios de inveja, orgulho, vaidade, espírito faccioso, sensualidade adoecida, espiritualidade livresca, fobias de alma, insegurança de ser, necessidade de parecer ser, academicismo vazio.

A igreja atual não conhece a Graça, a não ser como doutrina, e ainda assim deformada. Porém falar sobre esse assunto não é mais de meu interesse, porque não faço mais parte do movimento evangélico, apesar de saber que há muitos convertidos ao Evangelho da Graça na igreja evangélica. Trouxe tudo isso para mostrar que qualquer um de nós, qualquer movimento cristão pode tornar-se sal insípido, se seguirmos os mesmos caminhos denunciados pelo próprio Cristo em seu sermão contra os religiosos de seu tempo, são eles:

1.   O caminho que se dedica a discursos disassociados da vida. (vs 1,3)
2.   O caminho que produz regras que só servem para sufocar os homens (vs 4, 13)
3.   O caminho que valoriza apenas a glória da aparência (vs 5, 25-28)
4.   O caminho que explora os pobres (vs 14)
5.   O caminho que valoriza a adesão mais que a conversão (vs 15)
6.   O caminho que valoriza o detalhe e ignora o conteúdo (vs 16 – 24)
7.   O caminho que persegue todo e qualquer que denunciar sua corrupção (vs 29-35)

Se não queremos ter o mesmo fim do movimento evangélico precisamos estar atentos aos nossos passos, e manter com toda a força a comunhão dos irmãos, não nos colocando como superior a ninguém, entendendo que o mestre é Cristo, o Pai é Deus e nós somos apenas irmãos uns dos outros. O nosso caminho é o do serviço movidos pela Graça e não outro. Que sejamos sal que dá sabor ao mundo.

Ivo Fernandes


domingo, 26 de março de 2017

CrerSer – O caminho da Graça


Cheguei aos meus 36 anos, e sei que isso é quase nada comparado a tantos ao meu redor que já viveram o dobro desse tempo. Porém cheguei aqui passando por coisas que muitos não passaram mesmo tendo o dobro da minha idade. Já foram abandonos diversos, luta constantes contra doenças pela vida, experiência de quase-morte, 2 casamentos, 3 filhas, 21 anos de completa autonomia, 18 anos de pastoreio, 16 de magistratura, 10 de clínica.

Mas apesar dos números ainda estou em processo. Sou obra inacabada, uma poesia que ainda não se completou. Comecei a estudar teologia aos 15 anos, depois fui associando esse estudo a sociologia, pedagogia, psicanálise, filosofia e história, o fruto disso, e ainda não concluído, é uma viagem onde Deus foi deixando de ser, para mim, um conceito forjado na teologia grega para ser aceito como o Mistério.

Nesses anos me identifiquei como católico por mera força da tradição e por estudar na infância numa escola confessional, depois como evangélico, me confessei calvinista, batista, presbiteriano, por fim pentecostal, até não caber mais no próprio conceito de evangélico, nem protestante, e não raras vezes nem cristão.

Mas o que me fez mudar tanto? O fato de não ter vivido sem viver. Ou seja, eu tomei do cálice da existência e fui percebendo desde cedo que as verdades construídas no interior dos seminários não correspondiam a vida. Lembro-me que aos 18 anos quando do início do meu ministério pastoral, já fui desafiado pelo sofrimento humano e pelas desgraças sociais, e tudo que havia aprendido até ali não fizeram sentido. Simplesmente os discursos religiosos não correspondiam aos reais problemas enfrentados por mim, numa das comunidades mais pobres que já pastoreei.

Por essa razão me tornei um filósofo da existência. Fiz da própria vida minha escola, e das pessoas que cruzaram meu caminho meus melhores professores. Apesar de amar os livros, não foram eles minhas maiores fontes. Apesar de admirar vários pensadores, também não foram eles meus guias. Isso me custou não seguir carreira acadêmica como desejava, não tinha bagagem teórica. Afinal o que eu sabia, senão aquilo que a vida havia me ensinado?

Então, decidi fazer algo simples comparar o ensino das escrituras com a realidade, e foi a poesia que entrou na minha vida como revelação, ela mais do que qualquer outro tipo de saber é que melhor traduzia para mim a realidade. Assim, o texto bíblico foi deixando de ser um livro chato de religião e foi se tornando uma maravilhosa carta de amor, e desta forma conheci a Graça, o ensino de Jesus e a figura de Deus como Pai, Mãe, Irmão e Amigo.

A poesia me salvou, e salvou dentro de mim a fé, a esperança e amor. Por meio dela assumi um caminho sem volta, o caminho da Graça. Um caminho onde não tenho a pretensão de codificar o divino, e mesmo assim estou disposto a obedecer ao chamado do Evangelho que me conduz a mansidão que luta contra as injustiças. Um caminho onde o ódio é vencido, onde a bondade é desenvolvida, a integridade é a meta. Um caminho que me torna cada vez mais tolerante com pessoas, e mais sereno.

Nessa minha trajetória já fui seduzido por várias outras estradas que me prometiam, fama, glória, sucesso e coisas afins. Mas minha inspiração é o Nazareno. E por essa razão sou como sou. Insisto que o melhor caminho é o da consciência e não da coerção ou das ameaças ou das barganhas.

Nessa mesma trajetória o juízo contra o próximo foi desaparecendo, não estranho nada que é do homem. Abandonei interpretações e assumi o lugar de ouvinte. Porém, não costumo ter a mesma sorte. Sou constante interpretado, e em geral sem direito a explicações.

Passei a ser mal visto nos arrais evangélicos que me conheceram e até entre os mais chegados não escapei do juízo. Quantos amigos nesses tempos tem se afastado, uns se afastam por que me consideram desviado, e outros, pasmem, porque sou crente demais.

E de certa forma o meu caminho tem sido na maior parte do tempo um caminho solitário. Me acusam de não me comportar de maneira decente a um líder religioso, e talvez de fato tenham razão. Não sou coerente. Nem compromisso com ela tenho. Minha busca é pela verdade, e nesse caminho vou me pegar em contradição muitas vezes. Se me pedirem para me definir, não saberei. Quem sou? Em que creio? Crer, Ser. Eu sou um caminhante, e creio no Caminho.

Apesar disso, sigo firme, deixando para trás embaraços, cinismos, ou qualquer mensagem que não carregue possibilidade de misericórdia real para todos. Se isso me faz um herege, desviado ou coisa assim, que seja. Meu caminho é Crer Ser. E sei que ainda engatinho nessa jornada espiritual.

Quando descobri que Deus não pode ser tão pequeno e cruel quanto me ensinaram não foi para a negação da fé que caminhei. Se abriu um caminho novo, onde o que mais desejo é conhecê-lo.

Hoje minha missão é, conforme tenho conversado com os irmãos que se reúnem comigo para lermos as escrituras, permitir que a criança gerada em mim pelo Espírito Santo vença os preconceitos e atitudes indignas do meu velho homem. E que saiba transitar nesse mundo, ciente que minha alma é forjada em outro. Sim, somente quem está no mundo mas sabe que não pertence a ele é o mesmo que vence o mundo.

Esse é o meu caminho. Qual o seu?

Ivo Fernandes
26 de março de 17


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Além da religião


Já escrevi muito sobre religião, já falei muito sobre o tema. Acho que de tanto falar, numa das minhas últimas exposições, uma pessoa me questionou sobre a frase “eu sou um religioso” dizendo que em outros momentos, segundo ela eu disse não ser. Confesso que não lembro do momento onde afirmei não ser religioso, mas supondo que isso tenha sido verdade, creio que não se trata de uma contradição, mas do contexto onde cada frase foi dita.

Se procurarem nos meus blogs o tema apareceram cerca de 60 textos, que abordaram o conceito de religião, a diferença entre religião e Evangelho, a relação entre transtornos mentais e religião, entre outros.

Assim, podemos voltar uma questão: a religião é algo perigoso para alma? É preciso superar a religião? Evidente que para respondermos essa questão temos que voltar ao conceito de religião. Como já tratamos disso em outros textos, ressalto aqui apenas que não se pode confundir religião com o caminho da fé. Quando isso acontece é uma tragédia para a alma. A religião é a crença, portanto um fenômeno social, jamais pode ser confundido com a fé que é uma experiência existencial singular.

Então é preciso sempre entender que a fé está além da religião, e impedir que essa se torne um impedimento daquela. E quando a religião se torna um perigo?

Primeiro quando a o discurso religioso não corresponde a experiência, a vida. A maioria dos religiosos por muito falarem e amontoarem para si tantas regras e doutrinas, tornam a sua experiência religiosa uma mentira prática, pois não vivem de acordo com o que dizem, isso é péssimo para a alma, pois os conduzirá a viverem uma farsa, uma espécie de vida dupla. É exatamente isso que Jesus critica nos religiosos de seu tempo (Mt. 23.28).

Esses discursos descolados da vida vão se tornando em verdadeiros processos de loucuras. A realidade começa a ser negada, e os absurdos vão surgindo. A religião torna-se um peso mas tem que ser confessada como alívio; torna-se uma desgraça mas tem que ser confessada como graça; torna-se um mal mas tem que ser confessada como um bem. O que você acha que isso faz com a alma?

A relação do religioso, nesses termos, passa a ser uma relação esquizofrênica. Precisa confessar que ama um Deus que não prática não passa de um grande fiscal estraga-prazeres da vida. Tendo que viver atrás de um ideal impossível, enquanto vai negando a própria vida.

Uma das maiores lições de Eclesiastes é nos mostrar que o mundo é um só e o mesmo para todos, justos e injustos, bons e maus, crentes e ateus, religiosos e não religiosos. Não há benefícios para um ou para o outro. O sol nasce para todos, só não sabe quem não quer, já anunciou Renato Russo.

A diferença que Deus faz na vida do crente não é nas circunstancias externas que todos os homens estão sujeitos, mas no interior, na consciência, na alma. E mesmo essa diferença não faz do crente um ser especial, superior ou melhor como numa escala de valores. Essa ideia de ser melhor ela não é da fé, ela é da religião, sob os termos que estou me referindo. Nesse sentindo a religião provoca arrogância, e isso é péssimo para a alma.

O resultado desse mal, é culpa exagerada e fora do campo das responsabilidades. Ou seja, não se trata de culpas reais, produzidas por erros simples e humanos, trata-se de culpa imaginária produzida por um ideal impossível. Resultado dessa culpa, mais culpa, num ciclo interminável que posso batizar de inferno. Sim! Essa religião promete o céu, mas lhe dá o inferno.

É preciso superar a religião, ou pelo menos deixar ela no seu lugar, no lugar de manifestação pública de crença. E jamais confundi-la com o caminho da fé.

Um dos melhores caminhos para isso é abandonar toda e qualquer barganha com Deus. Com Deus não se negocia. Pare de achar que pode fazer o que não pode. Pare de prometer. Para de buscar ideais descolados da vida.

Ir além da religião é entender que temor do Senhor, não é o medo de Deus, antes a reverência por sua grandiosidade. E que caminhar no caminho da Graça é saber que não são os ritos, os dogmas, ou os valores morais que determinam nossa fé, aliás, é possível ter todas essas coisas e não ter fé alguma. Ir além da religião é se desvencilhar de tudo que é peso a fim de tornar a caminhada mais leve, inclusive sua caminhada na comunidade cristã.

Ivo Fernandes
18 de fevereiro de 2017




domingo, 12 de fevereiro de 2017

O tédio nosso de cada dia


Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece. Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu. O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo os seus circuitos. Todos os rios vão para o mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar para onde os rios vão, para ali tornam eles a correr.
Eclesiastes 1:4-7

O livro de Eclesiastes nos mostra a repetição constante de tudo, afinal não há nada de novo debaixo do sol. Diante de um quadro desses como tornar a vida mais interessante? Para vencer a monotonia e fugir da rotina muitos lotam suas agendas de atividades, e outros ainda mergulham numa busca desenfreada por prazeres, mas não poucos desistem de tudo e deixam a mesmice produzir um cenário de isolamento e tédio.

Os que mergulham na última opção, não veem mais sentido nas ações diárias. Afinal para que trabalhar? Para que encontros de fim de semana? Para que reuniões religiosas? Para que? Se tudo é inútil, fadiga e cansaço.

Porém existe uma coisa comum a quem se entregou ao tédio e a quem foge dele desesperadamente. Ambos não pensam. Não usam a mente a fim de compreender a vida como ela é e assim retirar dela o melhor possível. O famoso sentido da vida, precisa ser atualizado na existência por cada indivíduo.

Sim! Cada indivíduo reinicia a história do zero, por mais que ela seja a mesma. Já percebeu como os exemplos anteriores pouco servem para nos impedir de fazer alguma coisa? E por que isso acontece? Por que não vivemos a vida a partir de ninguém. Repetiremos tudo mais uma vez. Mas observe a grandeza disso, tudo é o mesmo, mas individualmente é sempre novo. Minhas filhas não repetiram a minha vida, mesmo que não façam muita coisa diferente, elas estarão vivendo a vida delas e não a minha. É repetição, mas é novidade. A vida é sempre a mesma, mas para cada um de nós pode ser completamente diferente.

Assim, o primeiro conselho para se enfrentar o tédio de cada dia e tornar a vida mais interessante é: Observar a singularidade, inventar a vida a partir de si mesmo. Não se deixe levar pelas generalizações, nada mais tediante que isso. Lide com singularidades e não com universais. Abandone frases, como “todo homem/mulher é igual” e aventure-se a conhecer alguém; “é sempre a mesma coisa” e aventure-se em fazer coisas que não fez.

Tenho aprendido a sentir a vida. Gosto de ver o mar, molhar meus pés em suas ondas. Gosto do vento no rosto quando ando de bicicleta. Gosto da chuva. E de tantas coisas. Qual a novidade delas? Aquela que dei.

Eu hoje, estou vivendo uma outra fase da minha vida, aprendendo a ser velho. Talvez você diga, que isso e um exagero da minha parte. Mas o fato, é que passei muito tempo da minha vida atrás de uma tal juventude perdida, mas agora tem descoberto as alegrias das responsabilidades, das escolhas racionais e maduras. Tenho me inventado enquanto homem, enquanto velho, e tem sido uma experiência muito boa.

Um dos maiores problemas das pessoas é que elas desejam fixar tempos e experiências, em vez de aproveitar cada estação. Pensem nas pessoas que vivem casamentos infelizes simplesmente porque ainda queriam o mesmo jovem que conheceram no início da história. A questão é que tudo mudou. Não somente o parceiro, todos mudamos. E isso é bom, eis aí uma novidade, ter que lhe dar com a mesma pessoa que agora é outra. A ideia não é buscar novidades, novos amores, novos parceiros, é aproveitar o novo do mesmo, que está a nossa frente. É como uma alimentação, todos os dias tomamos café, almoçamos, jantamos, porém a cada refeição é sempre um sentir, e não precisamos querer saciar toda a nossa fome numa só refeição, o mesmo voltará, porém, é sempre novo.

Assim, concluo fazendo uma paráfrase do próprio Eclesiastes:


Aplique-se a esquadrinhar o próprio coração. Busque a sabedoria, apesar de doer é o único caminho possível para não ser vencido pelo tédio. Depois detenha-se a gozar a vida, sabendo respeitar o tempo de cada coisa, e valorizado as companhias desse processo, pois é sempre melhor serem dois do que um, porque se um cair, o outro levanta o seu companheiro; mas ai do que estiver só; pois, caindo, não haverá outro que o levante. Também, se dois dormirem juntos, eles se aquentarão; mas um só, como se aquentará? E, se alguém prevalecer contra um, os dois lhe resistirão; e o cordão de três dobras não se quebra tão depressa.

Cuida da tua própria vida e não te precipites em julgar ou falar da vida alheia. Lembre-se que você não é tão bom, pois não na verdade, não há homem justo sobre a terra, que só faça o bem, e nunca peque. Prefere a partilha do que o acúmulo, e partilha junto com os que ama, afastando a ira do teu coração, e removendo da tua carne o mal.

Lembra-te também do teu Criador em todos os dias da tua vida. De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo o homem.

Ivo Fernandes

12 de fevereiro de 17

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Qual o sentido da vida? Do mito de Sísifo ao Eclesiastes


Leitura: Livro de Eclesiastes

Tudo é vaidade – diz o pregador. Vaidade, expressão que pode significar inútil, vazio, sem sentido. Não há propósito para o trabalho do homem. Não há nada de novo debaixo do sol

Inegavelmente o livro de Eclesiastes trata do sentido da vida. O que vale a pena, nos poucos dias do homem, debaixo do sol? É a pergunta que ele nos faz.

A busca pelo sentido da vida nos conduz a vários tipos de caminho. Uns tomam o caminho do cinismo e se entregam a um hedonismo, transformando a vida num eterno gozar de prazeres; outros tomam o caminho da religião e se afastam de tais prazeres vivendo a vida a partir da privação e do não; e a grande maioria se contenta com os clichês que darão conta de pôr algum sentido na vida, do tipo, “Deus sabe o que faz” “Deus escreve certo por linhas tortas”. Deus, nos dois últimos casos, é o que usamos para nos esquivar da vaidade da vida.

Porém o livro de Eclesiastes não quer maquiar a vida, quer tratar a realidade de maneira nua e crua. Busca o sentido da vida e descobre que ela é mais complexa do que nossos sistemas de codificação podem definir. O filósofo Albert Camus escreveu “Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida. ” (O mito de Sísifo)

Partindo dessa reflexão, o sentido da vida é a questão mais decisiva de todas. E como responder a isso? Como dar conta do sentimento que nos toma ao perceber o divórcio entre o homem e sua vida, entre o ator e seu cenário?

Ocorre que é justamente quando o sem sentido da vida nos chega que é possível começar a viver. Tudo começa com um "porque", quando o cansaço chega. O cansaço está no final dos atos de uma vida mecânica, mas inaugura ao mesmo tempo o movimento da consciência. Aqui, eu tenho de concluir que ele é bom. Pois tudo começa com a consciência e nada sem ela tem valor. A simples "preocupação" está na origem de tudo.

Voltando ao livro de Eclesiastes, a primeira coisa que ele nos convida é a pensar. E pensar doí. Ele nos chama a abandonar os atalhos que nos aliviam a caminhada. Se a vida é uma eterna repetição, o que esperar dela? Ou melhor, o que fazer dela?

Creio que uma das primeiras lições é aceitar a própria finitude e ignorância. Simplesmente não vamos conseguir explicar tudo. Segundo, o Deus apresentado no Eclesiastes não é um Deus de universais, logo não podemos tratar as coisas dessa forma. Não existem doutrinas, apesar de toda repetição da história, o livro trata de singularidades. É apenas lidando com as singularidades que podemos encontrar potência, e por fim é preciso substituir as questões metafísicas pelas questões imanentes.

E o que significa isso? Viver a existência sem negá-la em razão da eternidade. Aceitar a vida e dela retirar suas forças, não buscar consolo fora da própria existência. Viver, não para a eternidade mas para a própria existência, eis o conselho de Eclesiastes.

E o mito de Sísifo? Os deuses tinham condenado Sísifo a rolar um rochedo
Incessantemente até o cimo de uma montanha, de onde a pedra caía de novo por seu próprio peso. Eles tinham pensado, com as suas razões, que não existe punição mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.

Existem algumas versões do mito de Sísifo. Segundo Higino, ele odiava seu irmão Salmoneu; perguntando a Apolo como ele poderia matar seu inimigo, o deus respondeu que ele deveria ter filhos com Tiro, filha de Salmoneu, que o vingariam. Dois filhos nasceram, mas Tiro, descobrindo a profecia, os matou. Sísifo se vingou, por causa disso, ele recebeu como castigo na terra dos mortos empurrar uma pedra até o lugar mais alto da montanha, de onde ela rola de volta.
Segundo Pausânias, certa vez, uma grande águia sobrevoou sua cidade, levando nas garras uma bela jovem. Sísifo reconheceu a jovem Égina, filha de Asopo, um deus-rio. Mais tarde, o velho Asopo veio perguntar-lhe se sabia do rapto de sua filha e qual seria seu destino. Sísifo logo fez um acordo: em troca de uma fonte de água para sua cidade, ele contaria o paradeiro da filha. O acordo foi feito e a fonte presenteada recebeu o nome de Pirene. Assim, ele despertou a raiva do grande Zeus, que enviou o deus da Morte, Tânato, para levá-lo ao mundo subterrâneo. Porém o esperto Sísifo conseguiu enganar o enviado de Zeus. Elogiou sua beleza e pediu-lhe para deixá-lo enfeitar seu pescoço com um colar. O colar, na verdade, não passava de uma coleira, com a qual Sísifo manteve a Morte aprisionada e conseguiu driblar seu destino.
Durante um tempo não morreu mais ninguém. Sísifo soube enganar a Morte, mas arrumou novas encrencas. Desta vez com Hades, o deus dos mortos, e com Ares, o deus da guerra, que precisava dos préstimos da Morte para consumar as batalhas.
Tão logo teve conhecimento, Hades libertou Tânato e ordenou-lhe que trouxesse Sísifo imediatamente para as mansões da morte. Quando Sísifo se despediu de sua mulher, teve o cuidado de pedir secretamente que ela não enterrasse seu corpo.
Já no inferno, Sísifo reclamou com Hades da falta de respeito de sua esposa em não o enterrar. Então suplicou por mais um dia de prazo, para se vingar da mulher ingrata e cumprir os rituais fúnebres. Hades lhe concedeu o pedido. Sísifo então retomou seu corpo e fugiu com a esposa. Havia enganado a Morte pela segunda vez.
Sísifo recebeu esta punição: foi condenado a, por toda a eternidade, rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até o cume de uma montanha, sendo que toda vez que ele estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto de partida por meio de uma força irresistível, invalidando completamente o duro esforço despendido.

O desprezo pelos deuses, o ódio à Morte e a paixão pela vida lhe valeram esse suplício indescritível em que todo o ser se ocupa em não completar nada. Porém podemos ver essa tragédia de várias formas. Considero, no entanto, que o mito revela toda a alegria silenciosa de Sísifo em não se deixar dominar por algo que não fosse a própria vida. Até mesmo seu castigo lhe pertence. Seu rochedo é sua questão. Ele não fica no sopé da montanha! Sempre reencontra seu fardo. Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos.

É ver a vida como dádiva, independente de tudo, até mesmo de sua repetição entediante. Voltando para o Eclesiastes, o sentido da vida não está no depois, está no enquanto. Trata-se do pão de cada dia. Quem valoriza a vida, sabe que a morte não nos cai bem, e isso não é negar sua inevitabilidade.

Viver a vida com base nessa paixão imanente, é abandonar as competições que pretendem conquistar o eterno. É abandonar a filosofia do acúmulo, e cultivar a alegria, sabendo que para isso é bom companhias. E por fim cultivar a realização mais do que a reputação.

Viver a vida, é vencer a religião que oferece consolos metafísicos em detrimento da vida. É vencer o dinheiro com seus enganos de permanência. É preciso aprender a caminhar com as incertezas, com a imprecisão. É preciso aprender a desfrutar o efêmero. É preciso amar.
Sem amor não há vida. O amor é o sentido da vida. Quem ama diz mais sim do que não. Está mais aberto do que fechado, celebra mais do que sofre, e não por alienação, mas por decisão.

E por fim Tema a Deus, é conselho final de Eclesiastes. Louve a Deus mesmo que Ele não caiba na nossa busca de sentido e lógicas. Deus é grande justamente porque não cabe em nossos discursos.

Aproveita a vida! Faça o rochedo trágico do destino, a sua escolha e invente o processo! Eis os conselhos de Eclesiastes e do Mito de Sísifo.

Ivo Fernandes

5 de fevereiro de 17

A justificação pela fé – uma exposição no Caminho

Leitura:  Romanos capítulos 1 a 3 A doutrina da justificação pela fé é um dos principais pilares da fé cristã, em especial a prote...