segunda-feira, 13 de novembro de 2017

O papel das emoções no desenvolvimento do câncer


O tema proposto ainda é motivo de discussões entre especialistas, apesar da crescente admissão da relação entre as emoções e as doenças. Quanto ao câncer, é claro que como explica o psiquiatra Mario Alfredo de Marco, da Universidade Federal de São Paulo, “Não se pode ter uma visão reduzida, não é só pelas emoções que alguém ficou com câncer, há outros fatores que implicam no surgimento da doença”. No entanto, evidências mostram que os sentimentos podem ser um fator importante no desenvolvimento da doença. Já há vários estudos nessa linha.
A necessidade de falarmos sobre isso é evidente, uma vez que p câncer é uma das doenças mais devido ao número de mortes que provoca e pelos efeitos que causa em nível psicológico, afetando a sexualidade e a própria imagem pessoal. Mas não é só após a descoberta da doença que o cuidado com as emoções deve ser tomado. Alguns sentimentos como mágoa e estresse podem prejudicar a saúde e atuarem como fatores de risco para o aparecimento de vários tipos de câncer.
A mágoa, por exemplo, classificada como a perda do objeto real ou imaginário, pode ser causadora do desenvolvimento do câncer”, diz o psicólogo Nei Calvano, coordenador de psicologia do Centro Universitário Celso Lisboa.
Além disso, sentimentos como desilusões, tristeza e falta de ânimo, somados às mudanças sofridas no estilo de vida nas últimas décadas, deixam as pessoas mais estressadas, e levam ao uso abusivo de bebidas alcoólicas, cigarros e outras drogas, como uma alternativa para se desligar dos problemas. Podemos afirmar que o equilíbrio emocional é fundamental para a saúde física e psíquica. Aspectos fisiológicos e emocionais estão totalmente entrelaçados.
Como terapeuta há vários anos, seu que algumas pessoas possuem menos recursos para lidar com conflitos e, consequentemente, podem mergulhar no sofrimento durante anos e prejudicar a resposta funcional do sistema imunológico. “Determinados sentimentos, como o estresse e a mágoa, provocam uma liberação maior de certas substâncias neuroquímicas no organismo. Estas substâncias, como o excesso de adrenalina ou cortisol e a receptação da serotonina, afetam diretamente o corpo” (Nei Calvano).
Portanto que fique claro que não estamos dizendo alterações emocionais são causas diretas para o desenvolvimento do câncer. Mesmo nos casos em que não há fatores de risco associados não se pode afirmar cientificamente que o fator desencadeante foi provocado por aspectos emocionais. O que se pode considerar é que situações de intenso sofrimento prolongado provocam alterações físicas e emocionais resultando em um campo de vulnerabilidade para o adoecimento. Hoje sabe-se que o sistema nervoso autônomo, responsável pela coordenação do funcionamento de todos os órgãos internos, é regulado pelo sistema límbico, que por sua vez é afetado pelas experiências afetivas e emocionais do indivíduo em seu contexto social.
O problema mente-corpo tem sido tema de discussão desde a antiguidade. As concepções sobre saúde e doença e sobre a natureza das enfermidades constroem-se dentro de uma perspectiva dualista, que considera mente e corpo como entidades distintas, ou numa perspectiva monista, que considera a unicidade e indissolubilidade de ambos. Ao longo da história, tem-se observado oscilações entre ambas as concepções que repercutem também no pensamento médico.
Na Grécia Antiga, Aristóteles e Hipócrates consideravam o homem como uma unidade indivisível. Hipócrates (460 a.C.), numa tentativa de explicar os estados de saúde e enfermidade, postulou a existência de quatro fluidos (humores) principais no corpo: bile amarela, bile negra, fleuma e sangue. Desta forma, a saúde era baseada no equilíbrio destes elementos. Ele via o homem como uma unidade organizada e entendia a doença como uma desorganização deste estado. Hipócrates entendia que a doença não representava a vontade divina, mas surgia por antecedentes lógicos. A saúde, para ele, consistia de um equilíbrio harmônico com o mundo ao redor, enquanto a doença surgia de desafios a esse equilíbrio. Essa visão racionalista fundamenta a medicina moderna (VOLICH, 2000).
No início do século XX, Freud resgata a importância dos aspectos internos do homem com o desenvolvimento da teoria psicanalítica. A compreensão da relação mente-corpo, até então, era baseada numa visão dualista, tanto em relação ao princípio como em relação à função desses dois aspectos. O funcionamento de ambos era considerado quase que independente um do outro e a interação ocorreria numa via dupla de forma psico-somática ou somato-psíquica. A compreensão da interação mente e corpo ganha novas perspectivas a partir da Psicanálise, quando ambas as dimensões são pensadas de forma conjunta e dinâmica, possibilitando a criação de um campo de saber denominado Psicossomática (VALENTE e RODRIGUES, 2010)
No final do século XIX, Freud (1835-1930) resgata a importância dos aspectos internos do homem com o desenvolvimento da teoria psicanalítica. Não encontrando lesão orgânica nos corpos das histéricas que justificassem os sintomas apresentados, Freud (1893), em seu livro “Algumas considerações para um estudo comparativo das paralisias motoras orgânicas e histéricas” afirma que “a histeria se comporta como se a anatomia não existisse, ou como se não tivesse conhecimento desta”. Uma paralisia nos membros inferiores ocorria mesmo com os músculos e nervos intactos, ou uma afasia ocorria sem que a área de Broca estivesse comprometida. Pela hipnose, podia-se retirar ou até alterar os sintomas momentaneamente, demonstrando que o organismo estava em condição de funcionamento “normal”. Exemplos como esses desafiaram a Medicina da época, pois não havia até então explicação para esses eventos, fazendo com que a histeria caísse no âmbito da encenação e teatralidade. Pelo método da associação livre, que se tornou a técnica psicanalítica por excelência, as histéricas diziam o que lhes vinha à mente e acabavam por relembrar uma cena traumática e que, de certo modo, esse trauma se associava com os sintomas. Essa associação era tal que, ao conseguir verbalizar a situação traumática, os sintomas eram abrandados. Assim, eles passam a possuir um sentido que é construído pelo sujeito, uma motivação que é desconhecida para o indivíduo, é inconsciente, mas remontando a uma cadeia lógica, ao verbalizar e trazer à tona esse evento traumático e reprimido, os sintomas eram aliviados (FREUD, 1895). Apesar de não ter se aprofundado nas questões de somatização, com os estudos sobre histeria, Freud assinala a relevância dos aspectos psíquicos em algumas manifestações somáticas, fornecendo bases para se pensar na interação entre o psíquico e o somático a partir da psicanálise.
Apesar das divergências existentes entre os diversos autores, nota-se um consenso acerca da existência de uma relação entre aspectos cognitivos, emocionais e manifestações somáticas, excluindo a possibilidade de uma completa separação funcional entre mente e corpo. É unânime a convicção de que processos emocionais são acompanhados por alterações fisiológicas, demonstrando a interligação entre mente e corpo. Há pelo menos quatro possibilidades de entendimento filosófico desta relação, todas elas de interesse para a psicossomática:
a) Uma via de mão única entre mente e corpo, tal que os processos mentais teriam efeitos somáticos, mas não vice-versa. Esta interpretação é consistente com o Monismo Idealista, para o qual mente e corpo formam uma unidade determinada pelos processos mentais;
b) Uma via de mão única entre corpo e mente, tal que os processos somáticos teriam efeitos mentais, mas não vice-versa. Esta interpretação é consistente com o Monismo Materialista (ou Epifenomenalismo), para o qual mente e corpo formam uma unidade determinada pelos processos materiais, sendo negada a possibilidade da chamada "causação mental", ou seja, a possibilidade de um processo mental produzir efeitos físicos;
c) Uma via de mão dupla entre mente e corpo, de tal modo que os processos mentais teriam efeitos somáticos, e os processos somáticos teriam efeitos mentais. Esta concepção corresponde a um Monismo Neutro ou Interacionista, que admite tanto a causação mental (dos processos corporais), quanto a causação corporal (dos processos mentais);
d) Uma unidade mais profunda entre corpo e mente, os quais seriam diferentes aspectos de um substrato único. Nesta concepção, os processos físicos do corpo são também mentais, e vice-versa, não se podendo utilizar o conceito de causação entre os aspectos. Ao invés de causação, pode-se referir a um isomorfismo de processos corporais e mentais. Esta concepção remete ao Paralelismo Psicofísico de Espinosa (vide Ferreira, 2010), ou ainda ao Monismo de Duplo Aspecto de Velmans (2009).
Os resultados científicos disponíveis não restringem as possibilidades de interpretação dos fenômenos psicossomáticos a uma das alternativas acima. Ressaltamos a importância de se discutir tal diversidade de interpretações viáveis, ensejando esforços colaborativos no sentido de se melhor compreender a complexidade do ser humano e do processo saúde - doença.
A partir daqui aponto algumas considerações clínicas da minha prática terapêutica, a fim de demonstrar caminhos viáveis para evitarmos o desenvolvimento das doenças.
Primeiro – existe uma crescente relação entre relacionamentos mal resolvidos e a manifestação de algumas doenças. A maioria desses relacionamentos são alvos da questão ideal-real, além de lidarem constantemente com a sensação de expectativa de abandono. Para lidar com situações como essas, é preciso um reformular de nossos preconceitos e conceitos que não estão fundamentados na razão, além de profundo autoconhecimento.
Segundo – existe uma relação de dependência emocional e a manifestação de algumas doenças. Pessoas que não conseguem tomar decisões, nem lidar com escolhas, e que geralmente responsabilizam os outros por tudo apresentam na clínica mais o desenvolvimento de doenças. É preciso reconhecer a fonte dessa incapacidade e terapias que promovam a autonomia.
Terceiro – num outro extremo estão as pessoas que tem apresentando um desamor, um desapego extremo, em geral essas pessoas são vítimas de emoções fortíssimas como o ódio ou a mágoa e o stress. Tais pessoas apresentam doenças diversas.
Falemos destes dois aspectos: a mágoa e o stress.
Uma pesquisa divulgada pelo Instituto Data Popular mostrou que 54% das mulheres, com histórico de câncer, apontaram fatores emocionais como tristeza, mágoa e rancor no aparecimento e desenvolvimento da doença.
O estresse é outro fator de grande importância, tanto pela sua influência no surgimento do câncer, como também como agravante no processo cancerígeno. Quando estamos estressados, o organismo libera o cortisol, hormônio que em excesso enfraquece o sistema imunológico, produzindo algumas modificações na estrutura e na composição química do corpo, o que, consequentemente, provoca uma desorganização nas células, contribuindo para o desenvolvimento do câncer.
Nossa mente não se desliga do nosso corpo, nem por um segundo, estamos sempre conectados com conteúdo internos e, na sua grande maioria, inconscientes. A primeira ação é mudar a sua atitude perante a vida. Ser mais otimista, adotar um estilo de vida saudável, gerenciar o estresse, encontrar o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal, sair com os amigos, com a família, viajar, ir ao cinema, encontrar uma atividade de lazer que dê prazer, e, acima de tudo, praticar pensamentos positivos no dia a dia.
Eu costumo dizer aos meus analisando que eles precisam sempre analisar o estado de saúde emocional deles, tendo pelo menos 5 atividades diferentes na vida, quanto menos diversidade mais propenso a desenvolver doenças.
Conselhos práticos para isso, envolvem: Fazer coisas que se gosta; aprenda a dizer não, reconhecendo seus limites; gastar um tempo consigo mesmo, afinal há um problema se não conseguimos estar a sós conosco mesmo; permita-se expressar seus sentimentos, sem guardar mágoas ou ressentimentos ou ser ofensivo, lembre-se há uma diferença entre ser verdadeiro e ser ofensivo; não tenha muitas expectativas, mas não deixe de se planejar; aprenda abrir mão, deixar pra lá, a coisas mais importantes do que vencer toda discussão; curta boa música, leia bons livros, vá ao teatro e ao cinema, não esqueça o mar e as serras; Dance, namore, estude, aprenda coisas novas. Lembre-se das cinco atividades, que tal elas envolverem: atividades artísticas, educacionais trabalho, espiritualidade e relacionamentos afetivos?!
Enfim, não podemos evitar todas as doenças mas podemos enfrenta-las e vencê-las, pois, até para quem faleceu com um câncer, mas não permitiu que ele destruísse sua vida enquanto vivo, temos aí um vencedor.
Boas emoções para todos nós!
Ivo Fernandes

Referências
BUNEMER, E. Desafetação: a dificuldade de investir no objeto. IDE. 26:28-42, 1995.
CASETTO, S.J. Sobre a importância do adoecer: uma visão em perspectiva da psicossomática psicanalítica no século XX. Psyquê. 17: 121-142, 2006.
CASTRO, M.G.; ANDRADE, T.M.R.; MULLER, M.C. Conceito Mente Corpo através da história. Psicol Estud. 11(1): 39-43, 2006. CRITCHLEY, H.D.
DAMÁSIO, A.R. Em Busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos. 1ª Ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. DEJOURS, C. Biologia, Psicanálise e somatização. In: VOLICH et al.. Psicossoma II - Psicossomática Psicanalítica. São Paulo: Casa do Psicólogo; 1998.
DEJOURS, C. As doenças somáticas: sentido ou sem-sentido? Pulsional. Revista de Psicanálise.12(118):26-41, 1999.
ÉPINAY, M.L. Groddeck: a doença como linguagem. São Paulo: Papirus, 1988.
FREUD, S. (1893). Algumas considerações para um estudo comparativo das paralisias motoras orgânicas e histéricas. In: Freud S. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, v. 1, p. 199-216, 1996.
FREUD, S. (1894). As neuropsicoses de defesa. In: Freud S. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud Vol. 3. Rio de Janeiro: Imago, v. 3, p. 51-74, 1996.
FREUD, S. (1895) Estudos sobre a histeria. In: Freud S. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. Cruz e Pereira Junior. Corpo, Mente... 65 Rev. Simbio-Logias, v.4, n.6,

HORN, A.; ALMEIDA, M.C.P. Sobre as bases freudianas da psicossomática psicanalítica: um estudo sobre as neuroses atuais. Revista Brasileira de Psicanálise. 37(1):69-84, 2003. 

sábado, 4 de novembro de 2017

Sobre casamento ou amor?!


Olha eu aqui de novo falando de casamento! Ou seria sobre amor?!

E o que eu sei sobre isso? A verdade é que o que eu sei, sei para mim e algumas vezes servem para alguns que insistem em me seguir ou ouvir.

Sempre fui um defensor do amor, não o exclusivamente romântico, mas daquele tipo de amor que nos dá convicção e principalmente força para sermos o que temos que ser. Sem esse tipo de amor nenhuma relação é possível. Outras razões podem ser causa inicial de casamento, mas sem esse amor, jamais produzirá felicidade associada a maturidade.

O amor é uma necessidade fundamental do ser humano. A paixão é uma sensação indispensável, pois sem a ela a vida seria sem dúvida sem graça. É preciso encontrar alguém que nos faça bater forte o coração e justificar loucuras.

Quando o amor e a paixão se encontram então temos uma receita maravilhosa. Daí procederá bom humor, alegria, prazer. Porém sem amor a paixão tem um tempo muito curto, é o amor que promoverá meios de nos encantarmos de muitas outras formas.

Num casamento o amor é essencial pois é somente ele que garante a durabilidade, nada mais garante. Sem amor qualquer alteração no tom de voz nos fragiliza, as cobranças nos desgastam e por fim acabamos por sepultar uma relação que poderia ser duradoura.

Não são apenas de palavras que uma relação se sustenta. O sucesso de um casamento exige mais do que declarações românticas. É necessário RESPEITO, que não permitirá agressões, disposição para ouvir, paciência.

Sem isso será impossível lidar com a imprevisibilidade das relações. Sim! É preciso ter maturidade amorosa para acatar regras que não foram previamente combinadas. Tem que haver bom humor para enfrentar imprevistos, acessos de carência, infantilidades.

O amor é inteligente. Por isso é só ele é capaz de lidar com o stress do dia a dia, com as rejeições, com as surpresas da vida.

O amor tudo suporta porque é feito também de silêncio. Silêncio que respeita o espaço e o tempo do outro. Por isso o amor não exige, não controla, não arde em ciúmes.

O amor é leve e trata tudo com leveza, sabe calar, sabe deixar pra lá, sabe separar as coisas. Sim, o amor não é uma fusão, antes é uma admissão das diferenças.

O amor pode durar para sempre, mas para isso é preciso desenvolver o amor pois só com a paixão nenhum amor se sustenta.

Ivo Fernandes

4 de novembro de 17

O Evangelho e o empoderamento feminino

(palestra apresentada no "encontro entre elas 2017" da igreja betesda do conjunto ceará)

O termo Empoderamento feminino está em voga, e significado tem assumido aspectos filosóficos, sociológicos, políticos. A questão central do empoderamento consiste na tomada de consciência do indivíduo a respeito de sua autonomia e competência para gerir o seu destino. Falando de empoderamento feminino também aponta para o poder de participação social às mulheres, garantindo que possam estar cientes sobre a luta pelos seus direitos, como a total igualdade entre os gêneros, por exemplo.

Na história da Igreja houve mulheres que tiveram um papel decisivo e desempenharam tarefas de valor considerável. No Cristianismo primitivo as mulheres tiveram uma participação relativamente ativa: “contavam-se mulheres entre os primeiros seguidores de Jesus”. Algumas, notadamente em Corinto, exerceram um papel de liderança. Ao que tudo indica, sua autoridade adveio da posse de dons carismáticos como a profecia e a glossolalia.

A igreja tanto nomeou diaconisas como diáconos para atuarem no desenvolvimento de cerimônias cristãs religiosas. Muitas mulheres nas escrituras me chamam a atenção, Maria mãe de Jesus, Maria Madalena, porém uma delas me ensina bastante e é dela que tenho mais falado durante todos os anos de meu ministério, trata-se da mulher samaritana.

Penso ser a história da samaritana uma história adequada para pensarmos o tema do empoderamento feminino a partir do Evangelho. Jesus em uma de suas viagens evangelísticas precisa voltar para a Galileia e no meio do caminho decide passar pela região da Samaria. Sua decisão, no contexto histórico, poderia ser considerada como insana, já que os judeus e os samaritanos possuíam péssimas relações entre si, e tendo ele outras opções de caminho para voltar ao seu destino. O povo samaritano era muito hostilizado pelos judeus, sofriam um grave racismo por aqueles que eram proclamados como “filhos de Deus”.  A sociedade judaica era essencialmente machista e patriarcal. O preconceito era tão grande que os judeus homens (principalmente os fariseus) todos os dias ao acordar tinham o costume de agradecer a Deus por não serem mulheres e por não serem samaritanos.

Era meio dia, horário de almoço, um horário impróprio para se buscar água numa região desértica por fazer muito calor, as mulheres não tinham o costume de buscar água nesse horário. Provavelmente esta mulher estava lá por um motivo mais sério, é possível que essa mulher possuía algum problema com sua comunidade vivendo excluída de sua sociedade. Jesus chega ao poço e a vê e diz “Por favor, me dê um pouco de água. ” (João 4:7).

No momento em que ele pede água ele quebra o primeiro preconceito: “A proibição de falar com uma mulher, ou seja, o machismo judaico”. O segundo grande dilema que Cristo quebra neste momento é o dele pedir água do mesmo copo que o dela, o que o tornaria amaldiçoado ou imundo (na cultura judaica da época), impossibilitando-o de prestar cultos a Deus por 40 dias. E principalmente Jesus teve com essa mulher uma das conversas mais profundas sobre espiritualidade, fazendo dela uma missionária aos samaritanos.

Dessa forma Jesus empodera aquela mulher. Ela que pelo contexto textual parecia ser uma mulher repudiada que agora estava com um homem que, portanto, não era seu marido, encontra em Jesus, outra forma de se enxergar. Jesus deve ter enxergado uma mulher de personalidade forte para aquela época, com opinião formada, que questiona teologicamente um homem judeu, e o que era visto pelos outros como ofensa gravíssima é aceito por Jesus e valorado.

Vejo na mulher Samaritana um modelo adequado para se falar de empoderamento feminino. Mulheres sem direitos, sem voz, mas que ousam a argumentar, ousam questionar o sistema que as oprimi tem na samaritana seu símbolo libertário.

Em Jesus e em seu Evangelho não há lugar para nenhum preconceito, inclusive os machismos e sexíssimos. A samaritana foi uma das primeiras a quem ele se revelou de fato. Maria Madalena, é outro exemplo, a primeira pessoa a quem Jesus apareceu depois de ressurreto segundo a Bíblia.
Cristo agiu corajosamente contra o preconceito e o machismo na conversa com a mulher samaritana e na parábola do Bom Samaritano. E todos os seus discípulos são convocados a se posicionar profeticamente contra o machismo, contra a desigualdade, contra a violência e contra o preconceito. Temos que agir profeticamente na sociedade contra o sistema que objetifica sexualmente as mulheres como meras propriedades ou consumo sexual. Que não reconhece suas competências e não valorizam suas ações e trabalhos. Que não admite o direito do corpo, e do seu próprio prazer.

Em Cristo não há homem e nem mulher, mas enquanto isso não for uma realidade entre nós, precisamos reforçar aquela que no decorrer dos anos foi oprimida e ignorada.

Ivo Fernandes
22 de setembro de 2017


domingo, 22 de outubro de 2017

A igreja de Corinto e a deturpação da Graça


Corinto era uma cidade grega e uma das maiores e mais importantes cidades do Ela ficava bem próxima de Atenas, a grande capital da Grécia, e a capital intelectual do mundo. Corinto era uma cidade banhada por dois mares, o mar Egeu e o mar Jônico. Em Corinto ficava um dos mais importantes portos da época, o ponto de Cencréia. Portanto, a cidade de Corinto era cosmopolita. O “mundo inteiro” transitava nela. Para Paulo evangelizar Corinto era um plano estratégico, pois o evangelho a partir de Corinto poderia se espalhar e alcançar o mundo inteiro. Essa talvez, foi uma das razões por que Paulo se concentrou nessa cidade.

A cidade fora destruída e totalmente arrasada pelos romanos no ano de 146 a.C. e somente por volta do ano 46 a.C. é que César Augusto a reconstruiu. Quando Paulo chegou a Corinto, ela já era uma cidade nova. Paulo entendeu que o florescimento da cidade favorecia a semeadura do evangelho e pavimentava o caminho para a plantação de uma nova igreja.

Corinto era, também, uma cidade importantíssima na área dos esportes. A prática dos jogos ístmicos de Corinto só era superada pelos jogos olímpicos de Atenas. Corinto era uma cidade que atraía gente do mundo inteiro para a prática esportiva.
Também era uma cidade altamente intelectual. O principal hobby da cidade era ir para as praças e ouvir os grandes filósofos e pensadores exporem suas ideias. Era uma cidade que transpirava cultura e conhecimento.

Por tais características a moral não era conservadora e a fama da cidade se associou a diversos prazeres carnais. Prostituição turística marcava a cidade. Quanto a religião era uma cidade politeísta adorando especialmente Afrodite e Apolo. Estima-se que tinha cerca de 800 mil habitantes no tempo de Paulo. Foi a capital da Grécia romana, habitada principalmente por homens livres e judeus.

As atividades de comércio marítimo no porto podem ter contribuído para o trabalho do apóstolo Paulo como fabricante de tendas em Corinto. (Atos 18:1-3).  

Ao ler as cartas que Paulo escreveu a igreja que estava em Corinto não sem pode deixar de perceber a influência da cultura da cidade sobre os cristãos daquele lugar.

A igreja em Corinto surgiu como resultado do trabalho realizado por Paulo e outros na sua primeira viagem, poucos anos antes. Atos 18 fala sobre este trabalho e o apoio de Silas, Timóteo e um casal que se tornaria importante na divulgação do evangelho, Áquila e Priscila. Paulo dedicou um ano e meio ao trabalho em Corinto e naturalmente desejava o bem destes irmãos.

A igreja de Corinto apresentava uma diversidade de dons. Falavam em línguas e profetizavam, mas também era cheia de dissensões e bastante discriminação socioeconômica. A multidão de ideias produziu uma variedade de teologias. Dessa variedade surgiu novos tipos de “apóstolos”, os obreiros que subvertem Evangelho da Graça de Deus. “Adulteradores da Palavra”. Um desses tipos eram defensores de um “fundamentalismo letrista”, que enfatizavam a Lei sem fazer nenhuma análise espiritual da mesma. Eram os convertidos aos códigos, mas não à Graça. Tais convertidos eram cheios de egoísmo, cegados pela presunção gerada pelo sentimento de superioridade oriundo da observância externa da Lei, bem como, pelo preconceito que dela se origina, criando uma barreira invisível para a percepção da Palavra no coração.

A observância da Lei, a partir do texto e não do Espírito esconde o ser, camufla a culpa, veste-se de exterioridades compartimentais, se jactância de seu conhecimento. Pela Lei, o ser não revela jamais seu interior.

Somente pela ótica do Espírito que “todos nós com o rosto desvendado, contemplando como por espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito”.

Isso nos leva a concluir que a aceitação do Jesus bíblico nada tem a ver com o acolhimento dos conteúdos de Sua Palavra! É possível nos convertemos à “igreja”, sem jamais ter conhecido a Cristo!

Portanto o primeiro tipo de deturpação da Graça é a fundamentalista textual que pelo Livro se mata o Espírito.

O outro tipo de deturpação é a assimilação cultural do Evangelho, ou seja, fazer o Evangelho se adaptar aos modos do tempo sem levar em consideração o Espirito, mas apenas o princípio de reprodução social. 

Seria o mesmo que justificar a negociação entre política e a religião por compras de votos; a idolatria da imagem associada a propaganda; a busca desenfreada por objetos mágicos e por benefícios matérias. É o culto capitalista onde se compra o que se deseja. Deus se torna um produto de barganha, mágica e fetichismo, e que leva as pessoas não a Jesus, mas sim à “sessão”. É um deus confinado em templos, imante nos objetos mágicos e que se deixa comprar pelo dinheiro.

Essa é o segundo tipo de deturpação da Graça.  

Enquanto não se olha para Graça não se vive a dinâmica da conversão que muda não apenas as exterioridades do comportamento, mas as essências do ser e isto de modo constante e permanente. Se não houver libertação então não é a Verdade e sim uma “falsificação do evangelho”.

A primeira deturpação cria uma religião penitenciosa e penitenciária, mediada pela culpa e 
pelo medo. A segunda gera uma religião permissiva e liquida mediada pelos prazeres imediatos.

A mensagem da Graça não é uma ideologia moral castradora nem um aval para todo e qualquer ato.

A mensagem da Graça produz uma consciência que gera atos de justiça, paz e equidade, mediadas pelo amor e geradora de fé.


Ivo Fernandes

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Casamento


Uma das queixas mais comuns que atendo na clínica terapêutica diz respeito aos casamentos. De tanta reclamação até parece ser verdade a máxima de Nelson Rodrigues “não se pode ser feliz e amar ao mesmo tempo”. E eu particularmente sei bem como é isso.

A questão que tenho observado, no entanto é que a falência de nossas relações está atrelada diretamente ao consumo da felicidade e não a construção da mesma. Sim! Deseja-se ter felicidade e não conquistar felicidade. Nossa cultura capitalista consumista chegou em todas as áreas de nossa vida, e tornamos tudo em mercadoria, sendo avaliado constantemente por critérios de mercado.

O casamento do século XXI é uma mercadoria que deve ser trocada de tempos em tempos por um melhor, um que nos faça mais felizes, um que nos garanta o estado permanente de prazer. Como consequência clínicas lotadas, pois não se compra felicidade, se constrói.   

Depois de alguns fracassos eu já aprendi que conjugalidade só é possível com amor maduro, onde antes de tudo há um princípio de lealdade a nós mesmos, pois a maioria das chamadas traições conjugais são frutos de traições a nós mesmos. Uma pessoa segura de si não arde em ciúmes, antes é paciente e justa, agindo mais com misericórdia do que com juízo.

Para ser feliz em um casamento é necessário construir amizade sem perder o erotismo. É preciso que haja meiguice e paixão, poesia e tesão. O amor antes de tudo tem que ser prático, não se pode perder a sensatez e estabilidade. Para isso ele tem que ser realista sem perder a capacidade de sonhar e ter esperança. É preciso ser ousado e sábio.

Um casal maduro sabe ser grato mantendo a simplicidade, sabe ser solidário sem perder a emoção. Um casal feliz é feito de pessoas felizes. Os que buscam no casamento a receita da felicidade provavelmente não encontrará, pois, o amor também tem suas dores. Felicidade é um estado de espírito que se deve ter a sós e só assim podemos ser felizes juntos.

Se eu conheço casais assim? Conheço gente séria que não desistiu de trilhar esse caminho. O casamento ideal não existe, mas existe o casamento de verdade por feito de desejos e vontades alinhados.

Ivo Fernandes
3 de outubro de 2017


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A justificação pela fé – uma exposição no Caminho


Leitura:  Romanos capítulos 1 a 3

A doutrina da justificação pela fé é um dos principais pilares da fé cristã, em especial a protestante. O cristianismo ocidental enfatizou desde o início a morte de Cristo como parte fundamental da fé, acima da própria ressurreição, ênfase dada mais pelos cristãos orientais.

Tal ênfase ocidental, acabou transformando o caminho da confissão da fé no sacrifício de Cristo, no único caminho para a salvação. Isso permitiu a igreja entrar como elemento fundamental nesse jogo, como aquela que atesta a fé como legítima.

Em outras palavras, a doutrina da justificação pela fé como a conhecemos, é geralmente o seguinte, desde que você creia (aceite a doutrina) que Deus matou Jesus para nos garantir a possibilidade de salvação, só assim teremos o beneplácito de Deus.

Ainda podemos dizer que os cristãos abandonaram as obras da lei como mecanismos de salvação e substituíram pela “obra” da fé. Sem esta fé é impossível ser salvo.

Ora, mais aqui mora o grande equívoco da doutrina como nós a conhecemos, pois na prática a Graça é uma farsa, pois a nossa salvação está garantida por uma obra nossa, porém menos nobre do que os esforços para alcançar a salvação.

Romanos 3.9-20 garante que “nenhum caminho conduz o homem a Deus: nem o caminho da experiência religiosa (Schleiermacher), nem o caminho da história (Troeltsch), e nem mesmo o caminho da metafísica: o único caminho praticável vem de Deus ao homem e chama-se Jesus Cristo.

A salvação não é mérito das atividades humanas, mas graça de Deus diante da situação de pecado e atitude de conversão. A salvação é atitude, primeiramente, de Deus, pois a “unidade [do homem] com Deus foi tão profundamente destruída, dilacerada, que o reatamento dessa união é absolutamente inimaginável para o homem”

Aqui nasce um conceito a priori da justificação pela fé, o conceito de pecado, e este está atrelado ao conceito de Deus como Justo e Bom. Sobre Deus, podemos dizer com Romanos capitulo 1 e 2 que Deus é Bom e não pode compartilhar com nenhuma espécie de mal. Porém a única possibilidade do mal nunca vir-a-ser era se não houvesse criação, pois só haveria Deus e Deus é Bom e nele não habita mal algum. Mas a criação foi decisão de Deus, e tal criação para não ser mero jogo de aparências, foi criada e assentada sobre a liberdade. E liberdade pressupõe que posso me afastar ou me aproximar do que quer que seja.

O mito edênico nos fala do homem que em sua liberdade decide se afastar de Deus. E o afastamento de Deus é por natureza conceitual o mal. E como Deus não pode conviver com o mal, dá-se necessariamente a impossibilidade desse ser continuar a existir. Aqui, está a condenação do mal.

E por isso, afim de não destruir a possibilidade da criação e da liberdade, e consequentemente da salvação, Deus providenciou o meio para garantir tal existência sem anular sua Bondade e sua completa aversão ao mal, o meio é a Cruz Eterna, pois antes de haver mundo, o Cordeiro foi imolado para garantir a vida. A Cruz é o início da vida.

A Cruz da História é somente a da Crucificação. A Cruz é o que vem antes de tudo, inclusive da Crucificação. O Cordeiro de Deus foi imolado antes da criação de qualquer criação.

Não foi o sofrimento histórico de Jesus que nos salvou.

Sofrimento não salva. Nossa salvação não vem da Crucificação, mas da Cruz! A Crucificação é um cenário! A Cruz é o sacrifício eterno que teve na Crucificação apenas o seu cenário histórico! A Cruz, todavia, é infinitamente maior que a Crucificação. O Sangue que purifica de todo pecado não um líquido; é uma oferta de amor perdoador que existiu como tal ainda antes que qualquer forma de sangue tivesse sido criada. A Cruz é uma eterna decisão de Deus com Deus. O Sangue Eterno é a Decisão da Graça! Na história, o sangue foi derramado para manifestar aquilo que em Deus já estava feito! Jesus Consumou o que nEle já estava Consumado desde a eternidade!

Na Ceia nós celebramos o cordeiro simbólico, que aparece em várias religiões e culturas do mundo.

A Crucificação é o Cenário exterior! A Cruz tem que ser a Realidade interior! A Crucificação revela a maldade humana! A Cruz revela a salvação de Deus! Quem crê é Justificado e tem paz com Deus. Além disso, já passou da morte para a vida!

A mensagem da Cruz é mensagem da Graça. “Graça é fato real, embora incompreensível, […] [pois] graça somente é graça quando ela for reconhecida como inexplicável [sem razão de ser]. É nisto que cremos, porém, crer para nós significa “‘experimentar’ não significa ‘tomar conhecimento’, mas ‘confrontar-se com’ o que é experimentado”. Anunciar a salvação não é simplesmente afirmar que Deus é bom, misericordioso e compassivo; anunciar a salvação é viver de maneira autêntica o evangelho e ter certeza da ação da graça de Deus.

Paulo afirma: “o justo viverá da fé” (Rm 1,17). Fé também é graça de Deus e, logo, vivenciar a fé é vivenciar a graça divina. Com isso afirmamos que está tudo feito e acabado.

A fé não é redutível a uma aceitação racional ou intelectual de uma verdade do tipo "Jesus Cristo é Deus" ou mesmo "Jesus é meu Senhoril. Fé significa confiança na incomensurável bondade divina, confiança de que Deus superou o abismo entre o divino e o humano. Isso implica que a ação humana, sempre incerta de agradar a Deus, é justificada, isto é, é declarada justa pela misericórdia divina. A partir desta fé no Deus revelado e escondido em Cristo, o ser humano poderia agir com liberdade, sem o propósito de conseguir algo de Deus. A grande obra já teria sido realizada por Ele. Deus não poderia ser entendido como um mercador de salvação. A ação humana realizada na confiança da misericórdia divina deveria visar o bem do próximo na terra, não qualquer recompensa celeste para quem age.
Mas, e como fica? Os pecados que ainda cometemos não devem ser encarados com seriedade, pois tudo já foi resolvido na cruz?

Ora, o pecado que eu peco é fruto de minha queda, mas já não carrega em si mesmo o poder de me matar, tanto quanto já não carrega mais o poder de me fazer “compulsivo”, pelo simples fato de que em minha consciência ele já não se faz acompanhar da condenação da morte, pois esta já foi satisfeita na cruz.

O pecado faz mal ao meu ser, mas já não tem o poder de daná-lo, se se está confiante no poder e na consumação do que Jesus já fez por nós. Afinal, o pecado só existe em mim, mas já não existe como algo que pende como espada da morte sobre minha cabeça. Eu estou em Cristo!

 Já não há mais nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus!

 Diz as Escrituras: Filhinhos meus, não pequeis; se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai; Jesus Cristo, o Justo; Ele é a propiciação pelos nossos pecados; e não somente pelos nossos próprios, mas inda pelos do mundo inteiro! O Deus que se fez carne também se fez pecado por nós!

Resumindo: O fato real é um só: o pecado existe na vida de cada um de nós, mas já não existe como condenação. O fato do pecado em mim é inegável. Todavia, é também inegável que ele já não tem poder sobre mim.

Quem eu sou no meu estado de pecado já não me mata! Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo! Com efeito Deus condenou na carne o pecado! Com efeito a condenação do pecado aconteceu na Cruz! Com efeito, quem crê já está liberto; ainda que pratique a sua própria liberdade tomando consciência de que quem ele é, o é em Cristo; não em si-mesmo. Com o pecado morto, e com a Lei sepultada, o que sai da morte e da sepultura não é mais o que me mata, mas o que me salva. Cristo morreu pelas nossas transgressões e ressuscitou para a nossa justificação!

 A pergunta que fica então, é: Quem creu em nossa pregação? Quem pode descansar na certeza de que o justo viverá pela fé!

Ivo Fernandes
6 de agosto de 2017

(Os textos em itálico é de autoria de Caio Fábio)

terça-feira, 2 de maio de 2017

Ídolos – da construção à necessidade de destruí-los


O termo ídolo não é um termo usado em nossa nação comumente. Aparece mais nos discursos evangélicos numa referência a qualquer entidade ou indivíduo reverenciado em outras religiões. E também no meio artístico quando para se referir a um personagem de preferência.

O termo ídolo (do grego antigo εδωλον) significa “simulacro", “figura. Passou a designar no tempo entidade espiritual ou divina, e frequentemente é associado a ele poderes sobrenaturais, ou a propriedade de permitir uma comunicação entre os mortais e o outro mundo. A idolatria é, portanto, a prática de adoração de ídolos.

Porém para as pessoas cultas os tipos mais primitivos de idolatria deixaram de ser atraentes. Apesar da presença da superstição fetichista presente em algumas religiões, já não exercem fascínio sobre uma boa parte da população.

Mas isso não significa que a idolatria tem diminuído. Francis Bacon, filósofo moderno, afirmou que o pensamento humano precisa estar sempre consciente de sua possível tendência a idolatrar algo ou alguém. Em outras palavras, podemos até nos livrar dos modos primitivos de idolatria, mas não das formas desenvolvidas e mais modernas de idolatria!

Essas formas mais sofisticadas lograram não apenas a sobrevivência, mas o mais alto grau de respeitabilidade em certos círculos cristãos. A tradição protestante identificou e atacou a idolatria católica mas desenvolveu uma espécie de fanatismo idólatra que conhecemos por fundamentalismo.

Para facilitar nossa identificação da idolatria me utilizarei das designações do filósofo Francis Bacon, que classificou 4 tipos de ídolos.

a) os ídolos da tribo: Tribo é equivalente à espécie humana, ou seja, os ídolos da tribo são aqueles que criamos por pensar que somos seres especiais, privilegiados e que tal privilégio garante a possibilidade de conhecermos tudo que quisermos. São os ídolos produzidos por nossa limitação e arrogância de não a reconhecermos. Ocorre quando o intelecto sofre influência da nossa vontade e dos afetos, de forma a confundir a natureza das coisas com aquilo que projetamos delas. 

b) os ídolos da caverna: Se a natureza humana não é garantia de que a partir dela o intelecto humano possa conhecer as coisas tal como são, então a experiência individual pode ser essa garantia. Tal compreensão produz os ídolos da caverna que são advindos de cada indivíduo quando preso a uma espécie de caverna pessoal. Isso se deve, pois, os homens procuram a verdade em seus pequenos mundos, não no mundo maior, que é idêntico para todos os homens. Portanto, os ídolos da caverna perturbam o conhecimento, uma vez que mantém o homem preso em preconceitos e singularidades.

c) os ídolos do foro: São aqueles que decorrem da linguagem que os humanos estabelecem com os outros, atribuindo nomes a coisas inexistentes ou nomes confusos a coisas que existem. As palavras, desse modo, exercem grande impacto sobre a razão. São ídolos, que através das palavras, penetram no intelecto.

d) os ídolos do teatro: São aqueles derivados de teorias ou reflexões filosóficas, científicas, teológicas, etc. que apresentam ideias que não podem ser validadas.

Os ídolos segundo Francis Bacon são noções falsas que invadem o intelecto e dificultam o acesso à verdade. Por isso, qualquer um que ame a verdade e a busque precisa destruir os ídolos que a impedem.

No meio cristão há muitos ídolos. Várias correntes teológicas que tornam a bíblia um livro mágico, impossível de análise crítica são espécies de ídolos do teatro. A bíblia é um deus de papel para muitos e as tradições teológicas sobre ela ídolos sofisticados. Há também os ídolos humanos, encarnados nas personalidades carismáticas. Além da própria igreja, como instituição, tornada divina em nossas produções idolátricas. 

Mas não é só no cristianismo ou religiões que podemos identificar ídolos. Há ídolos na ciência, na política, na moral. Alguns apostam na redenção humana como resultado de programas políticos ou de determinado modelo moral, ou mesmo com o avanço da educação ou coisa semelhante. Qualquer um desses ídolos insistem em esquecer nossa condição, são todos ídolos da tribo.

A idolatria moral, por outro lado, assume a condição do homem, quase que num ataque aos ídolos da tribo. Porém produzem outro tipo de ídolo, o ideal ético, exaltando o modelo acima do conhecimento da verdade. E aqui nascem os fanatismos. Ou seja, o fanático adora a si próprio projetado nos ídolos criados.

O moralismo fanático é idolatria na medida em que o que se busca é um aperfeiçoamento não como produto do caminho da verdade, mas como tão-somente uma projeção ampliada de nossas próprias ideias. É a vitória do meu modelo, do meu arcabouço teológico, do meu modelo moral, do meu projeto político, da minha visão de mundo.

Onde há idolatria não há verdadeiro culto a Deus. E destruir ídolos não é uma tarefa fácil. Todos temo
ídolos, ainda que não admitamos isso. Lutar contra essa realidade é lutar contra nós mesmos, por isso o evangelho é a negação do eu, é o negar-se a si mesmo, não só nas vontades, mas também, e principalmente, contra os deuses que nos habitam a alma.

Porém existe um caminho sobremodo excelente contra a idolatria, o caminho da Graça pois neste caminho somos estimulados a assumir nossa completa dependência de Deus, cientes de que não somos senhores de nenhum saber, de nenhuma especialidade singular em detrimentos de outros. É um caminho onde o saber começa com reconhecimento de finitude e, portanto, de ignorância.

O caminho da Graça é o caminho do Amor. Sim! Pois só no amor há verdadeiro conhecimento. Quem ama conhece! Fora do amor todo conhecimento produz ídolos. E ídolos nada são, porém, cheios de significados de não-amor provocam diversos males a alma.

Por isso quando Paulo nos recomenda agir em relação aos irmãos frágeis na fé, não faz isso em relação aos ídolos, mas em relação ao amor.

E quando o assunto é amor não há melhor exemplo do que Jesus, por isso mesmo podemos dizer que que vê ele vê a Deus, não em razão de qualquer explicação teológica, mas porque Deus é amor e Jesus é aquele que encarnou na vida o amor.

Olhando Jesus, vemos Deus se relacionando com os seres humanos num mundo não-ideal. E ele propõe a relação do homem com Deus como amor a Deus que se manifesta de modo humano; amando a Deus no próximo. Desse modo, podemos substituir toda doutrina ou sistema teológico pelo simples faça como Ele.

E aqui está o problema da igreja, ela não quer ser simplesmente como Jesus, pois isso significa destruir seus ídolos, e mais destruir a si mesma enquanto ídolo. Preferimos os nossos santos, nossos ritos, nossas doutrinas, nossas campanhas, nossa glória — do que simplesmente andar como Jesus andou.

Concluo dizendo, ídolos todos nós criamos no decorrer da existência, mas precisamos destruí-los afim de conhecermos a verdade no caminho da vida, do contrário jamais veremos a Deus, e Deus só pode ser visto e conhecido no Amor.
Ivo Fernandes

30 de abril de 2017

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