segunda-feira, 1 de agosto de 2016

A conformidade com o mundo e a banalidade do mal


Texto Inicial:
“E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” (Romanos 12:2)

 “Não vos conformeis com este mundo” – porém o que é “mundo”?

Mundo, conforme visto nas páginas das escrituras tem vários sentidos, porém quando se fala do mundo em oposição a Deus não se trata de uma criação divina, não se trata da terra que habitamos. Fala, na verdade de um conceito. E como conceito é criação nossa, e criação essa que se opõe ao que é de Deus, ao Amor e a Graça.

Começa como conceito, mas depois ganha carne. E como trata-se de algo contrário a Deus manifesta-se como perversidade, cobiça, ódio, mentira. Desse modo, sabe-se que Deus não odeia o mundo enquanto criação, mas o sistema de morte produzido pelos homens.

Enquanto sistema o mundo está manifesto sob a tirania de diversos “ismos”, com pretensões ao absolutismo e o totalitarismo criando uma devastadora sociedade de indivíduos reduzidos, ‘ensimesmados’, produzindo ataques à pluralidade, à diferença. Um sistema onde a singularidade de cada um é imolada nos altares da padronização, da doutrinação, da “moldagem”.

Não se conformar com o mundo é abrir-se para outra realidade possível. E conforma-se com o mundo é ir banalizando o mal do sistema. Sim, pois conformados com o mundo não estamos contra a moral do sistema, mesmo que por causa disso estejamos contra a vida.

 Os genocídios e expurgos não foram cometidos por pessoas insubordinadas e rebeldes, muito pelo contrário: os maiores criminosos eram os que estavam bem-integrados ao sistema e realizavam com competência suas funções especializadas.          
Julgado pelos judeus em Jerusalém, em 1961, um dos maiores criminosos do século, “arquiteto do Holocausto”, Eichmann só profere clichês de burocrata medíocre em sua gaiola de vidro, no tribunal, e ali dentro talvez nem mesmo pudesse sentir o peso dos 6 milhões de pessoas assassinadas que o apontavam com seus dedos, do além-túmulo, um formidável j’accuse coletivo. Em sua defesa, Eichmann só sabe argumentar coisas deste teor: “foram as ordens que recebi e elas tinham que ser executadas”; muito diferente do monstro satânico e sanguinário, cheio de ódio e racismo, que alguns esperavam encontrar em Eichmann, o que se revela, é um funcionário competente de uma burocracia estatal, um mero intermediário numa cadeia de comando.

Sim! Sob a força da conformidade com o mundo, milhares de cidadãos comuns, em nome da moral, da lei, dos costumes, da tradição, seguem líderes sanguinários e cruéis com devoção e subserviência

Mas de onde vem o conformismo, que forças o determinam, e quais são suas consequências?

1.       Através do conformismo ganhamos um significado e uma importância no grupo social
a.        Lembremos da fama que buscavam os antigos – o seu registro na história
b.       Movimentos de massa com líderes totalitários fornecem uma oportunidade, aos anônimos e invisíveis, uma espécie de porta-de-acesso à História.
c.        Uma aflitiva sensação de superfluidade – a pessoa que trabalha numa fábrica e pensa: “se eu morrer, eles põem outro operário em meu lugar” – torna-se uma incômoda força psíquica que motiva a adesão ao discurso daqueles líderes que prometem um destino glorioso àqueles que participarem do movimento. A megalomania de Hitler era muito notória: ele se referia ao Reich como algo que deveria durar 1.000 anos (acabou durando apenas 12). Seus slogans seduziam as massas prometendo que, longe de supérfluas e fadadas ao esquecimento, elas podiam entrar para a História, desde que participassem da luta contra a conspiração mundial dos judeus, este fantasma inteiramente fictício, mas com espantosos efeitos efetivos. A ficção é um poder histórico. A mentira também move o mundo.
d.       Dentro desse quadro descobrimos que a maioria das pessoas preferem a obediência ao sistema do que à compaixão

2.       Através do conformismo podemos negar a responsabilidade
a.       “Eichmann ficava abatido ao visitar os campos de concentração, mas para participar de assassinatos em massa precisava apenas sentar-se em seu gabinete e mexer em seus papéis. Por sua vez, o homem do campo que acionava as câmaras de gás podia justificar a sua conduta dizendo que estava apenas cumprindo ordens superiores. A pessoa que assume total responsabilidade pelo ato evaporou-se. Talvez seja esta a mais comum característica do mal, socialmente organizado, da sociedade moderna. “ STANLEY MILGRAM, Obediência à Autoridade, p. 28.

3.       Através do conformismo o que se pratica é uma negação da autonomia
a.        Eichmann era apenas um cidadão muito respeitador das hierarquias, e que sentia satisfação profissional caso desempenhasse bens suas funções, mesmo que estas funções fossem coisas como fazer com que os trens para Auschwitz saíssem na hora ou garantir a entrega de X judeus a serem exterminados no mês corrente do cronograma administrativo. 

A partir dessas análises podemos dizer que qualquer um de nós pode tornar-se “veículo” ou “oficial” do mal, basta nos isentarmos de pensar, e agirmos em simples conformidade com o mundo. Se quisermos vencer a banalidade do mal temos que renovar nosso entendimento, temos que ser conscientes e alertas, lúcidos e vigilantes, críticos e autônomos.

A banalidade do mal está entre nós, tão banal que para alguns certos males são “naturais”. Tais como o linchamento de pessoas sob o manto da ‘justiça’; o ataque a cidadãos que reivindicam direitos; a violência contra a mulher; até ataque a nações com a desculpa de estarem lutando contra o terrorismo. É possível dizer também que a banalidade do mal se manifesta nas missões religiosas que massacram pessoas em nome de Deus.

Concluo com os sábios conselhos bíblicos: se não nos arrependermos, mudarmos a lógica do sistema todos nós pereceremos ( Lucas 13:5). Precisamos vencer o mal com o bem (Romanos 12:21), pois mais importa obedecer a Deus, que é amor e graça, do que aos homens em seus sistemas-mundo ( Atos 5:29). Portanto, Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. (Mateus 9:13), porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé. (1 João 5:4)

Ivo Fernandes
31 de julho de 2016


O texto em itálico -  fonte: https://acasadevidro.com/2016/02/18/estudos-filosoficos-a-banalidade-do-mal-e-sua-tenebrosa-atualidade-reflexoes-na-companhia-de-hannah-arendt-stanley-milgram/)

Nenhum comentário:

Ídolos – da construção à necessidade de destruí-los

O termo ídolo não é um termo usado em nossa nação comumente. Aparece mais nos discursos evangélicos numa referência a qualquer entidad...