domingo, 9 de abril de 2017

Quando a igreja não presta para mais nada



Leitura: Mateus 23

Essa semana uma novela da rede aberta exibiu no seu último capítulo uma cena onde políticos e religiosos estavam unidos celebrando o fato de estarem conseguido poder e dinheiro, uma clara alusão ao atual quadro da política e da religião brasileira, em especial sua versão evangélica.

Quando a cena foi ao ar me perguntei onde foi que a igreja no Brasil perdeu sua credibilidade? Quase todos os ambientes televisivos retratam a igreja de forma negativa, sempre denunciando seus abusos, sua ganância, e sua loucura. E para não deixar mentir tais programas, passei para os canais evangélicos e o que vi foi muito pior do que o retratado na ficção. Um certo pastor estava em locais sagrados em Jerusalém, “ungindo” óleos (supostamente de ouro, prata, petróleo, dimanante) com o qual iria “ungir” os membros de sua seita, com a unção das riquezas.

Qualquer pessoa de bom senso perceberá que pelo menos as versões midiáticas da igreja evangélica, maioria composta por neopentecostais, alguns pentecostais e outros carismáticos, conseguiram a proeza de firmar-se, no Brasil, por algumas características: pobreza cultural, superficialismo ético, pragmatismo da riqueza fácil associado a ganância, hipocrisia moralista, fundamentalismo teológico e loucura.

A igreja que sonhei existir na minha infância composta de gente que tentava viver uma vida ética, e anunciar o Evangelho da salvação, não existe mais, exceto em pequenos grupos, cada vez mais massacrado por essa religião da prosperidade e das autoridades religiosas.

Começamos com o nosso fundamentalismo, que diga-se de passagem é no mínimo ingênuo do ponto de vista da lógica filosófica e literária, que afirmava conseguir ler a Bíblia “ao pé da letra”, até nosso triunfalismo da fé, crendo que conquistando espaço das diversas mídias e na política estaríamos experimentando o cumprimento das promessas de Deus.

O fato é que com o nosso fundamentalismo afastamos os que tinham uma mente aberta ao diálogo e a busca legítima da verdade. Atraímos as pessoas que não se importam com nada, a não ser com a manutenção a todo custo de suas próprias verdades.

No Brasil, além de adotar a agenda moralista e fundamentalista americana, os evangélicos se neopentecostalizaram. E o resultado foi desastroso: viraram chacota nacional.

A pobreza cultural da igreja se revela no circo mágico que vemos todos os dias, onde se inventa toda espécie de apelo com a única intenção de conquistar mentes fracas a darem o máximo de dinheiro possível. E qualquer um que for honesto precisará assumir que tal igreja não tem nada a ver com Jesus o Nazareno.

Considero tais manifestações da ordem do ridículo, completamente reprovável e até mesmo criminoso. O espírito medieval da venda das indulgências e das relíquias ganhou uma nova cara e vende-se de tudo: óleos e águas ungidas, sabonetes sagrados, canetas da riqueza, vassoura sagrada, Bíblia ungida, sal grosso, água do rio Jordão, tijolo da bênção, toalha milagrosa. E a multidão de interessados, meros consumidores de porcaria passam a associar Deus a esse mercador e as igrejas que tratem de oferecer os “melhores” produtos. E nessa guerra comercial cada igreja desce mais fundo na produção do ridículo.

E mesmo que alguém diga que nem todas as igrejas fazem a mesma coisa, não podemos negar que o neopentecostalismo virou o discurso modelo, afinal, são essas igrejas donas de emissoras de televisão, com o horário nobre, e tem bancada de políticos. Com tamanho sucesso, os demais evangélicos, ou pelo menos a maior parte, se viu exigida a caminhar com esses, por causa da vaidade do poder que essas igrejas possuem. E os poucos que discordam também acabaram silenciando, com medo de na denúncia acabar dando um tiro no próprio pé. Assim os justos se calaram e isso foi pior do que o grito dos maus.

Deus é mercadoria a serviço da alienação e a igreja o balcão onde ele é oferecido. Se um dia fomos chamados de sal da terra, com certeza esse sal perdeu seu sabor. O movimento evangélico tornou-se um mercado onde cada igreja disputa pelos consumidores. Não há mais conteúdo. Mas o fato de ter se tornado insípida não põe fim a essa igreja. Alguns argumentam que a igreja tem um papel social importante por isso não pode acabar, papel esse que se resume em produzir pessoas politicamente corretas, com uma ética pobre e uma moralidade hipócrita. Esses mesmos indivíduos também se tornam completamente “judiciosos”, cheios de inveja, orgulho, vaidade, espírito faccioso, sensualidade adoecida, espiritualidade livresca, fobias de alma, insegurança de ser, necessidade de parecer ser, academicismo vazio.

A igreja atual não conhece a Graça, a não ser como doutrina, e ainda assim deformada. Porém falar sobre esse assunto não é mais de meu interesse, porque não faço mais parte do movimento evangélico, apesar de saber que há muitos convertidos ao Evangelho da Graça na igreja evangélica. Trouxe tudo isso para mostrar que qualquer um de nós, qualquer movimento cristão pode tornar-se sal insípido, se seguirmos os mesmos caminhos denunciados pelo próprio Cristo em seu sermão contra os religiosos de seu tempo, são eles:

1.   O caminho que se dedica a discursos disassociados da vida. (vs 1,3)
2.   O caminho que produz regras que só servem para sufocar os homens (vs 4, 13)
3.   O caminho que valoriza apenas a glória da aparência (vs 5, 25-28)
4.   O caminho que explora os pobres (vs 14)
5.   O caminho que valoriza a adesão mais que a conversão (vs 15)
6.   O caminho que valoriza o detalhe e ignora o conteúdo (vs 16 – 24)
7.   O caminho que persegue todo e qualquer que denunciar sua corrupção (vs 29-35)

Se não queremos ter o mesmo fim do movimento evangélico precisamos estar atentos aos nossos passos, e manter com toda a força a comunhão dos irmãos, não nos colocando como superior a ninguém, entendendo que o mestre é Cristo, o Pai é Deus e nós somos apenas irmãos uns dos outros. O nosso caminho é o do serviço movidos pela Graça e não outro. Que sejamos sal que dá sabor ao mundo.

Ivo Fernandes


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