quinta-feira, 28 de julho de 2016

Sobre a “escola sem partido”


Decidi omitir opinião sobre este assunto primeiramente para responder amigos que me questionavam sobre o mesmo, segundo, porque como professor me envolve diretamente, e por fim por uma questão de participação cidadã. Porém quero registrar meu desconforto em publicar questões como essa em virtude da incapacidade para o diálogo que encontro atualmente entre nós.

Para emitir tal opinião me cerquei de todo conhecimento necessário para poder falar. É meu próprio não falar do que não sei, ou do que sei pouco. Não que sobre esse assunto eu saiba muito, mas creio saber o suficiente para a emissão de opinião.

O movimento “escola sem partido” foi criado pelo advogado Miguel Nagib, em 2004. Em 2014, o deputado estadual do Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro (PSC-RJ) pediu ao Miguel Nagib que escrevesse um projeto de lei com esse teor, intitulado Programa Escola Sem Partido. Ele foi o primeiro parlamentar a apresentar um projeto desses no Rio de Janeiro, em 13 de maio de 2014.
São vários projetos de lei do Movimento, dois deles aguardam tramitação no Congresso Nacional: um na Câmara dos Deputados, o PL 867/2015 de autoria do deputado Izalci Lucas (PSDB); e outro no Senado Federal, o PL 193/2016 apresentado pelo senador Magno Malta (PR-ES). Esse projeto de lei, apresentado no Senado, é uma versão mais atualizada que abrange, inclusive, a proibição da discussão de gênero nas escolas.
Também já foram apresentados projetos do Escola Sem Partido em dez estados brasileiros e no Distrito Federal. Eles conseguiram aprovar em Alagoas, onde é lei, com o nome “Escola Livre”.
Em relação aos municípios, não temos os números exatos, até pela dificuldade de acompanhar a aprovação desses projetos de lei municipais. Mas sabemos que já foi aprovado em Picuí (PE) e Santa Cruz do Monte Castelo (PR). (1)

O que percebi consultando os sites do movimento e dos defensores do mesmo é uma cortina de fumaça onde alguns temas de fácil adesão de todos estão misturados com outros bem mais complexos como a questão das minorias, soando muito mais como uma guerra de ideologias do que com um projeto de lei que visa o bem do povo como um todo.

Além do mais, não consigo ignorar as razões, os contextos e outros elementos por trás do projeto. Que interesses estão em disputa quando se faz a defesa de uma escola “sem doutrinação”? Porque todas as vezes que os críticos levam a discussão para esse nível, foge-se do tema, enfatizando apenas o texto do projeto? Ora, não é possível a produção e compartilhamento de conhecimento sem uma base histórica e cultural.

A tão falada neutralidade, para mim fica claro que não existe. Aliás, não há como se falar de neutralidade. O que percebo no projeto não é uma ausência de ideologia, mas a tentativa de sufocar ideologias contrárias aquelas que foram e ainda são dominantes em nossa sociedade.

Outro fator que destaco do que li, vi e ouvi é a produção de falácias. Toda mentira bem elaborada, para ser convincente, precisa começar apontando alguns fatos verdadeiros. É a arte da falácia. Listo algumas delas: primeira; dizer que os que reagem a escola sem partido são membros de partidos que aparelharam o estado; dizer que o projeto é apartidário; outra falácia é dizer que o projeto pode ser pensado ignorando seu contexto histórico. Ou seja, quem produziu o texto. A pedido de quem? Quem são os deputados que defendem?; outra falácia dizer que o PCdoB está por trás de todo movimento estudantil.

Sinceramente, a partir de minha experiência de sala de aula e de muitos amigos meus, não sei de onde tiram essa ideia da predominância de uma doutrinação de esquerda. Aliás eu diria que encontro muito mais o pensamento oposto sendo defendido por alunos e professores.

Assim, é preciso investigar a quem interessa tais medidas. Uma das respostas pode estar presente na bibliografia que o referido grupo apresenta bem como em seus principais líderes políticos. Em outras palavras, podemos perguntar qual o partido do ‘Escola Sem Partido’.

Bom, para isso basta gastar um tempo em pesquisa sobre por exemplo Miguel Nagib e suas ideias para além da escola sem partido. Sobre o Flávio Nantes Bolsonaro político brasileiro, filiado ao PSC e filho do Deputado Federal Jair Bolsonaro. Vê em todas as polêmicas que os mesmos estão envolvidos. E o senhor Senador, Magno Malta, sobre esse a lista é maior ainda.

Mas, querendo ignorar essas coisas e ir direto para o texto do projeto, você verá, se entender de lógica e de estrutura de discurso e um pouco de lei que o projeto é tecnicamente equivocado. E para muitos da área do direito também inconstitucional. Quanto a este tema não tenho domínio, porém sobre identificar a falseabilidade do discurso aí sim posso emitir mais opiniões.

Eles misturam práticas realmente condenáveis com práticas corriqueiras e desejáveis em sala de aula. Por exemplo, entre as proibições da prática docente consta: “o professor não fará propaganda política partidária dentro da sala de aula, nem incitará seus alunos a participarem de manifestações, atos públicos e passeatas”.

Que o professor não deva fazer propaganda política, estamos de acordo. Mas, eles proíbem a discussão política, ao afirmar que o professor não deve debater assuntos vinculados ao noticiário. Veja como eles misturam partes condenáveis com discussões que são vitais.

O outro é a própria ideia de “doutrinação” em sala de aula. Eles se dizem contra a “doutrinação”, mas próprio projeto de lei não define o que eles chamam de doutrinação ideológica. O projeto abre um espaço gigantesco de interpretações subjetivas logo favorecendo quem está no poder.

Isso sem falar, da afirmação equivocada da vulnerabilidade dos alunos, como se não fossem ativos no processo de ensino-aprendizagem. E da contradição prática do ensino de acordo com a moral dos pais, num país de extrema diversidade. A partir de questões como essa, percebe-se a falácia do projeto. O fato de o texto trazer verbos que defendem a pluralidade no ensino, na prática o que ele promove é justamente o contrário.

É simplesmente impossível que determinados assuntos não se choquem com convicções religiosas e morais dos pais. Ou seja, é impraticável esse projeto. Além de impraticável anula do sistema de ensino o processo de cidadania e a real participação democrática.

Por fim tal projeto só servirá para produzir uma onda de perseguição desnecessária, um cerceamento da liberdade de ensino e de expressão, que na prática também não podem ser desassociadas. Além de se apresentar claramente como retrógrado e preconceituoso em relação as minorias, principalmente o que tramita no Congresso.

Por tudo isso e por outras que posso apresentar a quem quiser tomar um café ou um vinho e bater um papo é que sou a favor sim da escola sem partido, porém contra o movimento e os projetos de lei que se apresentam com essa expressão.

Ivo Fernandes
28 de julho de 2016


(1)http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/O-que-esta-por-tras-do-Escola-Sem-Partido-/4/36486

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Amizades reais em tempos virtuais


Quantos amigos temos? Os seguidores de nossas redes sociais são nossos amigos? O que define hoje uma real amizade?

Diante de meu conceito de amizade, cada dia mais vejo que amigo é uma coisa rara, visto que nos tempos de virtualidade dominante o que buscamos são pessoas que nos seguiam a partir de curtidas do que dizemos e fazemos, ou seja, de gente que jamais me incomode, que jamais me diga o contrário, ou que ouse discordar do que penso ou não gostar do que gosto.

Ora outro tipo de ‘amizade’ que surge é aquela que corresponde a nossas necessidades de atenção, se alguém não teclar comigo, não tiver interesse pelas minhas publicações, facilmente delatamos de nossa lista de amigos, afinal para que serve um amigo que não compartilha o que publico?!

Porem verdadeiras amizades não nasce de um contato virtual, mas de convivência real, onde os amigos possam trilhar vales, montanhas, experimentar alegrias e tristezas juntos.

O texto bíblico fala de uma amizade entre Davi e Jonatas. A amizade deles somente se mostrou amizade quando Jonatas, impedido pelo pai, Saul, que desejava matar Davi — contra tudo e todos, mesmo quieto e pacifico, permaneceu leal a Davi, sem que com isso traísse ou abandonasse seu pai; e demonstrou isso até o fim da vida; o mesmo acontecendo com Davi, que não apenas amou a Jonatas, mas expressou isso de modo imorredouro em sua poesia bíblia, como também, mediante o amor e a consideração que teve para com a descendência de Jonatas após a sua morte.

Amizade é, portanto, uma relação de confiança, lealdade e honra. Logo não existe verdadeira amizade onde não existem honradez. Ambientes de moralismo hipócrita não produzem verdadeiras amizades. Basta ver como os religiosos moralistas tratam os que fracassam, ou melhor são pegos em flagrante delito.

São amigos de conveniência, são na verdade cumplices no engano e na perversão. Ao contrário desse modelo farisaico de amizade temos o modelo de Jesus, o amigo que dá sua vida pelos outros e não espera que os amigos deem a vida por ele, mas que tão somente continuem vivendo em coerência com os valores da amizade.

Jesus era leal aos seus amigos, todos eles, e buscava ajudar cada um em suas reais necessidades. Foi amigo do tolo que em sua tolice queria se colocar como o mais importante entre os amigos, ensinado o caminho do servo. Foi amigo dos insensatos que prometiam o que não podiam cumprir, lhe perdoando as faltas e lhes dando novas chances. Foi amigo dos fracos que não conseguiram lhe acompanhar no momento de dor, não excluindo estes dos momentos de glória. Jesus é modelo do amigo que corrige, mas não humilha.

Verdadeiro amigo não tem sua amizade diminuída por causa da distância física. E a cada reencontro não há cobranças nem melindres. Verdadeiros amigos se amam. Logo tudo crê, tudo espera, tudo suporta e jamais acaba; enquanto não age nunca de modo inconveniente, não se exaspera, não se ressente do mal, não se alegra com a injustiça, antes, regozija-se com a verdade.

Dessa forma meu critério pessoal, hoje, de atribuir amizade a alguém, é muito simples: vejo quem se alegra com minhas alegrias, e chora com minhas dores. Se alguém não é capaz de celebrar minhas vitórias, esse não tem reais condições de uma amizade verdadeira. Os que se alegraram muito com minhas alegrias, são os mesmos que efetivamente estarão presentes em minhas tristezas; e sempre solidariamente me falaram a verdade. E recuso toda amizade moralista. O tipo de amigo que só o é se me comportar como ele deseja. Jesus disse que amar os que nos amam e tratar bem os que nos tratam bem é apenas um comportamento pagão, posto que é assim que qualquer pagão, minimamente, trata um ao outro. Jesus disse que deveríamos buscar amar e ser amigos do jeito do Pai Celeste, que é bom para com maus e bons, e derrama Graça sobre todos.

Eu tenho amigos, não é um milhão, mas são suficientes! Porém sempre é possível novas e verdadeiras amizades.

Ivo Fernandes
09 de julho de 16


(A parte em itálico é do site do Caio Fabio)

segunda-feira, 4 de julho de 2016

O tempo


Leitura: Eclesiastes 3.

O tempo sempre foi um tema de minhas poesias e de muitos de meus escritos. Ele está presente em muitos dos meus pensamentos. Adoro filmes que o abordam, gosto de filosofias que o investigam. Pois afinal o que é o tempo? Como enxergá-lo? Como vilão ou como mocinho? O que ele nos traz? O que aprendemos com ele?

Existem tantas frases em relação ao tempo: Vamos aproveitar o tempo; tempo é dinheiro; o tempo tá passando; o que passou não volta; o tempo cura tudo; o tempo é cruel; no meu tempo...etc.

Recentemente ouvi essa: Se queres perceber o valor de:
Um ano, pergunte a um estudante que repetiu de ano.
Um mês, pergunte para uma mãe que deu à luz um bebê prematuro.
Uma semana, pergunte ao editor de uma revista semanal.
Uma hora, pergunte ao casal apaixonado que está esperando para se encontrar.
Um segundo, pergunte a uma pessoa que conseguiu evitar um acidente.
Um milésimo, pergunte a alguém que ganhou uma medalha de prata nos 100 metros rasos nas Olimpíadas.

Enfim, o tempo é um tema que nos envolve.

Mas o que as Escrituras bíblicas nos ensinam sobre ele?

O texto clássico é Eclesiastes 3. O que ele nos diz?

1.      O tempo não é linear, não é progressivo, é espiral. Não permitindo garantias nenhumas do próximo momento. Ora ele se manifesta uma coisa ora se manifesta outra.
2.      Considerando que ela nos traz situações diferentes é preciso estar em cada situação como ela nos pede. Ou seja, não se pode juntar quando é tempo de separar, não se pode colher quando é tempo de plantar.
3.      Sem a consciência dessa realidade não adquire sabedoria, maturidade, não se torna adulto. Vive como se a vida fosse sempre a mesma, sem as dinâmicas do tempo.
Outras Leituras: Salmo 126
“Mostra-me, Senhor, o fim da minha vida e o número dos meus dias, para que saiba quão frágil sou. Deste aos meus dias o comprimento de um palmo; a duração da minha vida é nada diante de ti. De fato, o homem não passa de um sopro” (Sl 39.4-5)
                                        
4.      É na consciência da ‘espirilidade’ do tempo, e amadurecidos com a experiência é que podemos dizer como Paulo:
Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece.
Filipenses 4:12,13
E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Romanos 8:28

5.      Por isso, cheios desse entendimento, devemos ter por atitudes o que nos sugere a próxima leitura:
Eclesiastes 11

Ivo Fernandes

19 de junho de 2016

domingo, 3 de julho de 2016

A Graça e a questão da caridade



Em um dos momentos da reunião do caminho da graça em Fortaleza, em que se abre espaço para que as pessoas manifestem como entendem certos textos, uma velha discussão surgiu diante do texto de Mateus 25.31-46, a discussão em torno da salvação e da condenação. Quanto a esses temas muitos textos podem ser encontrados no meu blog através de uma simples pesquisa. Porém decidiu falar um pouco mais sobre um dos desdobramentos do tema, a questão da caridade e da graça.

Eu creio num significado eterno da existência, que me faz crer que todo homem está e será julgado por tudo o que faz. Aliás as Escrituras dizem que o homem será julgado conforme as suas obras. Porém, entendo que tal juízo não é para a salvação, pois seguramente não somos salvos por obras, para que ninguém se glorie. A salvação é uma dádiva divina e só o pode ser assim, pois tal bem é impossível ser alcançado pelo homem. Porém nos foi dado uma vida e conforme o texto bíblico fomos criados em Cristo Jesus para boas obras de antemão preparadas para que andássemos nelas. Ou seja, foi para as boas obras que fomos criados, logo o caminho contrário a essas obras nega o propósito da própria vida, e evidentemente que negar a vida é assumir a morte.

Ora quem segue o caminho da morte, nega o caminho da bondade, justiça, verdade, misericórdia, humildade e graça solidária, e, portanto, atraem para si a condenação. Mas que condenação é essa senão a perda da salvação? Não!

A salvação não se ganha nem se perde por ações nossas, ela é uma garantia divina aos seus filhos. Porém, fomos criados livres e a dádiva da salvação pode ser experimentada ou negada, e ora a salvação manifesta-se na vida, logo aquele que nega a vida, escolhendo o caminho da morte, nega a própria salvação que possui. E o que ocorre quando nego algo que possuo, vivo como não possuindo. O que ocorre com os que negam as boas obras? Seguem o caminho da morte. O que ocorre para quem nega a salvação? A condenação.

Agora! O que são as boas-obras? Simples toda obra que for fruto da bondade. Quando Jesus critica um fariseu o faz porque suas obras não possuíam bondade, apesar das orações, esmolas, rigores comportamentais conforme as prescrições da Lei. Não era a bondade que movia suas obras. Ora se não é a bondade, a obra não gera salvação.

“Só há boas obras se as obras forem boas, e as obras só são completamente boas também para o praticante, se forem feitas com bondade.
Ainda que eu dê os meus bens aos pobres e entregue em martírio o meu próprio corpo para ser queimado, sem amor...nada disso me aproveitará.”


Se não tiver amor! Amor e bondade nesse sentido são sinônimos.

E aqui retornamos ao texto de Mateus. Quando se tem bondade, as obras são realizadas de forma natural, podendo se dizer que não são mais nem obras, é apenas o fruto natural.
Assim não somos salvos pelas obras, mas pela bondade que gera as obras. E de onde vem a bondade senão do coração grato que sabe da dádiva da salvação?!

Logo, Graça, Salvação, Bondade, Boas-obras, Vida não se separam e nem podem ser pensadas separadamente, pois trata-se da mesma manifestação do Amor Divino.

Ivo Fernandes

01 de julho de 16

Obs. O texto em itálico é de Caio Fábio

Ídolos – da construção à necessidade de destruí-los

O termo ídolo não é um termo usado em nossa nação comumente. Aparece mais nos discursos evangélicos numa referência a qualquer entidad...