segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Entrevista concedida ao aluno Clauber Nascimento do STBC

1. Para você o que é ministério pastoral? Até que ponto é um chamado e até que ponto é uma profissão?

O ministério pastoral é um exercício de cuidar e orientar pessoas a partir do ensino do Evangelho, que deve ser exercido por aqueles que de Deus receberam um dom para tal. Por se tratar de um dom só pode ser exercido no caráter de chamado, jamais de profissão.

2. Porque você decidiu ser pastor?

Na verdade não decidi. Na medida em que o dom em mim ia sendo reconhecido pela comunidade fui orientado a me dedicar ao ministério. Sempre relutei muito, porém hoje reconheço o dom que Deus me deu e procuro com cuidado exercer o ministério para o qual fui chamado.

3. Qual sua visão sobre as pessoas que se autodenominam pastores, bispos, apóstolos, etc.?

A história tem mostrado que a maioria dos líderes auto-intitulados não foram e não são indivíduos chamados por Deus. Seus objetivos são escusos, envoltos sempre na divulgação dos seus próprios nomes, buscando sempre a glória própria.

4. O que você acha dos que encaram o ministério pastoral como profissão?

Os que assim pensam ou são ingênuos ou mal-intencionados. Não se pode confundir um chamado espiritual com uma profissão.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Deus Uno - Trino

Deus não pode ser explicado. O deus-explicado é ídolo, produção humana. Penso em Deus como trino e uno, uno e trino, porém a explicação que se faz dogma trinitariano diminui Deus, sendo apenas deus-explicado.

Deus se Revela, não se explica. E penso Nele se revelando no Filho, revelados no Espírito. Sim! Pai, Filho e Espírito. O Deus da criação não é um ser em busca desesperada por companhia. O Deus Pai Filho e Espírito Santo é o Senhor das comunidades.

Deus é Pai, mas não por ser macho, pois seu colo é maternal. É Filho não por ser menor, mas por ser fraterno. É Espírito não por ser invisível, mas por ser Livre.

O Deus Pai Filho e Espírito Santo nos convida a sermos conforme Ele mesmo, preferindo ao próximo em honra. Podemos celebrar a companhia uns dos outros, porque Deus Pai Filho e Espírito Santo está onde dois ou três se reúnem em unidade.

Deus está próximo, pois que há de mais próximo do que Pai e Filho, e que há de mais íntimo do que o Espírito? Deus Pai Filho e Espírito Santo revelou-se em nós, isto é na nossa carne, afim de que possamos participar de sua natureza.

A fé que tenho, tenho para mim mesmo!

Ivo Fernandes
14 de julho de 2009

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A questão da sexualidade no Evangelho

A sexualidade diz respeito a todo um conjunto de fantasias e atividades existentes desde a infância, que produzem prazer e não podem ser reduzidas à satisfação de necessidades fisiológicas. Não se limita a questões genitais ou de procriação, mas designa uma função vital orientada para a busca de um encontro funcional, totalizador e prazeroso.

Além disso, podemos falar de um caráter transcendente da sexualidade, pois ela está presente em cada um de nós e ao mesmo tempo nos escapa. Ela nos ameaça com suas demandas ao mesmo tempo em que nos promete gratificações supremas. Fascínio e terror a cercam. Felicidade e culpa a rodeiam. E essa característica da sexualidade que nos faz dela se defender. Mesmo numa sociedade dita livre a sexualidade é revestida de tabus, se chocando sempre com leis e proibições.

E por estas razões a sexualidade apresenta profundas analogias com a experiência religiosa. O deus-imaginário tem suas origens na dinâmica da sexualidade infantil. A relação da religião com a sexualidade fica tão evidente que vemos a sacralidade do sexo em algumas religiões e as proibições e tabus em outras.

Porém de maneira surpreendente o Evangelho não se ocupa com a problemática sexual. Não há nenhum ensino completo ou sistemático a respeito do assunto. Portanto o privilégio que possui o tema dentro do cristianismo não é em razão do Evangelho. Comportamentos como masturbação, homossexualismo, relações pré-conjugais que atormentam os cristãos não encontram muita referência no Evangelho. É do estoicismo que nasce nossa “moral” sexual e não das páginas do Evangelho.

Jesus nunca se apresentou como inimigo do corpo, pregando sacrifícios e privações. Não foi um asceta, nem um essênio, ao contrário gostava tanto das companhias humanas que foi acusado de comilão e beberrão. Em Jesus vemos em vez de repressão sexual uma forte sublimação. Havia uma paixão em Jesus que o absorvia e canalizava toda a sua energia, a paixão pelo Reino. E foi dedicando-se a esse tema é que podemos ver como o Evangelho tratou do tema da sexualidade.

Os comportamentos sexuais concretos não são objetos de preocupação dos Evangelhos, mas sim as estruturas básicas por meios das quais a sexualidade se desenvolve e produz maiores alienações: a família sacralizada; o pai como símbolo de opressão; e a marginalização da mulher.

É na família onde primeiro a sexualidade se configura, ao mesmo tempo em que primeiro se choca com limitações, proibições, leis. Apesar do inegável valor da família encontramos no Evangelho uma mensagem revolucionária e inquietadora.

Jesus não trata a família como um espaço sacrossanto, nem um espaço para se defender a todo custo, antes estimula aos seus discípulos a superarem os laços de carne e inaugurarem um novo modelo de filiação que desloca a ordem biológica. Laços espirituais entre os homens é que o determina essa nova família universal.

Na nova configuração familiar, as figuras de autoridades são chamadas a ocuparem o lugar de igualdade. Pais se convertem em irmãos, levando os filhos a tornarem-se adultos, autônomos e responsáveis. Desta forma os esquemas neuróticos da sexualidade e da religião sofrem um grande golpe quando se destrona a figura do pai dominante e opressor. Na nova ordem de relações inauguradas pelo Reino, o único vínculo que se estabelece é o da fraternidade no serviço mútuo. E por fim Jesus defende a mulher contra as arbitrariedades dos homens, colocando ela em posição de direitos iguais.

Jesus não nos oferece nenhum código de ética sexual porque espera que o ser adulto movido pelo amor seja seu próprio juiz. O Deus de Jesus de Nazaré não é inimigo do prazer humano, esse inimigo é na verdade o deus-imaginário.

Ivo Fernandes
21 de novembro de 2010

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A questão da obediência II

Não conseguimos escapar das relações de obediência. Elas nos definem enquanto sujeito e sociedade. Submetidos a figuras de autoridades associada ao deus-imaginário ou negando toda autoridade estaremos colhendo sempre frutos de nossa relação com a questão. Se por um lado a submissão as autoridades associadas ao deus-imaginário infantiliza o ser, a falta da relação de obediência debilita o eu, gerando angústias, neuroses e até psicoses.

A obediência relacionada ao deus-imaginário é fruto dos sentimentos infantis de onipotência e adquire um comportamento mágico diante da vida. Os sentimentos envolvidos são medo e amor, gerando dependência ou rebeldia.

Jesus ensina uma forma completamente diferente dessa relação de obediência. Não nega a relação necessária da obediência, mas cancela toda hierarquia, esvazia todo espaço de autoridade. Anuncia uma sociedade igualitária de irmãos, onde o culto a personalidade não existe, e em vez de autoridades, existem funções, onde a obediência é disposição para servir de maneira livre e voluntária. A submissão enfim é substituída por uma decisão livre e voluntária para o serviço, sempre analisando as fontes de onde procedem as orientações e pedidos. Só assim as relações de obediência geram saúde para a alma.

Ivo Fernandes
29 de novembro de 2010

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A culpa e a salvação

A relação com o deus-imaginário se fundamenta na culpa, já a relação com o Deus de Jesus se fundamenta no encontro solidário, que não solicita perdão e que justamente por isso faz surgir uma sadia consciência do próprio pecado.

A dinâmica da relação com o deus-imaginário é da culpa para o perdão. A relação com o Deus de Jesus é da convicção do perdão para a transformação da vida e da sociedade em que vivemos.

A culpa constitui uma das experiências humanas mais antigas. Surgiu em nós como produto da nossa ambivalência, da incapacidade de compreender o paradoxo e a ausência daquela condição de harmonia e totalidade. Na busca da harmonia criamos um ciclo de culpa-reparação que é à base de todas as demais experiências imaginárias, das relações edipianas até as religiosas. Porém com isso dito, não podemos pensar a culpa apenas como algo patológico, pois ela dá conta de uma estrutura social que nos marca e nos define.

A culpa relacionada ao deus-imaginário é sempre uma culpa persecutória, egocêntrica que leva o indivíduo a viver para si mesmo ou para dar conta da sua culpa que jamais é terminada.

A doutrina da expiação da morte de Jesus acaba se apresentado como solução para esse esquema, solução que não dá conta da culpa, mas a afirma como necessidade para Jesus fazer sentido. A morte de Jesus é vista como uma reparação da culpa. Um sacrifício a um deus que precisa de sangue para perdoar, e todas as razões históricas da morte são completamente ignoradas. O deus-imaginário agora confundido com termos bíblicos é um deus impotente para exercer misericórdia a menos que seja satisfeito em seu desejo por sacrifícios.

O Deus de Jesus não precisa de sacrifícios dos filhos, e nem exige preços a pagar dos amados. Não há nada nas parábolas de Jesus que nos aponte para um deus que necessita de sacrifícios ou consciências culposas para amar.

A salvação do deus-imaginário, então, é sempre a salvação da culpa e de tudo que daí deriva, enquanto a salvação do Deus de Jesus não é uma salvação “da”, mas “para” o bem, a vida o Reino. A salvação do deus-imaginário põe seus filhos numa marcha em direção ao asceticismo já a salvação do Deus de Jesus põe os seus num projeto de transformação da realidade no Reino de Deus, assumindo seu próprio destino e com a disposição de carregar a cruz.

O deus-imaginário é fruto de nossos temores e angústias, tornado o autor de proibições do nosso inconsciente diante das temidas pulsões. Nosso medo vira lei de um deus que jamais se satisfaz. Já o Deus de Jesus é um Deus de vida, maior que nossa consciência, livre e libertador.

Ivo Fernandes
29 de outubro de 2010

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Criação e Salvação

Não se pode falar de soteriologia, sem conceber o propósito da criação. Quando não se têm em foco a criação cria-se teologias soteriológicas que descaracterizam o Deus revelado em Cristo.

Como se pode falar de salvação dissociada da criação? O evangelicalismo com sua ênfase no individualismo muito contribuiu para o conceito de salvação apenas em nível pessoal. E o destino da história, do cosmo, da humanidade? Qual a relação entre salvação e sociedade? Faz-se necessário resgatar hoje a noção e a prática da redenção da humanidade e do cosmo.

A Protologia está relacionada com a Soteriologia, e isso é visto na Cristologia que nos mostra a reconciliação da humanidade por meio de Jesus Cristo com Deus, e tal realidade pela ação do Espírito Santo nos impulsiona a vivermos uma nova experiência antropológica e sociológica. Uma teologia não integrada gera uma comunidade de gente alienada da realidade esperando apenas a salvação da alma no porvir.

A redenção do homem e do cosmo tem sua base na ação de um Deus que se fez humano, e através desta mediação sob o poder do Espírito, conduz a criação ao seu destino legítimo. Na encarnação Deus entrou na história fazendo dela sua própria história, compartilhando do destino dela, afim de que ela compartilhasse de seu destino.

A relação entre criação e salvação nos é revelada na encarnação. O dualismo presente nas teologias com fundamento grego precisa ser superado. A teologia precisa exaltar o Novo Adão, a ressurreição, e a convergência de todas as coisas Nele. Na cruz a realidade foi manifesta, na ressurreição o destino revelado. Essa é vida do Espírito de Deus, o verdadeiro significado da vida cristã.

Ivo Fernandes
14 de maio de 2009

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A oração sob análise

O que estamos realmente fazendo quando oramos? Com quem realmente estamos falando? Essas perguntas dificilmente fazemos quando pensamos a oração e acabamos ignorando que todo tipo de fantasia é possível para quem ora.

Depois de um tempo ouvindo várias histórias contadas por indivíduos religiosos e de muita auto-avaliação, descobri que muitas orações não são dirigidas de fato ao Deus de Jesus, mas ao deus-eu-mesmo, uma espécie de prolongamento narcísico do próprio eu, ou um deus-criado para substituir as figuras de autoridade e poder da nossa mentalidade infantil.

O problema é que quando descobrimos isso quase que imediatamente vamos para o extremo oposto do ato de orar, ou seja, não oramos mais, no entanto, não conseguimos ignorar a consciência que nos aponta para o que nos transcende. Assim se estabelece uma crise. Mas afinal o que separa a oração ao Deus de Jesus da oração ao deus-si-mesmo?

É preciso resgatar a consciência do Pai que está nos céus, ou seja, entender que nossa oração é mediada pelos símbolos que são nossas criações para representar o que nos escapa, isso nos liberta de confundir Deus com suas representações. É preciso respeitar esse espaço vazio que há entre o crente e Deus. É necessário dá ouvidos ao silêncio divino que todo ser que realmente orar encontra. É o mistério da Ausência presente ou da Presença ausente de Deus. Quando confundimos Deus com suas representações criamos para nós mesmo outro deus que é manipulável e dado aos caprichos humanos. O deus-solução é simplesmente uma ilusão.

Depois é preciso reconhecer que oração revela mais de nós do que supomos, assim é preciso voltar para si mesmo, estabelecer um compromisso com a própria história, isso minimiza os elementos mágicos, animistas e infantis da oração. Toda oração que não se realiza com os pés na terra, ou que nega tal realidade é apenas um delírio.

Que cada um que ora, possa rever seus caminhos, entendendo que a oração delirante nos conduz a uma relação neurótica com um deus-imaginário, nos mantendo presos a visão mágica do mundo, já a oração ao Deus de Jesus nos conduz ao Evangelho, que nos liberta através de uma visão crítica do mundo e de si mesmo.

Ivo Fernandes
22 de outubro de 2010

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Creio - Deus

Deus. Quem é Deus? O que é Deus? Quem já o viu? Onde ele está? O que está fazendo?

Eu creio em Deus. Mas o que isso significa? Não sei, ou melhor, sei sem saber, pois o que sei em mim é pacificado mesmo que não saiba explicar a outros.

Eu creio em Deus, nome que para mim significa o Ser que é mais do que qualquer especulação, doutrina ou conceito sobre Ele mesmo.

Deus é o que É. E por ser o único que de fato É, só o Espírito conhece as profundezas de Deus, visto que tudo mais só o é em razão Daquele que É.

Como teólogo, pesquiso a única coisa que de fato é possível pesquisar e ainda com temor e tremor – o pensamento humano a respeito de Deus, o sentimento do homem em relação ao que lhe transcende, as experiências históricas da fé. Sei que Deus não pode ser mapeado, não pode ser perscrutado, Ele habita em luz inacessível, só Ele tem a imortalidade, e nenhum homem nunca o viu e nem pode ver.

O deus estudado é na verdade o deus forjado pelo homem, e uma vez estudado muito saberemos do ser que o forjou.

Deus é o Ser Outro que só se dá a conhecer por Sua auto-revelação, mas que misteriosamente está em tudo mesmo que nada O tenha, e tudo está Nele, pois fora Dele nada há.

De fato a razão humana limitada pelo espaço não pode compreender, só a Fé pode vislumbrar o que os olhos não vêem.

Como então posso crer num deus que criou todas as coisas por uma espécie de necessidade de companhia? Como posso crer num deus que não conseguindo a plena simpatia de suas criaturas as castiga com tormentos infinitos? Que espécie de deus é esse que trava uma batalha de amor e ódio com suas próprias criaturas?

Como posso crer num deus que o critério de sua escolha é algum capricho divino? Ou mesmo uma confissão religiosa? Num deus com estrema dificuldade em lidar com as pulsões sexuais humanas que ele mesmo criou?

Como posso crer num deus que cabe apenas dentro de certas doutrinas de certos grupos religiosos do mundo? Como posso crer num deus que tem poder para criar, mas é limitado quanto a salvar sua criação?

Como posso crer num deus que odeia tanto, a ponto de se satisfazer com a condenação de milhares que não fizeram certa confissão religiosa? Como posso crer num deus que só abençoa os homens mediante negociatas? Como posso crer num deus que se parece com a pior versão da humanidade.

Eu creio em Deus, creio que Ele É para além de toda essência e existência, portanto não fico mais atrás de “provas” a Seu respeito.

Toda minha linguagem a respeito Dele é apenas poética, pois de fato Deus não pode ser referível. Deus pode apenas ser crido, pois nem mesmo negado pode ser, pois como se nega o que não se sabe. Só a Fé pode existir para além de todo saber.

Por isso não me inquieto com os que negam deus, o deus negado por muitos eu também negaria. Não entro em nenhuma guerra apologética. O Deus que É não precisa de defensores, de advogados e nem de representantes.

O que então posso saber de Deus? Aquilo que Ele de Si revelou na História, na Humanidade, na Criação e de maneira singular na Palavra Encarnada. Sim! Em Jesus, que condensa a Criação, a Humanidade e a Palavra, porque Nele está a Reconciliação Universal, vemos o que Deus decidiu manifestar. E Nele vejo um Deus que pode ser referido por meio de uma só palavra – Amor.

Eu creio que Deus é Amor e Nele não há treva alguma. É por causa do Amor que creio que o Deus que É se “fez” para o homem e o homem para Si, e conduzirá todas as coisas para Si mesmo, quando Ele será tudo em todos de maneira manifesta.

“Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele.” 1 Jo 4.16

Ivo Fernandes
16 de novembro de 2009

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Considerações sobre o batismo com o Espírito Santo

Vivi minha adolescência e boa parte do inicio do meu ministério pastoral dentro das igrejas pentecostais. Vi e vivi certas experiências que hoje tenho melhor compreensão. Algumas das minhas experiências de fato foram legítimas e até hoje as vivencio, outras entendi que eram frutos de condicionamentos emocionais e infantis.

Talvez o maior equívoco tenha a ver com o entendimento do que chamamos de “Batismo com Espírito Santo”. A maioria das igrejas pentecostais acredita se tratar de um acontecimento necessário ao crente para capacitá-lo para o ministério, que ocorre depois da regeneração e é evidenciada pelo dom de línguas estranhas.

Essa doutrina gera muitos desvios, entre eles o de separar as pessoas pelo critério de falar em línguas. Há igrejas em que indivíduos que não falam são proibidos de exercer qualquer atividade na igreja, gerando uma busca louca pelo tal dom, o que faz com que muitos interessados nos cargos falem sem nunca ter tido de fato o dom, apenas porque é bem fácil reproduzir as línguas ouvidas dentro dos ambientes pentecostais. A divisão chega ao ponto de ameaçar a própria salvação dos indivíduos, como se os que não falassem em línguas não fossem habitados pelo Espírito Santo.

As Escrituras nos ensinam que todos os crentes foram batizados com o Espírito Santo (1 Coríntios 12:13) isso é o mesmo que dizer que o batismo com Espírito é sinônimo de regeneração, novo nascimento. E o que dizer do relato em Atos 2? O que esse relato nos apresenta é um grupo de discípulos recebendo dons de Deus para pregarem com mais ousadia a Palavra (At 2.38).

Não podemos confundir distribuição de dons com o batismo com o Espírito Santo e nem associar algum dom a esse batismo. Não ser batizado é o mesmo que não está Nele. Não possuir certos dons não significa isso (1 Coríntios 12:30). Os dons são concedidos soberanamente pelo Espírito, o que torna as reuniões marcadas por gritos em torno da busca do batismo algo completamente em desacordo com o espírito das escrituras.

Esse tipo de busca tem gerado toda espécie de loucura possível e agora já se buscam as unções do urso, do leão, da águia, do riso e outras aberrações psicológicas. Na verdade tudo isso zomba de Deus e não O glorifica.

Eu falo em línguas, confesso que no passado falei muitas vezes algo de caráter completamente repetitivo, nada tinha com o dom. O que vejo ao meu redor é muita infantilidade chamada de espiritualidade. Hoje busco com zelo os melhores dons que são aqueles que edificam todo o corpo de Cristo. Busco desenvolver em mim o caráter de Cristo. Espero sempre pela manifestação misericordiosa de Deus, pois sei que Ele é bom até quando seu silêncio me surpreende.

Ivo Fernandes
01 de julho de 09

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Considerações sobre Jó e eu

Dizer que Deus está por trás da salvação, livramento, transformação, ou qualquer espécie de bem que alcance o indivíduo é fácil. Difícil é crer-saber que Ele também pode estar por trás das tragédias que assaltam nossas vidas.

Todos nós com facilidade louvamos a Deus pelas bênçãos que alcançam um indivíduo, mas nos calamos diante da tragédia, e quando abrimos a boca, quase sempre é para atacarmos o indivíduo em calamidade.
Vivemos em dias em que a mensagem do Evangelho foi esquecida na maioria dos púlpitos e em seu lugar está a mensagem da barganha, da recompensa, do lucro, das teologias morais de causa e efeito. Conteúdos que a fé em Jesus não suporta.

O cristianismo em sua forma atual é mais pagão do que algumas religiões de mistérios, pois leva o indivíduo a viver num purgatório existencial, onde tudo é resolvido pelas leis secas da causa e efeito.

Para os que não andam pela fé tudo se explica, para todo efeito há uma causa conhecida. Assim, se criam as maldições hereditárias, para quando não encontrarem na vida do indivíduo a causa, alegue que está em seus antepassados.

Na minha vida ouviu diversas vezes a sentença da punição de Deus pela boca dos filhos da religião quando a calamidade me assolou. Pois para eles, a prova de que estavam com a razão era a visível calamidade que me assolara. No entanto, a Graça é loucura para os que passam a vida a julgar pelo que vêem, daí muitos não suportarem a bênção que hoje, depois da calamidade, e ainda nela, me veio.

Diferente da teologia moral dos evangélicos religiosos a Graça é sempre favor imerecido. A semelhança de Jó, vi meus amigos se tornarem juízes da minha dor. Convivi e ainda convivo com a sentença de morte que eles me deram. Sei o que é ser para si mesmo o que não se é para ninguém. Chegou o tempo em minha vida em que aqueles que me difamam pensam estar fazendo um serviço a Deus, conforme nos ensinou Jesus. Assim muitos amigos já não estão porque não querem sofrer os mesmos danos que hoje sofro. Mas aquilo que para muitos foi minha morte, na verdade se tornou minha vida.

A minha consciência, hoje, está livre do medo do juízo dos homens. Sigo apenas a Voz que me advoga diante Daquele que É.

Ivo Fernandes em 2 de maio de 2006
No Caminho da Graça

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Cartas sobre o pecado


Pequei.

Acredito que tenha pecado. Acredito que haja pecado. Vivi o instante em que disse: “Deus meu, Deus meu, por que te desamparei?” e em que ouvi: “Filho meu, filho meu, por que me abandonaste?”. E orei logo que terminei de pecar, numa espiritualidade incompreendida. Num ato quase estúpido. Instante de Adão procurado por Deus. Salmo 51 de mim.

O que não quero é exatamente aquilo que faço. E o bem que quero fazer, este não faço.

Orei por tempo suficiente para que me sentisse perdoada e em um tempo curto demais para que pudesse ter alcançado o perdão. 2 Coríntios 12.9 em mim. Vergonha, por ter que deixá-lo caminhar sozinho por entre as metades dos animais. Ter que ver a cruz. Ter que deixar o Espírito chorar por mim.

Adormeci. Mas passei a noite em claro, perambulando na escuridão do templo. Acordei. E passei o dia em claro, procurando... Apenas procurando. Sem necessariamente ter o que encontrar. O caminho entre as metades, a cruz, o choro do Espírito. Já havia aceitado o fato do perdão, embora exatamente isto me fizesse procurar, procurar...

Cansei e, como criança que não se envergonha de ser aceita, fui até o Pai. Para dizer nada. Apenas para parar de procurar. Para poder dormir.

S. Almeida
19.7.6

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O que é o pecado? Como um ser finito como nós pode ofender um Deus infinito? Como nós mortais afligimos o Imortal? Quem de verdade sofre quando pecamos? Porque sofremos?

Pode parece antibíblico conforme a natureza da letra, mas na verdade é a Palavra em espírito que tem me revelado que não é contra Deus que temos estado, é contra nós mesmos.

Nossa natureza caída é pecado, pecado não se faz, pecado se é, daí Cristo ter se tornado pecado sem ter pecado. E por que ele se tornou pecado? Para que nós pecadores pudéssemos experimentar a Graça de ser Nele novas criaturas mesmo que ainda pecando.

É Adão em mim, mais ainda, Éden em nós. Temos em nós o principio masculino (Adão), o principio feminino (Eva), temos a vocação para o eterno (árvore da vida) e temos nossa vontade de independência de Deus (Árvore do Conhecimento do Bem de Mal), temos liberdade de escolha (todas as arvores do Jardim), temos em nós a Voz de Deus, e também a voz da serpente, que por meio dos galhos da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal nos seduz. Assim, mais uma vez digo o Éden somos nós (Caio Fábio).

É por essa razão que nos sentimos como nos sentimos. É por essa razão que “O que não quero é exatamente aquilo que faço. E o bem que quero fazer, este não faço”. Mas nenhum de nós está eternamente separado de Deus, pois foi posto um Querubim no caminho para a Árvore da Vida que nos impede o acesso autônomo à vida sem Deus, que é o que ocorreria se pudéssemos, com a constituição caída que temos, ter acesso a ela. Daí vem todo o sentimento de idas e vindas que sentimos em nós mesmos; ora sentindo-nos no Éden; ora exilados dele — tudo isto sendo reeditado pelas experiências de culpa.

O que posso dizer mais? Perdoados estão os nossos pecados, todos eles, inclusive os que não cometi, porque Cristo não morreu pelos pecados, mas pelos pecadores, dos quais eu sou o pior. Assim o que me resta agora é aprender a conviver com a minha natureza caída e continuar a prosseguir o caminho da evolução Nele, que é ser conforme a sua imagem. Quanto tempo isso levará? Não sei. Só sei que prossigo para alvo, mesmo que no Caminho o pecado que sou eu me faça pecar como peco. Lembro-me apenas que o sangue de Cristo me purifica de todos os pecados.

Ivo Fernandes
20 de julho de 2006

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Amo o Mistério


Ontem caminhava pela praia, enquanto o sol começa a desaparecer. Esse rito é sagrado. Sim! Desde a minha infância foi caminhando pela praia onde minhas orações foram feitas, é meu lugar santo, meu espaço de encontro. Horas de silêncio, rompidos por uma frase, que se acompanha de uma música e que são envoltos pelo som do Vento e das águas. Enquanto meus pés são alcançados pelas ondas que se desfazem, minha alma é derramada diante do Mistério.

Ontem enquanto caminhava lembrei os meus últimos dois anos. Fiz uma retrospectiva da caminhada. Sempre me espanto como o meu caminho se desenrolou. Olhar para trás me enche da certeza que não possuo certeza alguma a não ser aquela que procede da fé.

Estava ali diante de do Mistério dizendo que O amava. Nunca vi, nunca ouvi, nunca senti com os sentidos, mas misteriosamente nada é mais presente em mim do que o Ausente. Amo o impossível, amo o impensável.

Não sei quem é Deus, já me cansei das explicações teológicas com bases aristotélicas. Não suporto o deus da guerra dos religiosos fundamentalistas. O deus que cabe nas construções filosóficas considero ridículo. Também já não busco o distante, o deus que olha tudo de um lugar secreto, de onde controla todas as coisas e que é explicado por categorias elitistas. Um deus menos misericordioso que eu mesmo, por mim não será adorado. Creio no Deus Mistério que é Amor que habita o coração dos homens de boa vontade.

Ivo Fernandes
18 de janeiro de 2010

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Admiradores e amigos



Ontem li um texto do Caio e lembrei-me dos amigos que outrora pensei que fossem. Lembrei do dia que diante de um deles disse que havia muitos que me admiravam, mas pouquíssimos que me amavam, pois quem admira foge, abandona quando frustramos suas expectativas, quem ama não tem expectativa nenhuma em relação ao outro, apenas ama, e por isso na hora da calamidade está junto.

Lembro-me que ele me disse que fazia parte dos que me amavam, e lembrei-me de Pedro quando disse que jamais negaria. E assim foi. Este amigo deixou de ser, e não quis sofrer afrontas perto daquele que para ele agora não era nada.

Aprendi muitas coisas nesta pequena caminhada e uma delas foi não deixar-me levar pelos aplausos, elogios e louvores que nos fazem quando oferecemos algo bom, quando estamos dentro dos interesses projetados em nós. Já não acredito nos lábios que com facilidade declaram seu amor e com a mesma facilidade lhe abandona deixando-o para carregar a cruz sozinho. Aprendi a ser feliz com os poucos que do meu lado estão sem esperar de mim nada.

Entendi que a traição costuma vir de quem um dia muito nos admirou, mas jamais nos amou. Estes são aqueles que só estão do nosso lado enquanto é bom e agradável, mas na hora da aflição dizem que não nos conhecem. Hoje procuro andar de uma maneira que não gere admiradores de minha caminhada, só quero do meu lado quem de mim não se envergonhar, pois de todos os que amo não tenho vergonha alguma. Não quero mais os amigos que só querem me ouvir se for de forma discreta para que ninguém saiba que é de mim que se alimentam.

Quero do meu lado os amigos que não se importem de passar vexame comigo. Quero aqueles que podem chorar comigo. Quero os que enfrentam as consequências de se associar a minha pessoa. Quero os que não se envergonham da minha história e nem dos meus fracassos. Quero amigos que não se escandalizem com a minha humanidade.

Ivo Fernandes (20 de junho de 2007)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A viagem da Consciência


Qual seria o Projeto senão a Consciência? A história faz parte do processo da formação da Consciência. Na linguagem bíblica esse processo começa desde a Criação, passando pela Queda e ainda está em formação.

Das muitas razões que podemos relatar da encarnação, uma delas é apresentar na história o Homem Pleno, o Humano com Consciência Plena. A partir daí todos podemos seguir o processo com consciência dele.

E como entender o que significa essa Consciência? Estamos seguindo o curso que o próprio Deus iniciou para levar os homens a seres transformados no entendimento a fim de tornarem-se a imagem do Filho de Deus que é o Homem Pleno.

A Queda está no processo, e só avançamos quando entendemos a dimensão da Queda. Esse processo é marcado pela sede infinita que determina o ser humano direcionando-o ao Propósito. O ser-antes-do-processo era o Inconsciente. Foi a Queda quem deu início a viagem da Consciência.

A salvação só pode ser experimentada se a Queda também o for. Sem Queda não há conhecimento de Graça. Uma vez que entendo a Queda como marca fundamental que não consigo arrancá-la é que posso descansar naquilo que foi feito por mim. É nesse ponto que a Consciência vira Fé e Fé vira Consciência.

Uma vez estabelecida a Consciência como Fé a Fé como Consciência é que começamos a vencer o paradoxo e complexidade que em nós gera tantos distúrbios de desejos e comportamentos. Ou seja, é só descansado nessa Consciência de Fé, que o que foi feito por mim É, é que eu posso vencer o pecado em mim, que nada mais é do que o resultado decorrente da perda da Unidade para que eu me enxergasse de fato Unido.

A viagem da Consciência é eterna. Não acaba ou se completa com a conversão religiosa ou com a morte. O que há é um eterno conhecimento de Deus e de nós mesmos Nele.

Quem pensa assim descansa na certeza de que todas as coisas contribuem para o bem. E agradece pelo que já É, e não muda. E prossegue em ir sendo aquilo que Nele já se é.

Ivo Fernandes

terça-feira, 17 de agosto de 2010

A QUESTÃO DO PECADO


A leitura dos capítulos iniciais de Gênesis é muito rica. Guarda segredos de nossa história, do nosso entendimento, do mundo que nos cerca e de nós mesmos. A Queda é um dos assuntos tratados e os textos nos permitem perceber algumas coisas, entre elas é que depois da transgressão de Adão nasce a consciência de si e essa consciência é de um ser separado de Deus.

Como era a consciência de Adão antes da Queda? Não sabemos. Tudo que vemos e sabemos já vemos e sabemos do lugar da queda. Mas suponho que era uma consciência que chamarei de consciência fetal. Adão sabia de si num nível semelhante ao ser ainda dependente da existência da mãe, onde tal dependência é fato, porém não é informação. É um saber sem saber.

O fato é que a raça humana deixou esse estado edênico e não dá mais para voltar para ele. O acesso a este lugar foi encerrado. Agora o éden só existe em nós, como uma nostalgia e um vazio de não o sei o quê. Esse sentir nos mostra que houve algo, mesmo que não nos diga o quê. Está em nós o fruto desta queda, a culpa, o medo, o paradoxo, a necessidade de nos cobrir e um sentimento de dependência. É desta forma que todos experimentamos o pecado e a morte, fruto de nossa finitude. Assim independente da doutrina, dos termos, o pecado é experimentado por todos.

O Evangelho crido nos faz nos identificar como nova criatura, mas esse ser novo não é um retorno, um reencontro, é algo totalmente novo. E por não ser um retorno, mesmo sendo agora pela fé nova criatura, ainda permanece em mim o vazio do Éden. Nasce aí a luta entre a carne e o espírito. O que sou pela fé, com o que sou ainda, enquanto fruto da queda. Desta forma é que sei que fora da Graça, que me revela quem sou pela fé, sou apenas esse ser abismado na ambiguidade, esse ser em constante conflito, esse ser em pecado. Assim a Graça me revela quem sou nela e fora dela.

Salvação é, portanto descanso, visto que vou precisar me aquietar naquilo que sou pela fé independente do que lateja em mim por causa da queda. A salvação também é esperança, em que um Dia só sejamos o que já somos pela fé. Isso é o que significa o céu. E a permanência em nós mesmos é o inferno. Sem esse descanso vivemos conduzidos por nossa natureza caída fazendo-nos mal mutuamente.

O reino só é vivido entre nós se buscarmos continuamente nos conformamos ao que somos pela fé, para isso precisaremos abandonar o passado, o passado edênico, o passado imediatamente vivido. É no passado que habita o velho homem, no futuro está o que seremos e pela fé construímos o presente nesta esperança.

E alguém pode perguntar os porquês de tudo isso. Penso que sem a auto-percepção que a Queda nos gerou jamais teríamos consciência da Graça! Primeiro teve que vir o Éden para vir a Nova Jerusalém. E tudo é garantido pelo Cordeiro imolado desde a fundação do mundo. É no ambiente da Graça onde tudo ocorre, até a Queda. Por isso se pode dizer onde abundou o pecado superabundou a Graça.

Ivo Fernandes
26 de outubro de 2008

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A questão da obediência


É sabido de muitos o valor da autoridade na educação dos filhos e até mesmo na constituição da sociedade. Toda autoridade exige implicitamente obediência, porém essa obediência sem a capacidade de avaliar a autoridade é bem pior do que a desobediência.

Quando se é criança obedecer se configura numa situação de vida e morte, e está relacionado ao caráter mágico dos sentimentos infantis, pois se acredita que a obediência gera segurança. Além disso, nossa imagem estará sendo construída a partir dessa relação, que em sua base é uma relação de recompensa.

Esse sentimento de segurança e recompensa por meio da obediência nos acompanhará por toda a vida, sendo deslocado para outros objetos depois dos pais. É esse sentimento se deslocando que faz a massa humana necessitar tanto de uma autoridade que possa ser admirada, perante a qual nos curvemos, por quem sejamos dirigidos, e talvez, até maltratados, como já apontava Freud em seu escrito “Moisés e o monoteísmo”. Quanto mais fraca for o eu mas necessidade dessa autoridade o ser será.

A religião e a política parecem saber bem usar essa fragilidade do eu. No entanto, Jesus estimulou os discípulos a viverem como uma sociedade de irmãos, onde o culto da personalidade não tenha vez, onde liderança seja serviço e não poder. O próprio termo obediência será restrito a relação do homem com Deus, sendo, inclusive a razão para a desobediência por vezes das normas políticas e, ou religiosas. (Mc 1,27; 2.18-28; 3,2-6; 4,41; 7,2-3; At 4,20).

Na comunidade cristã ninguém deve ocupar o lugar do Pai. Uma comunidade onde haja alguém que se configura como o pai e mestre para o crente implica numa comunidade que atenta contra a igualdade radical a que somos todos chamados.

A obediência, então, aos que presidem uma comunidade deve-se em razão do serviço prestado em favor dos homens, se não for assim, tal obediência se converte numa importante fonte de alienação humana, de infantilismo psíquico e, num atentado ao Evangelho.

Ivo Fernandes
7 de maio de 2009

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A grandeza das Escrituras


Não podemos confundir Revelação com os objetos que apontam para ela ou dela testificam, assim como não podemos confundir a Palavra com as escrituras. É claro que existe uma unidade entre uma e outra, mas ainda assim não se pode confundi-las. As escrituras são testemunhas da Palavra e sua singularidade está no fato de se tratar dos relatos daqueles que foram testemunhas oculares do evento sem igual da revelação.

Ignorar a diferença é confundir o humano com o divino, e as escrituras são os relatos dos homens, portanto humana, do encontro com a Palavra, e neste caso também divina. E na sua humanidade as escrituras encontram sua fragilidade, mas que não se faz empecilho ao poder da Revelação nela contida.

Pertence à humanidade da escritura os relatos de como os homens concebiam a criação, relatos que misturam história, lendas e sagas, além das concepções teológicas que estavam intrinsecamente ligados a cultura dos escritores. Pertencem também as duplicações e contradições encontradas na comparação dos textos.

A maioria dos homens que luta contra essa diferença, procura deter o poder nas mãos. Não permitem a liberdade da Palavra, pois assim deixariam de exercer o controle que exercem quando afirmam possuir a correta interpretação textual.

A grandeza das escrituras não é a infalibilidade e sim o fato de que por meio dela podemos ter um encontro com a Palavra.

Ivo Fernandes

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Jesus: esperança para as cidades


Cidade é uma área urbanizada, que se diferencia de vilas e outras entidades urbanas através de vários critérios, os quais incluem população, densidade populacional ou estatuto legal, embora sua clara definição não seja precisa, sendo alvo de discussões diversas. A população de uma cidade varia entre as poucas centenas de habitantes até a dezena de milhão de habitantes. As cidades são as áreas mais densamente povoadas do mundo. Sociedades que vivem em cidades são frequentemente chamadas de civilizações.

As primeiras cidades conhecidas apareceram na Mesopotâmia, tais como Ur, ao longo do Rio Nilo, na Civilização do Vale do Indo e na China, entre aproximadamente sete a cinco mil anos atrás, geralmente resultante do crescimento de pequenos vilarejos e/ou da fusão de pequenos assentamentos entre si. Antes desta época, assentamentos raramente alcançavam tamanho significativo, embora exceções como Jericó, existam. O crescimento de impérios antigos e medievais levou ao aparecimento de grandes cidades capitais e sedes de administração provincial, como Babilônia, Roma, Antioquia, Alexandria, Cartago, Selêucida do Tigre, Pataliputra (localizada na atual Índia), Changan (localizada na atual República Popular da China), Constantinopla (atual Istambul), e, posteriormente e sucessivamente, diversas cidades chinesas e indianas aproximando-se ou mesmo superando a marca do meio milhão de habitantes. Roma possuía mais de um milhão de habitantes no século I a.C., sendo considerada por muitos como a única cidade a superar esta marca até o início da Revolução Industrial.

Durante a Idade Média na Europa, uma cidade era tanto uma entidade político-administrativa como um agrupamento de casas. Morar nas cidades passou a ser considerada um ato de liberdade, em relação às obrigações rurais para o Senhor e para a comunidade feudal à época. Stadtluft macht frei (O ar das cidades torna você livre) era um ditado popular em regiões da atual Alemanha.

A maioria das cidades do mundo, após a ascensão do feudalismo, eram pequenas em termos de população, sendo que em 1500, existiam somente aproximadamente duas dúzias de cidades com mais do que cem mil habitantes. Em 1700, este número era pouco menor do que quarenta, um número que pularia para 300 em 1900, graças à Revolução Industrial.

O início da Revolução Industrial e a ascensão e o crescimento da indústria moderna, no final do século XVIII, levou à massiva urbanização e à ascensão de novas grandes cidades, primeiramente na Europa, e posteriormente em outras regiões, na medida em que as novas oportunidades geradas nas cidades fizeram com que grandes números de migrantes provenientes de comunidades rurais instalassem-se em áreas urbanas.

Os principais problemas socioculturais que as cidades enfrentam são a criminalidade, a pobreza, e atritos entre diferentes grupos étnico-raciais e/ou culturais. Além disso a maioria das grandes cidades enfrenta um grave problema ambiental: a poluição atmosférica. Algumas cidades geram tanta poluição que o ar acaba por tornar-se saturado de materiais exógenos, criando uma névoa espessa, de cor acinzentada denominada smog.

O pesado tráfego de veículos é a principal causa da poluição atmosférica nas cidades. A poluição atmosférica, gerada pelas indústrias e veículos motorizados, é uma séria ameaça à saúde dos habitantes de um dado lugar, sendo responsável pela deflagração de inúmeros problemas como alergias, doenças respiratórias, cardiopatias, stress, entre outros.

E junto a esse quadro temos a constatação que o cristianismo está presente na maioria das cidades do mundo como uma das religiões mais representativas das cidades. Não há um continente onde o cristianismo não tenha chegado. Atualmente America Latina e África são os dois centros mundiais do cristianismo. Estranhamente os continentes mais conflituosos principalmente do ponto de vista social que temos. E quanto as cidades ocidentais sabemos que o cristianismo desempenhou importante papel na formação delas. A primeira nação a adotar o cristianismo como religião oficial foi a Armênia, fundando a Igreja Ortodoxa Armênia, em 301.

No início do século XXI o cristianismo conta com entre 1,5 bilhão e 2,1 bilhões de seguidores, representando cerca de um quarto a um terço da população mundial, e é uma das maiores religiões do mundo. O cristianismo também é a religião de Estado de diversos países.

Sendo assim não podemos apresentar o cristianismo como esperança das cidades, já que na verdade na maior parte do mundo os dois estão intimamentes ligados e se confudem em muitos aspectos. Precisamos então, diferenciarmos Jesus do cristianismo, ou melhor mostrar a diferença entre os dois, e apresentar Jesus como esperança para as cidades.

É importante salientarmos que Jesus não fundou o Cristianismo, e que o que chamamos hoje de Cristianismo é uma construção religiosa humana, feita pelos seguidores de Jesus ao longo de mais de dois mil anos de história. O que chamamos hoje de Cristianismo está profundamente afetado por pelo menos três grandes eras: a era de Constantino, a era da Reforma Protestante e a era dos Avivamentos na Inglaterra e nos Estados Unidos, sendo praticamente impossível saber a distância que existe entre o que Jesus tinha em mente quando declarou que edificaria a sua Eclésia e o que temos hoje como Cristianismo Católico Romano, Protestante, Ortodoxo, Pentecostal, Neopentecostal e Para-eclesiásticos.

Então todas as vezes que esquecemos isso e nos envolvemos apenas com a missão de expansão dos ministérios religiosos que fazemos parte não contribuímos para a transformação real das cidades, mas apenas pela perpetuação de seu modelo, tendo apenas uma mudança na estatística quanto aos membros de determinada religião.

Agora se nos dedicarmos a apresentar Jesus podemos pensar numa nova forma de vivermos em comunidade. E qual a diferença entre o cristianismo e Jesus?

O cristianismo é uma religião sustentada por um conjunto de doutrinas e um sistema clerical, que estabelece, por meio desses, critérios de relação entre os homens e entre eles e Deus, acreditando que tais critérios são baseados na verdade revelada únicamente aos representantes dessa religião que possuem caráter de inerrante e infálivel, e, portanto, sendo impossível questioná-los.

Porém como já dissemos Jesus nunca fundou uma religião com tais características, aliás, nunca fundou religião nenhuma, o que mais faz repetir a frase de Nolan:

“Jesus tem sido mais frequentemente honrado e venerado por aquilo que ele não significou, do que por aquilo que ele realmente significou. A suprema ironia é que algumas das coisas, às quais ele mais fortemente se opôs na sua época, foram ressuscitadas, pregadas e difundidas mais amplamente através do mundo – em seu nome. Jesus não pode ser totalmente identificado com o grande fenômeno religioso do mundo ocidental, conhecido como cristianismo. (Albert Nolan – Jesus antes do cristianismo)

O Jesus que é esperança para as cidades, não é o Jesus da doutrina cristã necessariamente, enclausurado nos castelos teológicos da arrogância humana. O Jesus que é nossa esperança é Aquele que as páginas do Evangelho revelam que tinha sua atenção voltada aos pobres (mendigos, doentes, desempregados, viúvas, órfãos, operários diaristas, camponeses, escravos e os pecadores – desviados dos costumes tradicionais) – aqueles que dependem da misericórdia de outrem, aceitando os pecadores como iguais, afastando deles a culpa, a vergonha e a humilhação, e lhes concedendo perdão. O Jesus cheio de compaixão dos Evangelhos e não o Jesus frio das imagens ou da teologia é que é esperança para os povos.

E não só por essa característica, mas por ter sido um ser inclusivo no meio de uma sociedade exclusivista e principalmente por anunciar um novo modelo de cidade (Reino). Esse era o tema de Jesus. Ele não se ocupou com outros temas, não discutiu teorias da origem do mal ou da miséria. Não se deteve em dilemas dualistas, apenas anunciou essa nova cidade-reino; o Reino dos pobres (Lc 6.20-26; 16.19-31) – não confundir com ideologia da pobreza; o Reino da partilha (Mc 6.52;8.17-18.21;At 4.34); o Reino das crianças – o oposto da grandeza, status, prestígio.

“Aqueles que não possam suportar que os mendigos, ex-prostitutas, empregados, mulheres e crianças sejam tratados como seus iguais, aqueles que não possam viver sem se sentirem superiores, ao menos em relação a algumas pessoas, simplesmente não se sentirão em casa no reino de Deus, tal como Jesus o compreendia. Esses vão querer se excluir do Reino.” (Albert Nolan)

Como solução para os problemas não apresentou nenhuma fórmula ritualística, encantamentos ou invocação de nomes. A fé era o único poder de fato, e não podemos confundir fé com conjunto de dogmas ou doutrinas, mas uma convicção fortíssima - esperança.

Fé não é um poder mágico, é uma decisão clara em favor do reino de Deus (Mt 6.33ss). A incredulidade pode adiar, mas não impedir que o Reino venha (Lc 13.6-9). A catástrofe virá, mas o Reino é o destino final (Mc 13.7-8). O arrependimento é o caminho para mudar os rumos.

Jesus morreu voluntariamente para que o Reino pudesse vir.

Jesus não fundou uma organização, ele inspirou um movimento. Jesus não estabeleceu sucessores, mas chamou gente para crer no que Ele cria. Será que hoje nós que nos chamamos seus discípulos, vamos responder ao seu chamado e também nos tornar esperança para as cidades, para a nossa cidade?

Referência Bibliográfica
Barros, José D'Assunção. Cidade e História. Vozes, 2007

Ivo Fernandes
18 de julho de 2010

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Do nascimento ao Silêncio


“Existe em mim um hiato, uma pergunta que não sei, um desejo de não sei o quê”

Tento encontrar na minha história uma explicação, aí lembro que não existe resgate do passado, tudo que é está aqui, no momento chamado Agora. É de onde estou que significo e resignifico o que chamo de passado. Minha história eu inventei. Nessa tela todas as cores fui eu que escolhi, mesmo não crendo em escolhas livres, não posso transferir para outros uma decisão que só eu tomei.

Não chamo de infelicidade esse sentimento que me toma, talvez tristeza, companheira dos poetas, apesar de eu preferir silêncio. Sim! O que há em mim é um grande silêncio, que por vezes tentei negá-lo com o barulho que fiz. E como eu fiz barulho!

Entrei no ciclo da angústia na busca de saber o que ou quem sou. De quem era filho? Quem era minha família? Porque fiz da história uma piada e da tragédia humor? Quem era meu pai? Quem era minha mãe? Quem eram os meus irmãos e irmãs?

Lembro de lágrimas, de quartos fechados, e ainda aqui consigo ouvir o som do silêncio, quebrado apenas pelos soluços no meio da noite. Mas porque chorava? De que sentia falta? Era falta?

E como é comum aos solitários, escrevi, registrei momentos, e chorei mais vezes, tornei-me poeta vagabundo. E da poesia veio à paixão, veio os amores, e agora minha busca parecia ser outra. Durante muito tempo pensei tratar-se daquela que amei em minha adolescência que parecia ter me feito esquecer qualquer uma que lhe antecedeu, mas o tempo me mostrou que o sempre acaba, e não era ela, nem os olhos verdes dos meus sonhos, nem a da profecia que perseguia. Pensei ser a idealização da mulher ideal, mas isso foi desfeito.

Meus amores misturavam-se com a descoberta do meu corpo, e para minha angústia não me via apenas um, nem dois, era muitos. Não sou apenas o filho da vida, nem da graça, sou também do abandono e da tragédia. E não sendo quem comecei a acreditar que deveria ser, sofri.

Culpa, medo, angústia, dor e sofrimento me habitavam, sentimentos que conviviam com sonhos, desejos, impulsos. Era alma e corpo, era criança e adulto, era tolo e sábio, santo e imundo, homem e mulher. Mas quis ser outro. Neguei a mim mesmo, meus conflitos, meu paradoxo e tornei-me imagem. Agora acreditava que minha busca tinha nome. Acreditei em um plano para minha vida, e por ele abandonei todos os outros caminhos. Passei a dedicar-me ao propósito para o qual havia nascido. E por um tempo parecia ter encontrado o objeto de minha busca, e de poeta tornei-me teólogo.

Tentei por vezes sufocar as aparições de um Ivo que tentava esquecer. Como eu lutei! Fiz novas escolhas, todas que pudessem garantir que jamais seria outra coisa além daquilo que agora acreditava ser. Construi meu castelo e a verdade estava comigo e todo desvio era apenas tentativa maligna de me tirar do propósito. Mas meu castelo ruiu. Minha alma não conseguia conviver com a negação de si mesma. E então ouvi e vi a rede de mentiras em que estava envolvido, e o que chamava de verdade era apenas uma idéia que tinha o interesse de muitos de por meio dela dominar os homens.

Não consegui negar o que via, não podia ignorar mais o que ouvia. Gritei! E de teólogo tornei-me profeta, e agora minha crença não era mais em deuses, mas nos homens que tinham fé. Minha busca agora era pela justiça. Mas aos poucos meus heróis foram morrendo, e minha honestidade me fez perceber que não era um. Não podia mais iludir e me iludir quanto ao meu caminho. Eu não era quem queria ser. Não era outro, não era nova criatura, não era santo, não era um discípulo Daquele que amava, e junto com essa confissão foi também a confissão de que nada sabia.

É aqui onde me encontro. Aceitei o paradoxo que sou. Abandonei meus discursos absolutos, meus discursos são todos relativos. Desisti de tentar entender. Não sei qual é a Verdade. E vi que não encontrara o objeto de minha busca, porque não precisava encontrar o que nunca perdi, o meu Silêncio. Sim! O Silêncio dominante da minha alma.

Voltei a ser poeta e apenas um poeta vagabundo que não se preocupa em definir-se ou explicar o que quer que seja. Um poeta que sabe o que não se aprende, que ouve o que não se escuta, que sente o que não se vê, e por isso não tem mais perguntas, e nada mais busca porque já se encontrou Naquele que é o Grande Silêncio.

E como não poderia ser diferente, tudo que escrevi poderia ser dito simplesmente assim:

Silêncio Divino

Eu já acreditei em deuses
Eu já me emocionei com heróis
Eu já sonhei ser alguém que não fosse eu
Eu me gastei buscando o vazio

Orações não respondidas
Injustiças em nome de deus
Uma natureza indomável
Uma verdade inegável
Tudo isso como pedras no caminho

Meus pés no chão sendo feridos pela realidade
E pouco a pouco meus castelos desfeitos
Mas o mar continuava o mesmo

Continuo caminhando pela mesma praia
Continuo com minha oração secreta
Continuo a ter os pés banhados pelas águas do mar
Continuo ouvindo o Vento
Continuo contemplando o horizonte
Continuo crendo No que me transcende

Não busco mais entender o Mistério
Sou apenas um caminhante que entendeu que não sabe
E tudo que escrevo ou digo são tolices infantis
Mas não queriam me impedir de seguir esse caminho errado
Já me acostumei com a solidão da caminhada
O silêncio é minha salvação
Nele não sou mau nem bom
Nele não creio nem nego
Nele nem sou nem deixo de ser
Deus é um grande silêncio

Ivo Fernandes
12 de julho de 2010

terça-feira, 15 de junho de 2010

Resgatando a mensagem de Jesus para a compreensão do fenômeno Jesus


Não precisamos ir muito longe para percebermos a diversidade de “Jesuses” que existe no mercado. Tem “Jesus” pra todo gosto. Em muitos lugares louvores são entoados a essas entidades que carregam o mesmo nome, mesmo que não sejam semelhantes avaliadas suas características.

São tantos “Jesuses” que a maioria das pessoas não percebeu o óbvio – O Jesus do Evangelho é o mais desconhecido de todos. Concordo com Nolan quando disse que “Jesus tem sido mais frequentemente honrado e venerado por aquilo que ele não significou, do que por aquilo que ele realmente significou. A suprema ironia é que algumas das coisas, às quais ele mais fortemente se opôs na sua época, foram ressuscitadas, pregadas e difundidas mais amplamente através do mundo – em seu nome. Jesus não pode ser totalmente identificado com o grande fenômeno religioso do mundo ocidental, conhecido como cristianismo”. (Albert Nolan – Jesus antes do cristianismo)

Para um resgate de Jesus em nossa sociedade não é proclamando seu nome que hoje se confunde com as cópias que carregam a mesma nomenclatura, mas através de um resgate da mensagem do Nazareno, que uma vez crida, porá fim a este mercado gospel que se estabeleceu em seu nome.

Precisamos deixar de lado todas as nossas imagens de “Jesus”, conservadoras, progressistas, devotas, libertárias e acadêmicas e mergulharmos no ensino do Evangelho.

Segundo os escritos neotestamentários Jesus tinha toda a sua atenção voltada aos pobres (mendigos, doentes, desempregados, viúvas, órfãos, operários diaristas, camponeses, escravos e os pecadores – desviados dos costumes tradicionais) – aqueles que dependem da misericórdia de outrem. Que lhes eram retirados o direito ao arrependimento, pois todo processo religioso de purificação custava muito dinheiro. Além de levarem toda espécie de vitupério, como ter que em suas doenças, ou desgraças serem vistos como castigados por Deus.

Jesus escolheu estar entre os pobres e aceitando os pecadores como iguais, Jesus afastava deles a culpa, a vergonha e a humilhação – é isso que significa perdão. E o que movia Jesus era a compaixão. Por esta escolha, e pelo seu ensino que denunciava toda forma de opressão e exclusão do próximo, Jesus atraiu como inimigo os religiosos de sua época.

Os fariseus (linha religiosa dominante em Israel) foram os principais antagonistas de Jesus, talvez pelo fato de os saduceus não crerem nas coisas que Jesus defendia (ex. ressurreição dos mortos). O universalismo de Jesus chocava-se com o exclusivismo farisaico. A liberdade de Jesus chocava-se com as abluções ritualísticas dos fariseus, as quais considerava tradições de homens.

Por afastar-se fundamentalmente da concepção vigente a respeito da lei em seus ensinamentos e ações, Jesus entrou em conflito com os escribas, os rabinos, que interpretavam a lei de acordo com a tradição. A reação do sacerdócio a Jesus se deu mais por questões políticas do que religiosas.

Entre os pobres Jesus anuncia sua mensagem revolucionaria: O Reino, Reino de Deus ou Reino dos céus ou ainda vida e vida eterna. Trata-se do reino Daquele que está no céu. Não se refere a um reino que está no céu ou que vem do céu. A idéia de um mundo celestial não se encontra na mensagem primitiva.

Jesus com toda probabilidade a um só tempo falou de uma vinda presente e futura do reino de Deus. Anunciava o juízo, a vinda do filho do homem como confronto de Deus com a história, e o irromper do Reino, que tem em suas obras apenas sementes, e esse Reino vem de Deus também por meio da ação humana.

Para Jesus a vinda do reino de Deus não está incluída na história e subordinada à mesma, mas dá ao mundo presente bem como ao futuro sua feição, consumando-a numa nova criação.

Esse era o tema de Jesus. Ele não se ocupou com outros temas, não discutiu teorias da origem do mal ou da miséria. Não se deteve em dilemas dualistas. Mas por meio de sua mensagem desafiou o sistema de classes, apontando o Reino com um Reino de partilha, onde não haviam privilegiados. Um Reino das crianças, sem grandeza, status, prestígio. Cabe aqui citar novamente Nolan: “Aqueles que não possam suportar que os mendigos, ex-prostitutas, empregados, mulheres e crianças sejam tratados como seus iguais, aqueles que não possam viver sem se sentirem superiores, ao menos em relação a algumas pessoas, simplesmente não se sentirão em casa no reino de Deus, tal como Jesus o compreendia. Esses vão querer se excluir do Reino.” (Albert Nolan)

A mensagem de solidariedade universal de Jesus que chamava Deus de Pai e os homens de irmãos desafiava todos os grupos exclusivistas. E foi por não abrir mão dessa mensagem que tramaram a morte de Jesus, que morreu voluntariamente para que o Reino pudesse vir.

Jesus não fundou uma organização, ele inspirou um movimento. Jesus não estabeleceu sucessores, mas chamou gente para crer no que Ele cria. A pergunta que temos que é fazer é: Cremos no Reino de Deus? E se cremos porque ainda não fizemos nada a respeito?

Ivo Fernandes

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Tempos meus


Na tarde do dia 25 de maio caminhava na mesma praia que caminho por todos esses anos. O vento, meus pés banhados pelas águas, o som do oceano. Foi caminhando por estas terras sagradas que abri meu coração ao Eterno e no passar dos tempos minha oração foi saindo da simplicidade para a complexidade, e enfim chegou ao silêncio. Ali diante do Ser que É, não tinha nada a dizer, um silêncio constrangedor e revelador me tomava.

Eu havia mudado, pela primeira vez me percebi outro, diferente de tudo que durante muitos anos insisti pensar sobre mim. Já não era mais um menino, e como homem não podia negar o que me alcançava como compreensão. E ali diante do Infinito confessei minha frágil descoberta pessoal, que me fazia drasticamente diferente de tudo que antes fui e pensei.

Por essa razão, aos amigos que tiveram seus pedidos negados para que eu participasse de encontros de líderes religiosos peço perdão, mas não posso mais trair minha alma. Os temas que vocês abordam não mais me interessam. Cansei desses ambientes onde a Verdade é um conceito de posse de alguns, ou mesmo uma pessoa que só alguns conhecem. Já não tenho mais certezas, exceto a do Amor, onde toda discussão acaba.

Aos amigos que me alertaram sobre o que eu estava perdendo com minhas atitudes agradeço pela preocupação. Não mais desejo as nações, nem os aplausos e nem os auditórios lotados. Quero mesmo continuar indo à praia do encontro. Quero a simplicidade das conversas leves que não se pretendem ser outra coisa além de uma boa conversa. Quero ouvir boa música. Quero brincar com minhas filhas. Quero me sentir vivo e integrante desse mundo, complexo porém magnífico.

Não me chamem para congressos, cultos ou qualquer outro evento que tenham a intenção de “converter” alguém a ideologia evangélica. A única conversão que desejo para todos é a conversão ao Amor, e nenhuma outra mais. Não quero um mundo cristão, muito menos evangélico, quero o Reino de Deus.

E os amigos que querem que eu aproveite esse tempo e crie algo novo, agradeço pelos conselhos. Mas não quero criar nada. Não desejo instituições e nada que aprisione a vida em termos e textos.

E aos que se preocupam com meu destino eterno, peço que abandonem tal preocupação. Estou destinado a ser quem sou, no longo caminho de ir-sendo. Não se inquietem com que escrevo, ou digo, não têm a intenção de gerar guerras teológicas. O que penso, penso de mim e para mim. Já abandonei o barco, mas meu coração continua crente no Ser que dá sentido a minha caminhada.

Ivo Fernandes
28 de maio de 2010

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Uma conversa entre amigos sobre idéias e a cruz


Caro Ivo...

Sei bem que minhas impressões nada valem, mas, talvez só para ser sincero ou me comunicar um pouco gostaria de falar sobre elas...

Sinceramente, muita coisa que ouvi de você me tocou bastante, e continuam me "chateando" por dentro... e por tanto, me edificando. Acho que as coisas que você fala soa como a ironia de Kierkegaard. "Digo e tenho que dizer que não sou um cristão"... pois, de fato, ser cristão é alto, mais alto que nossas especulações aquietadoras. Isso nos deixa humilde... ao menos a mim deixa.
Bem, assim como você me disse que Freud "torna a fé adulta", acho que posso falar, ainda que em termos diferentes, que Nietzsche nos amadurece bastante. O combate dele contra o platonismo, seu dito de que a filosofia do futuro deveria reverter o platonismo, eu o tomo para mim também. Nem sei se isso é uma questão acadêmica mesmo, suponho que seja uma exigência da existência mesmo... deixar de ser platônico para entender melhor a vida, intensificar a vida... Bem claro está que o cristianismo é um "platonismo pra o povo"... que a rede de idéias é toda platônica... acho que "sair do arraial" é também desprezar o platonismo... Tenho isso como um meu desejo...

Ainda que talvez não consigamos deixar tanto a metafísica e olhar os lírios como lírios, os pardais como pardais... como Caeiro... acho bom que nos livremos das metáforas e linguagem platônica... os dualismos...essência-aparência... idéia-coisa...enfim... penso que quanto mais a linguagem do anuncio tiver a simplicidade anti-platônica, mais saudável será...

Sua ultima fala foi a mais interessante para mim... gostei bastante... fez algumas coisas se conectarem em mim...

Mas, quase senti o cheiro de uma "metafísica da Cruz"... como se você estivesse dizendo que a Cruz que aconteceu nas entranhas de Deus fosse mais valiosa,essencial, e a que aconteceu na historia não passava de um teatro, uma sombra para que cheguemos a compreensão daquela eterna...

Bem, sei que a linguagem tem suas complicações, que talvez sempre voltemos a didática de Platão, mas... eu não consigo conceber esse dualismo. Como se houvesse um acontecimento eterno, absoluto, mais valioso, e outro relativo, histórico, menos valioso. De um modo paradoxal e enlouquecedor, esses acontecimentos são idênticos... isso na minha compreensão... há uma unidade. A crucificação como manifestação no tempo de algo eterno, porém... como pensar isso sem o dualismo platônico? Ora, Deus não está no tempo (ao mesmo tempo em que comunga com ele)! De um modo maravilhoso a cruz histórica é a absoluta eterna, e tem de ser, para ser manifestação, revelação de Deus...

Apesar de falar essas coisas, não gosto de filosofar com o evangelho... detesto especulações... sinceramente, detesto isso de intelectual do Reino de Deus... A questão é mais "estomacal"... sinto pavor da linguagem platônica... Entendo muito bem que você não pensa com Platão, estou falando como ouvi... aliás, somos platônicos "por natureza"... pelo simples fato se sermos ocidentais...

Também não sei se é interessante chamar o evento da Cruz de "símbolo"... não sei porque isso me soa mal... talvez pela mesma razão... meu instintivo repudio a ver o evento como mera sombra... e para além, a idéia, verdade do evento. (Apesar de o símbolo esconder coisas na superfície do que atrás...) A revelação não é a idéia, mas a sombra mesma, a carne... o sensível... não a verdade por trás do sensível... Esse é o escândalo do evangelho... a revelação é a carne, a carne crucificada mesma... Gosto de pensar que a cruz é também o desnudamento da carne dos abstratos da linguagem e do pensamento, nossas produções. É Deus nos enlouquecendo!... por tanto, deve haver certo "caeirismo" ao olhar a cruz...

Falo isso, mas sei como talvez possa ser difícil o anuncio nesses termos... a luta é pela simplicidade... coisa complicada... e nem sei se o que falo tem alguma razoabilidade pra você... estou falando mais de impressões, coisas mesmo de sensibilidade... não tanto de filosofia...

Aguardando comprensão!

PS: não me tenha por metido a besta...

Abraços!

Resposta

Querido,

Li sua carta com delicadeza e, por total impossibilidade de não ser, como analista. E percebi que sua confusão quanto ao dito, se deu por uma razão simples, só entende o que outro pensa e o que o outro diz aquele que caminha tempo suficiente com o outro, para ver o todo e assim entender as partes e não o inverso.

Sobre o tema da cruz abordado nas últimas reuniões, só entenderá de fato o que eu tinha a dizer quem ouvi tudo, principalmente a última reunião, que você infelizmente não participou, onde abordei a cruz a partir do tema: A cruz e o problema do sofrimento - onde todo foco foi conforme o sugerido na sua carta-email. Porém existem muitas maneiras de ver a cruz e todas elas têm significados para o homem e, portanto para a vida, inclusive a platônica, mesmo, como você mesmo disse eu não sendo um platônico, sei disso.

Estou convicto que não existe apenas uma linguagem, e ao mesmo tempo de que tudo é apenas linguagem quando falamos de Deus, aí sei que toda linguagem é limitada, até as presas a argumentações mais “históricas” e menos “metafísicas”. Por isso sei que não há certezas de verdade, mas apenas a certeza do amor.

Para mim, Freud, Nietzsche, Ivo ou Allison, são apenas humanos na senda da vida tendo que lidar com o que nos transcende e ao mesmo tempo nos perpassa, assim o melhor é apenas dizer que tudo é válido, enquanto linguagem sobre Deus.

Sua antipatia pelo platonismo não é por mim compartilhada, mesmo me considerando muito mais materialista e me importando muito mais com aquilo que me cerca enquanto experiência do que como reflexão filosófico-teológica. Por isso mesmo decidi falar das várias formas de vê a cruz. Abordamos o significado religioso universal, da cruz como símbolo da reconciliação dos opostos; abordamos o tema a partir dos escritos paulinos; também a partir de Tillich, Jung, Bonhoeffer; e na última reunião sobre o assunto falamos da cruz enquanto a realidade da vida que atingiu o Cristo e que nos atinge sempre. Pena que dessa última você não pode participar.

A verdade, mano, é que até o que você escreveu é idéia, teologia, filosofia, linguagem, e há metáfora em tudo, o que é mais valioso não é algum tipo de linguagem, Platão é igual a Nietzsche, e toda discussão que colocar um acima do outro é ingênua.

Falei da cruz a partir de diversos enfoques, e em cada um dei o mesmo peso, se não pareceu não foi minha intenção. Assim a Cruz para mim é realidade histórica, que significamos de diversas maneiras, até você, quando a conecta com a Revelação.

Só alerto para que você e nem eu, confunda a “simplicidade”, falada por você, como a linguagem ideal para falar de Deus, pois não existe tal linguagem. Como Karl Barth já disse - o certo era não falarmos, mas diante da impossibilidade disso, que falemos com temor e tremor, sabendo que Deus é absoluto, mas tudo que produzimos é relativo.

Fica na paz,

Em Cristo que com sua vida e morte me estimula a ser-ir-sendo,

Contra-resposta

Caro Ivo,

Pelo amor de Deus, o que menos queria era dar um tom pesado a minha fala. De fato, esqueci (ato falho?), de ser mais enfático quanto ao valor baixo que dou ao meu próprio discurso ou as minhas idéias. Não sou alguém de tantas convicções, o que tenho é algumas pulsões que me inclinam a pensar de tal e tal maneira, tenho completa certeza de que tudo que penso nasce da minha fisiologia e da minha história, por tanto, ai de mim se considerar valioso, ou dar algum peso absoluto ao que penso. Na verdade, nada pode travar tanto alguém do que dar alguma valia aos próprios pensamentos, acho que o que me torna livre para pensar e falar é exatamente isso que você mencionou, sobre a relatividade de toda a linguagem. Esqueci mesmo de deixar claro que minhas impressões, ou nossa conversa sobre isso, não passa de uma espécie de "luxo" (ou lixo) do quem já experimentou que a fé em Jesus está para além dos discursos, que de fato é uma experiência numinosa e silenciosa. A linguagem é mesmo quase um mal necessário, tão frágil como semente, dependente completamente do terreno onde cair.

Passa longe de mim qualquer gosto por debates, gosto de conversas, ou seja, quando os dois têm "ouvidos para ouvir", e não há os gritos absolutizadores de um dos lados. O que eu queria era dialogar um pouco.

Meu ranço com o platonismo, ainda que eu o ache encantador, é que o julgo exatamente incompatível com essa relativização da palavra e da linguagem, visto que foi ele o propagador da lógica da representação, ou seja, da lógica de que um discurso vale pela realidade do qual discorre, como um espelho que retrata fielmente o que reflete. Sabemos que qualquer fala não retrata a realidade, e penso que desde o principio foi assim. Deus nunca falou para representar o que existe, mas para criar. A linguagem cria, não representa. Assim, a palavra gera sentimentos e impressões e tem nisso a sua força e utilidade, mas, nada daquilo que ela tenta abarcar consegue, e se alguém estiver em comunhão com a vida, entenderá que nem se deve tentar fazer isso. Ora, se é assim, quanto mais para falar do divino! Não é meu desejo achar a linguagem ideal para falar de Deus, isso já é queda. Não há ideais, como você disse. Mas, não nego a angustia dessa preocupação, de qual a linguagem, as metáforas, os modos de falar, mais interessantes... apesar disso, quase toda a resolução dessa angustia fica por conta da intuição.

Meu interesse em dialogar sobre coisas tão tolas é apenas o de sempre, tornar o estranho familiar... estou falando de nós dois.

Gosto da economia das palavras e do silêncio. Tentei deixar claro que minhas impressões não passam de talvez alguns desregramentos de meus sentidos, e passam longe da Verdade, são apenas verdadezinhas úteis a mim, ao funcionamento da minha ordenação interna, ao modo como falo e penso, e estão sempre em devir. A coisa boa de conversar é essa aventura de balbuciar o que nada mais é do que um acontecimento fisiológico singular e privado, abrindo-se também para tudo isso no outro.

De fato, a linguagem é uma grande fonte de mal-entendidos... mas, é uma alegria que apesar dela, o amor é uma fonte de bons-entendimentos.

Abraços...

E mais conversa

Mano,

Não considerei pesada a sua fala, apenas deu o tom da resposta na sintonia da carta, o que para mim foi séria, mas não pesada.

Todos nós, mesmo que tentemos não fazer, acabamos por enfatizar certas posições. O que não determina que somos inflexíveis. E meu carinho por você nasceu desde o momento que percebi em você a humildade necessária que assim confessa.

Afirmo-lhe que é sincera minha inicial amizade por você, e meu coração místico-intuitivo me fala bem de você.

Conheço bem a fraqueza da linguagem e também sua força, como você bem pontuou de não só representar, mas principalmente criar.

Não considero nossa fala um debate e sim uma conversa, não é uma disputa de idéias, é apenas diálogo entre amigos.

O que você compreende do platonismo é por mim compartilhado, exceto o sentimento.

Quanto ao tornar o estranho familiar, que tal um café?

Abraços

terça-feira, 27 de abril de 2010

O lugar da autoridade


Mt 23.8-11.
“Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi, porque um só é o vosso Mestre, a saber, o Cristo, e todos vós sois irmãos. E a ninguém na terra chameis vosso pai, porque um só é o vosso Pai, o qual está nos céus. Nem vos chameis mestres, porque um só é o vosso Mestre, que é o Cristo. O maior dentre vós será vosso servo.”

As massas possuem uma poderosa necessidade de uma autoridade que possam admirar, prestar culto, obedecer, seguir. E quanto mais for empobrecida a individualidade de cada pessoa, mas buscarão o apoio nestas autoridades.

Tais autoridades aproveitam-se e realizam a tentação da nossa natureza humana – ser como Deus, estar no seu lugar. No entanto, a própria idéia que esta autoridade tem de Deus é equivocada, pois Deus é poderoso justamente porque não tem necessidade alguma de exercer seu “controle” sobre os outros. Autoritarismo é na verdade fraqueza.

Nos Evangelhos a figura de uma autoridade que governe sobre os outros é completamente anulada. Neles se anuncia uma sociedade igualitária, uma sociedade de irmãos, onde o culto a personalidade não tem vez, onde a autoridade seja tão-somente função social, onde a obediência torne-se disposição para servir e não submissão do homem ao homem.

Ivo Fernandes
25 de março de 2009

terça-feira, 20 de abril de 2010

O custo do discipulado e minha hipocrisia


Quanto mais me debruço sobre o significado do Reino mais ganho consciência de minha hipocrisia. A proposta de Jesus é radical, o abandono de todo esquema individual pela completa compreensão do coletivo. Porém sou mais um na multidão dos ouvintes que ignoram sua mensagem e aguardam qualquer milagre que seja. Não faço parte do minoritário grupo de discípulos que deixaram tudo e O seguiram.

Meu arrependimento tornou-se algo moral e ignorei o fato que se tratava de uma mudança radical de valores. Sou ouvinte, mas não praticante dos mandamentos de Jesus. Faço parte da religião cristã, mas não dos que carregam no corpo as marcas de Cristo.

Talvez alguns leitores pensarão que estou exagerando, e que Jesus não fez uma proposta tão radical assim. Querem fazer do ‘tudo’ de Jesus algo que signifique menos, e como sempre tentamos encaixotar Deus em nossos conceitos e desejos.

Fiz a conta do discipulado e percebi que não estou disposto a tanto. Isso me põe num dilema, pois não consigo seguir os passos do Mestre, mas não consigo Dele me ausentar.
Será ser preciso que a perseguição me alcance e a tragédia me tome para que enfim aprenda a ser discípulo? Quando será que radicalmente abrirei mão de tudo?

Alguns me dirão que não existem pessoas assim, isso porque estão acostumadas apenas com os bons cristãos que pregam belas mensagens ao mesmo tempo em que lutam para sustentar seu padrão de vida. Porém existe sim, um grupo de discípulos que não sabemos nomes, mas que são conhecidos pelos céus. Os heróis de nosso tempo, nossos exemplos são meras ilusões que nos mantém presos a um estilo de vida contrário ao Reino, na medida em que eles mesmos também se mantêm.

Confesso que sou apenas um pregador profissional e isso faz de mim um hipócrita, pois falo do que sei, mas não do que faço. Ainda não me arrependi, sendo apenas um filho do mundo, que vislumbra o Reino, mas não o toma pela força, pois gasta todo seu tempo em manter a sua vida confortável.

Quando me esvaziarei de tudo para entrar no Reino que tem suas portas do tamanho dos buracos das agulhas? Deus, quem pode salvar-se? Aos homens isso é impossível.

Ivo Fernandes
20 de abril de 2010

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A cruz


Em várias partes do mundo a cruz é um símbolo que representa a união dos opostos, sendo um dos símbolos humanos mais antigos e é usado por diversas religiões. No cristianismo a cruz se tornou seu principal símbolo. Muitos cristãos primitivos mandavam gravar em seu corpo uma tatuagem da cruz, e em diversos ritos o símbolo da cruz é ministrado.

Teologicamente a cruz é interpretada de diversas formas, porém acredito que nenhuma delas é mais plena de significados universais que sendo vista como símbolo da unidade revelada em Cristo, onde todas as contradições e opostos de nossa existência são unificadas.

Na cruz a Vida encontrou a morte, o céu encontrou a terra, Deus encontrou o homem. Na união desses opostos está revelado a unificação dos opostos que encontramos dentro de nós. É o fim do si-mesmo e o nascimento do Eu-Tu-Nele.

Carregar a cruz é primeiro aceitar nossas contradições. Toda negação de nossa natureza corresponde a negação da cruz e vice-versa. Depois de aceito nos entregamos ao Deus Incompreensível, tal como Cristo que depois que sente o abandono de Deus entrega seu espiríto ao Pai. Só quando aceitamos nossa natureza contraditória e confiamos no mistério do amor de Deus é que somos salvos.

Compreendendo tudo isso partimos para a unidade entre os povos com suas culturas, religiões, classes sociais, pois na mesma cruz onde nos tornamos unidade, Deus fez de muitos povos um só, destruindo toda inimizade e os muros de separação.

Ivo Fernandes
15 de abril de 2010

Ídolos – da construção à necessidade de destruí-los

O termo ídolo não é um termo usado em nossa nação comumente. Aparece mais nos discursos evangélicos numa referência a qualquer entidad...