segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A questão da sexualidade no Evangelho

A sexualidade diz respeito a todo um conjunto de fantasias e atividades existentes desde a infância, que produzem prazer e não podem ser reduzidas à satisfação de necessidades fisiológicas. Não se limita a questões genitais ou de procriação, mas designa uma função vital orientada para a busca de um encontro funcional, totalizador e prazeroso.

Além disso, podemos falar de um caráter transcendente da sexualidade, pois ela está presente em cada um de nós e ao mesmo tempo nos escapa. Ela nos ameaça com suas demandas ao mesmo tempo em que nos promete gratificações supremas. Fascínio e terror a cercam. Felicidade e culpa a rodeiam. E essa característica da sexualidade que nos faz dela se defender. Mesmo numa sociedade dita livre a sexualidade é revestida de tabus, se chocando sempre com leis e proibições.

E por estas razões a sexualidade apresenta profundas analogias com a experiência religiosa. O deus-imaginário tem suas origens na dinâmica da sexualidade infantil. A relação da religião com a sexualidade fica tão evidente que vemos a sacralidade do sexo em algumas religiões e as proibições e tabus em outras.

Porém de maneira surpreendente o Evangelho não se ocupa com a problemática sexual. Não há nenhum ensino completo ou sistemático a respeito do assunto. Portanto o privilégio que possui o tema dentro do cristianismo não é em razão do Evangelho. Comportamentos como masturbação, homossexualismo, relações pré-conjugais que atormentam os cristãos não encontram muita referência no Evangelho. É do estoicismo que nasce nossa “moral” sexual e não das páginas do Evangelho.

Jesus nunca se apresentou como inimigo do corpo, pregando sacrifícios e privações. Não foi um asceta, nem um essênio, ao contrário gostava tanto das companhias humanas que foi acusado de comilão e beberrão. Em Jesus vemos em vez de repressão sexual uma forte sublimação. Havia uma paixão em Jesus que o absorvia e canalizava toda a sua energia, a paixão pelo Reino. E foi dedicando-se a esse tema é que podemos ver como o Evangelho tratou do tema da sexualidade.

Os comportamentos sexuais concretos não são objetos de preocupação dos Evangelhos, mas sim as estruturas básicas por meios das quais a sexualidade se desenvolve e produz maiores alienações: a família sacralizada; o pai como símbolo de opressão; e a marginalização da mulher.

É na família onde primeiro a sexualidade se configura, ao mesmo tempo em que primeiro se choca com limitações, proibições, leis. Apesar do inegável valor da família encontramos no Evangelho uma mensagem revolucionária e inquietadora.

Jesus não trata a família como um espaço sacrossanto, nem um espaço para se defender a todo custo, antes estimula aos seus discípulos a superarem os laços de carne e inaugurarem um novo modelo de filiação que desloca a ordem biológica. Laços espirituais entre os homens é que o determina essa nova família universal.

Na nova configuração familiar, as figuras de autoridades são chamadas a ocuparem o lugar de igualdade. Pais se convertem em irmãos, levando os filhos a tornarem-se adultos, autônomos e responsáveis. Desta forma os esquemas neuróticos da sexualidade e da religião sofrem um grande golpe quando se destrona a figura do pai dominante e opressor. Na nova ordem de relações inauguradas pelo Reino, o único vínculo que se estabelece é o da fraternidade no serviço mútuo. E por fim Jesus defende a mulher contra as arbitrariedades dos homens, colocando ela em posição de direitos iguais.

Jesus não nos oferece nenhum código de ética sexual porque espera que o ser adulto movido pelo amor seja seu próprio juiz. O Deus de Jesus de Nazaré não é inimigo do prazer humano, esse inimigo é na verdade o deus-imaginário.

Ivo Fernandes
21 de novembro de 2010

2 comentários:

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Não só no Evangelho, como na Torah, o prazer sexual não é reprimido. Conforme escrevi no artigo "O sexo é uma benção de Deus!", embora a lei mosaica proibisso relações incestuosas, o adultério e o homossexualismo, uma passagem de Gênesis dá a entender que o sexo na cultura hebraica podia ser experimentado de forma plena entre um casal. A narrativa conta que Isaque, o filho prometido de Abraão, encontrava-se na região de Gerar já fazia muito tempo. Certo dia, Abimeleque, rei dos filisteus, estava olhando do alto de uma janela quando viu Isaque acariciando Rebeca, sua mulher (Gênesis 26.8). Bem, o verbo hebraico que corresponde à palavra "acariciava" escolhida pelos tradutores da Bíblia para o português seria brincar e que vem da mesma raiz do nome do patriarca Isaque (Riso). Ora, isto pode significar que Isaque e Rebeca estavam fazendo uma brincadeira de conteúdo sexual, coisa que gera perplexidade para o moralismo equivocado dos tradutores da Bíblia e até mesmo para boa parcela do público de leitores dos livros sagrados.

Além disso, ao contrário do que prega o catolicismo, os Evangelhos não afirmam que Maria tenha permanecido virgem até morrer. Os livros que homenageiam Mateus e Lucas relatam que de fato Jesus nasceu de uma virgem, mas também mencionam que o Senhor teve também irmãos e irmãs, dentre os quais dois escritores das epístolas universais do Novo Testamento (Tiago e Judas), o que dá a entender que Maria e seu esposo José fizeram sexo. E, com certeza, não foi uma vez só não...

Gresder Sil disse...

Caramba só agora eu li este texto e ficou demais, perfeito! Não tenho nada acrescentar, e o mais interessante é que o texto é coerente com o assunto não deixando no final nem um conselho ético moral como conclusão.

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