segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Não mexe comigo – entre a vingança e a justiça



Ler: Carta de Amor de Maria Bethânia
Salmos: 58, 59, 69, 109

Toda pessoa que me conhece sabe de minha paixão pela cantora Maria Bethânia e por suas interpretações. Uma de suas composições traz um tema interessante – a imprecação.

“Não mexe comigo, que eu não ando só,
Eu não ando só, que eu não ando só.
Não mexe não!”

“Onde vai valente? Você secou, seus olhos insones secaram, não veem brotar a relva que cresce livre e verde longe da tua cegueira.
Seus ouvidos se fecharam à qualquer música, qualquer som, nem o bem, nem o mal, pensam em ti, ninguém te escolhe.
Você pisa na terra mas não sente, apenas pisa.
Apenas vaga sobre o planeta, e já nem ouve as teclas do teu piano.
Você está tão mirrado que nem o diabo te ambiciona, não tem alma.
Você é o oco, do oco, do oco, do sem fim do mundo.

O que é teu já tá guardado.
Não sou eu quem vou lhe dar,
Não sou eu quem vou lhe dar,
Não sou eu quem vou lhe dar.

Eu posso engolir você, só pra cuspir depois.
Minha fome é matéria que você não alcança.
Desde o leite do peito de minha mãe, até o sem fim dos versos, versos, versos, que brotam do poeta em toda poesia sob a luz da lua que deita na palma da inspiração de Caymmi.
Quando choro, se choro, é minha lágrima que cai pra regar o capim que alimenta a vida, chorando eu refaço as nascentes que você secou.
Se desejo, o meu desejo faz subir marés de sal e sortilégio.
Vivo de cara pra o vento na chuva, e quero me molhar.
O terço de Fátima e o cordão de Gandhi, cruzam o meu peito.
Sou como a haste fina, que qualquer brisa verga, mas nenhuma espada corta.”

A maioria dos religiosos cristãos atribui a imprecação as religiões afro-brasileiras. Talvez esses cristãos nunca leram salmos como esses:

“Não toqueis os meus ungidos, e não maltrateis os meus profetas. Salmos 105:15

Ó Deus, quebra-lhes os dentes nas suas bocas; arranca, Senhor, os queixais aos filhos dos leões.
Escorram como águas que correm constantemente. Quando ele armar as suas flechas, fiquem feitas em pedaços.
Como a lesma se derrete, assim se vá cada um deles; como o aborto duma mulher, que nunca viu o sol.
Antes que as vossas panelas sintam o calor dos espinhos, como por um redemoinho os arrebatará ele, vivo e em indignação.
O justo se alegrará quando vir a vingança; lavará os seus pés no sangue do ímpio.
Então dirá o homem: Deveras há uma recompensa para o justo; deveras há um Deus que julga na terra.”
Salmos 58:6-11

Estas imprecações ou maldições empregam linguagem veemente e violenta contra os inimigos e os malfeitores.  Tais expressões são frequentes em vários Salmos (35, 58, 59, 69, 83, 109, 137, 140) e em comentários breves (5:10, 10:15, 17:13; 54:5, 55:9, 139:19, etc.).

Imaginem uma oração assim numa congregação cristã logo após os cânticos de amor?

Logo a questão não é julgar expressões religiosas mas avaliar se trata-se de uma prática que deve ser louvada, estimulada entre nós? Afinal o mandamento e ensino do Senhor é claro:

“Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo.
Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos.
Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim? Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus.”
Mateus 5:43-48
Ora com esse mandamento fica claro a impossibilidade de oramos como os imprecatórios. Porém não precisamos negar os elementos legítimos que estão muitas vezes presentes nessas imprecações. Para isso temos que separar dois momentos: A justiça e a vingança.

Quando estamos com desejo de vingança o imprecatório só revela nosso mau coração, que tenta fazer de Deus nosso cúmplice. Mas o imprecatório pode ser um momento emotivo por desejo de justiça, não bem representado em palavras, mas legítimo em sensações.

Nos salmos fica claro uma divisão entre os justos e os injustos. Os ímpios, os malfeitores e os inimigos são proeminentes através dos Salmos (veja 10:1-10 e 36:1-4 para descrições mais longas).  Eles são maus, enganadores, orgulhosos, violentos, cruéis, etc. Eles oprimem, ameaçam, agridem, perseguem, como também agem maliciosamente contra indivíduos.  Os salmistas estavam, obviamente, no mundo real, vendo com seus próprios olhos e algumas vezes experimentando em suas próprias vidas as injustiças, crueldades e violência que essas pessoas fazem a outros seres humanos.  Os salmistas estavam enfurecidos e suas almas inflamadas até o ponto de uma justa reação contra o mal.

Não é só uma afronta pessoal que enfurece os salmistas, mas seu entendimento de que tal impiedade é uma afronta a Deus e a eles, em sua busca de Deus.
Somos ensinados pelo Cristo a orar pelos inimigos e também a lutar pela justiça. Os cristãos precisam ser persistentes na oração pelos nossos inimigos, recusando tomar vingança pessoal, e pagando o mal com o bem (Mateus 5:38-48; Romanos 12:14, 17, 19-21).  Ou seja, a oração por justiça não nasce da ira pessoa.

Assim meu conselho é ser honesto com suas emoções e procurar por luz sobre elas para identificarmos a origem de nossos desejos – busca por justiça ou vingança? Encontrando ira pessoal no coração, clamar a Deus por um novo coração – um coração igual ao dele. Porém se nosso desejo é fruto da busca da justiça, falar então como profetas que anunciam o fim do mal, no mundo, no próximo e em nós mesmos.

Ivo Fernandes

24 de janeiro de 2016

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