segunda-feira, 5 de março de 2012

Caminho da Espiritualidade – a solidão necessária



Solidão, de maneira simples significa estar só. E num primeiro momento nos parece impossível estar só sem nos retirarmos de perto das distrações do mundo, porém, no caminho da espiritualidade a solidão necessária não é a física, mas a do coração.

A solidão do coração é o caminho do desenvolvimento da sensibilidade interior, que é necessária antes de desenvolvermos sensibilidades interpessoais. A solidão do coração aprofunda nossas afeições pelos outros, a intimidade da vida, da amizade, das relações amorosas e das comunidades. É Ela que nos permite dar força ao outro através do respeito mútuo, da consideração pela individualidade do outro, da distância respeitosa da privacidade do outro e de uma reverente compreensão da sacralidade do coração humano.

Nas palavras de Rainer Maria Rilke, o amor consiste em duas solidões que se protegem, que se delimitam e se saúdam. Sem a solidão do coração jamais podemos ver melhor o outro e nem a nós mesmos. Quantos encontros não nos frustram, pois o que buscávamos não era necessariamente a presença física, mas a totalidade do outro que se pode ser experimentada depois que experimento da minha necessariamente pelo caminho da solidão do coração.

Quem aprendeu esse caminho aprendeu a viver sem as expectativas que tantas vezes destroem emoções e relações.

Ivo Fernandes
4 de março de 2012

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O caminho da espiritualidade – Encontro Consigo



O caminho da espiritualidade é um caminho solitário. Ninguém pode fazer por nós esse caminho. Durante muito tempo tinha por meta a santidade, mas por vezes me confundi no entendimento sobre o que seria de fato ser santo. Faz alguns anos que tenho entendido que viver uma vida no Espírito de Cristo é um caminho de santidade, é um caminho de espiritualidade.

Como se trata de um caminho solitário não pretendo oferecer respostas ou mesmo soluções, mas espero contribuir a partir da minha experiência com o caminho daqueles que me ouvem. Entendo que o caminho da espiritualidade passa pelo encontro com nosso eu interior, com o nosso próximo e com Deus. Na relação conosco mesmos precisamos lidar com o isolamento. Na relação com o próximo, com nossa hostilidade. E na nossa relação com Deus, com a ilusão. E não adianta pensar que tal caminho nos afastará das dores da vida, ao contrário, o verdadeiro caminho da espiritualidade nasce das dores da vida.

No encontro conosco precisamos lidar com o isolamento, essa experiência humana universal. Em geral tentamos escapar da sensação de isolamento ocupando-se com milhares de tarefas; um projeto a concluir, um amigo a visitar, um livro a ser lido, algo para assistir ou ouvir, etc. Consideramos que um dia entre essas coisas encontraremos o que dará conta desse anseio latente por unidade e completude, porém, nenhum amigo, amante, marido, esposa, igreja ou grupo poderá fazer isso. E se continuarmos tentando fazer dos outros esse “messias” faremos mal a todos em volta, pois ninguém deve ocupar tal lugar.

Precisamos aprender a conviver conosco. Cada um precisa de encontro consigo. Ninguém deve estar neste encontro além de nós mesmos. Só é capaz de viver em paz com os outros quem aprendeu a viver consigo mesmo em paz. Nenhuma relação que desrespeite esse espaço do outro, essa singularidade do outro faz bem.

Em síntese, em vez de negarmos o isolamento com atividades diversas, precisamos aprender a ser só, e nessa solidão aprender a só ser.

Precisamos aprender a fazer da solidão uma possibilidade, uma nova criação, um ponto de encontro. Quando aprendemos isso não mais viveremos em um frenesi de atividades, obcecados e temerosos pelas oportunidades perdidas.

Ivo Fernandes
26 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Sobre o princípio da colheita



O princípio da colheita, ou da causa e efeito é muito comum entre nós, talvez pela repetição dele na natureza em diversos momentos. Mas o que podemos afirmar é que tal princípio é uma realidade existencial, mas não absoluta. Sabemos que existem leis que regem o universo, mas é ingenuidade beirando a estupidez considerar que o universo humano possa ser mapeado e definido por leis exatas. A história humana é a prova que não existem leis inexoráveis quando o assunto é a alma.

Apesar da Bíblia em muitas de suas partes conterem o principio da colheita, também possui muitos outros que nos ensinam que a vida não cabe no resumo da causa e efeito. Muitos salmos trazem esse ensino, a história de Jó é um belo exemplo, e os ensinos do profeta Ezequiel aponta para isso.

Pessoas que ignoram isso vivem pelos mecanismos da vista e sua relação com Deus é de troca, o que pode funcionar por um tempo, mas não por todo tempo, gerando posteriormente frustrações diversas.

O caminho da fé é feito justamente no espaço onde as leis de causa e efeito falham ou nada traduzem. Serve-se a Deus por Ele e jamais pelos efeitos conseqüentes dessa possível relação. Jó foi um homem assim. Sua relação com Deus não se baseava no principio da colheita, mas no princípio do amor. O diabo, na história, desafia esse amor, ferindo o princípio da causa e efeito. Conseguiria permanecer crendo aquele que tem contra si toda lógica possível?

Quem anda pela vista pergunta onde está Deus diante de tanta injustiça no mundo. Quem anda pela fé não faz perguntas, e quando as faz jamais espera que as respostas determinem sua relação, pois ainda que o céu esteja encerrado, e alma grite pela presença do Divino, quem anda pela fé entrega seu espírito ao Silêncio presente.

Com isso não estou dizendo que o principio da colheita é nulo, mas afirmando que no que concerne a alma não cabe a nós estabelecer relações. E por isso somos exortados a plantar para colher conforme em Gálatas, mas somos proibidos de fazer juízo sobre essa relação, conforme fizeram os amigos de Jó sobre sua situação.

Aos que caminham pela fé e não pela vista permanece a esperança de que todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam a Deus.

Ivo Fernandes
28 de janeiro de 2012 

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Liberdade



Para mim liberdade é o poder de ser-agir em virtude do conhecimento pleno do passado, das variáveis presentes e das conseqüências futuras, sem inclinações de sorte alguma. Quem puder ser-agir assim é livre. Bom, não conheço ninguém assim, e na idéia que tenho de Deus cabe essa reflexão para ele, logo, diria que somente Deus é livre.

Quanto a mim, não me considero livre conforme conceito descrito. Mas isso não quer dizer que meu ser-agir é mera representação. Creio que em mim habita potências de ser-agir.

Penso que tais potências são ameaçadas pelas estruturas que escravizam a mente, como as religiões moralistas e fundamentalistas. É aqui onde vejo a que liberdade Cristo se refere, e que Paulo anuncia.

O Evangelho é o anúncio que somos seres aceitos, amados, reconciliados, logo ela nos liberta de uma consciência escrava de estruturas e pensamentos que geram culpa e medo.

Uma vez tendo tal consciência sabemos que nosso caminho ganha nova dinâmica. Não somos guiados mais pelos rudimentos das leis, mas pela novidade da Vida. E essa consciência nos leva até onde ela pode ser mantida, daí, não é um “faça o que quiser”, mas um “viva com consciência reconciliada”.

A igreja ou qualquer grupo só se reúne mesmo em torno do Evangelho se estiverem promovendo tal consciência, do contrário é apenas mais uma estrutura de morte.
Posso dizer então, que sou livre por causa do poder de ser-agir sob a soberania do único que é Livre de fato.

Ivo Fernandes
11 de dezembro de 2011

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