quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Fabíola, a mulher adúltera


Somente dois dias depois do vídeo do “caso Fabíola” viralizar na internet é que soube do que se tratava. Isso se deve a minha postura de não abrir quase nenhum vídeo que me mandam por redes sociais. Tinha visto muita piada, mas não sabia exatamente do que se tratava. Porém imaginei que se fosse verdade que houve uma traição conjugal eu não deveria republicar nada a respeito, pois se eu estivesse no lugar de um dos envolvidos eu não gostaria de ter minha vida exposta dessa maneira.
Hoje, no entanto, vi numa reportagem o “caso” e fiquei feliz pela postura que assumi e triste pelo cenário construído em torno do assunto. Do que trata? De uma traição conjugal.
Meu Deus! Quantos que fizeram piada, ridicularizam, apoiaram a violência, riram da desgraça, não fazem a mesma coisa, e só não tiveram o azar de serem descobertos.
Tudo ridículo, da postura dos envolvidos até a de milhares de outros que por meio das redes sociais jogaram suas pedras na adúltera que estava ali exposta em praça pública. Até mesmo o que com ela se deitou nada fez para defende-la, afinal numa sociedade machista e hipócrita só quem não presta é a mulher em tal situação.
As piadas poderiam ser engraçadas se elas não escondessem a tragédia de nosso tempo. Um tempo onde corruptos são juízes, criminosos são policiais, religiosos são exploradores da ingenuidade, e milhares de hipócritas são delatores da intimidade alheia.
Eu disse dias atrás para meus leitores que não deveriam ignorar o fascismo presente nas atitudes de manifestantes. A postura de tantos ao banalizar a violência, justificada na honra ferida do homem, esconde um jogo de poder maligno contra tudo que é diferente, que foge do padrão, da norma, da moral.
O que esperar de uma sociedade que acha certo ou no mínimo engraçado o que foi feito com esta moça publicamente? E o pior, quase todos cristãos, ditos seguidores de Jesus de Nazaré que numa situação semelhante teve uma atitude totalmente contrária à deles.
O que sabemos realmente a respeito dessa moça? Nada! Somos juízes que sentenciam os outros baseados na nossa arrogância, maldade e hipocrisia. Eu posso entender a raiva do marido, mas não posso justificar as atitudes dele. Porém a atitude de todos que decidiram apedrejar a adúltera dos nossos tempos eu não posso entender e nem com eles me ajuntarei.
Se você que me ler constantemente esteve ou está na roda dos apedrejadores, peço solte essa pedra virtual. Pense antes de jogar (publicar, republicar) essas pedras. Vamos deixar de ser tão idiotas que fazem tanta besteira em redes sociais.
Fabíola, um homem chamado Jesus de Nazaré não te condena. Torço para que você se erga dessa história e siga seu caminho por estradas que não te conduzam a nada disso pelo que passou.

Ivo Fernandes

18 de dezembro de 15

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Orgulho e Arrependimento – Um caminho entre o céu e o inferno


Não sabes que é a bondade de Deus que leva o homem ao arrependimento”? (Romanos 2.4).

Eu sou um homem contrito. Todo o meu culto tem um momento necessário de contrição. Nisto sou bem católico que na missa na hora da contrição, os fiéis repetem: “Minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa”. Lembro com clareza que toda ceia na igreja da minha infância, adolescência e início de vida adulta a Ceia era sempre acompanhada de momentos de contrição e arrependimento.

Porém, percebo que esse é um tema que não se fala mais nos dias atuais. Não existe mais pecado. Não há mais do que se arrepender. Atendo todos os dias pessoas que desconhecem o que seja arrependimento, são pessoas cheias de certezas, cheias de razões, cheias de verdades.

Não há mais espaço nas igrejas contemporâneas para o sermão do arrependimento. Desapareceram os publicanos e se instalou a geração dos que se orgulham do que são, do que tem, do que fazem somente. Errado sempre são os outros.

Mais afinal o que é o arrependimento?  Do ponto de vista psicológico O arrependimento é uma resposta emocional diante da consciência dos prejuízos causados para si e/ou para outrem a partir das suas decisões, é próximo da culpa, mas não necessariamente a mesma coisa, pois a culpa pode estar desassociada de arrependimento, enquanto todo arrependido tem consciência de culpa.

Nesse sentido a culpa desassociada de arrependimento é típico de orgulhosos, que percebem o erro mais não se abrem para a mudança. A culpa sem arrependimento gera resultados negativos bem expressivos como a autopunição – psicológica e/ou física, e ciclos repetitivos de fracassos, dando origem até a quadros depressivos que, se não são bem administrados em tempo, podem levar sim ao suicídio. Culpa sem arrependimento mata.

Arrepender-se é uma decisão de mudar os rumos da nossa vida; nasce quando assumimos erros e procuramos repará-los. Sim nas Escrituras arrependimento sempre esteve associado a contrição e mudança. Davi foi chamado de “um homem segundo o coração de Deus” mesmo depois de haver cometido adultério e homicídio. E isso porque mesmo tento tentado encobrir sua perversidade, caiu em si e admitiu sua monstruosa maldade, e em contrição declarou. “Não te deleitas em sacrifícios nem te agradas em holocaustos, senão eu os traria. Os sacrifícios que agradam a Deus são um espírito quebrantado; um coração quebrantado e contrito, ó Deus, não desprezarás” (Sl 51.16-17).

Faz-se necessário resgatarmos a capacidade de nos arrependermos antes que o cinismo ou a culpa nos destruam. Nobre é o sujeito que se arrepende de verdade, aprende e esforça-se ao máximo para não repetir o seu erro.

O arrependido sabe que tem a sua disposição o amor, a bondade e a misericórdia de Deus. Uma das cenas que me lembra isso é a do filme “ Os miseráveis” quando o bispo católico encobre os erros de um ladrão na esperança que a bondade e a misericórdia os salve. Essa é a mensagem do Evangelho -  só o amor tem poder de transformar.

Arrependam-se e vivam!

Ivo Fernandes
7 de novembro de 2015


domingo, 25 de outubro de 2015

Gênesis, a história do pecado e da justiça própria



Leituras sugeridas: Gênesis 2 – 3 - 4;1-17; Hebreus 11;4

Sempre gostei do livro do Gênesis, em especial seus primeiros capítulos. E essa admiração só aumentou quando tomei consciência do estilo literário e aprendi a ler corretamente esses textos, pois deixei de me preocupar com as questões históricas do texto e me dedicar ao seu ensino ético.
Das leituras que possuo nenhum texto me é tão explicativo do ponto de vista simbólico do que os capítulos iniciais desse livro. É nele que encontro os aspectos psicológicos, morais, arquétipos mais adequados para compreender a história dos homens e a minha própria história.

Gênesis é o livro dos inícios. O livro da história do homem. O livro da história do pecado e da justiça própria. É claro que o termo história não deve ser visto de maneira contemporânea, visto o texto possuir uma linguagem mítica.
Destaco aqui duas histórias, mas me dedicarei nesse texto em especial a história de Caim e Abel. A primeira história é a história dos pais de Caim e Abel, trata-se de Adão e Eva.
Quem era Adão e Eva? Arquétipos do homem antes do pecado! O Éden é o arquétipo do espaço-tempo-local do não-pecado, da harmonia universal. Fora isso nada podemos dizer dos tempos anteriores ao pecado, pois a história nasce no solo do pecado. O que vêm antes disso só pode ser falado em linguagem mítica.

O fato é que na história dos homens fora do Éden, está presente a desarmonia, a culpa, a nostalgia, o cansaço, o crime e a morte. Coisas que poderíamos resumir na palavra pecado.

Adão enquanto ser-antes-da-queda era algo não classificável. Sua ‘consciência’ não era uma com-ciência. Seu saber estava limitado pela não-experiência. E tudo que podemos dizer a respeito dele é que a história humana é pós-Queda.

Da história de Adão e Eva podemos concluir que pecado é condição do homem na história com a consciência separada, fragmentada. Como era a consciência de Adão antes da Queda? Não sabemos. Tudo que vemos e sabemos já vemos e sabemos do lugar da queda. Mas suponho que era uma consciência que chamarei de consciência fetal. Adão sabia de si num nível semelhante ao ser ainda dependente da existência da mãe, onde tal dependência é fato, porém não é informação. É um saber sem saber.

O fato é que a raça humana deixou esse estado edênico e não dá mais para voltar para ele. O acesso a este lugar foi encerrado. Agora o éden só existe em nós, como uma nostalgia e um vazio de não o sei o quê. Esse sentir nos mostra que houve algo, mesmo que não nos diga o quê. Está em nós o fruto desta queda, a culpa, o medo, o paradoxo, a necessidade de nos cobrir e um sentimento de dependência. É desta forma que todos experimentamos o pecado e a morte, fruto de nossa finitude. Assim independente da doutrina, dos termos, o pecado é experimentado por todos.

O homem pecado é o mesmo desintegrado da essência, é o homem em desarmonia, senhor de si - mesmo, é o homem que vive à margem do Real e por isso é filho da morte, escravo do pecado, filho do diabo.

Pecado tratado apenas como ato é diminuição de fato do pecado. O pecado é o que sou, sendo o que faço apenas consequência natural do que sou.

Do pecado surge a justiça própria melhor revelada na história de Caim e Abel. Do pecado, surge a necessidade de resgatar o que foi rompido, nasce a religião, nasce a busca para religar, restabelecer a harmonia.

Caim e Abel são modelos dessa busca. Caim representa a tentativa humana de cultuar a Deus pelo mérito do trabalho e da estética; a justiça própria. Assim, ele trouxe da terra os frutos mais belos. Abel, por outro lado representa a dependência. É claro que isso não está tão explicito no próprio texto, tal análise é fruto de um conjunto de investigações teológicas.
Mas voltando, Caim é o homem que oferece o seu melhor! Abel é homem que oferece a representação do sacrifício do outro, ou seja, a afirmação que ele não pode oferecer por si mesmo nada a Deus.

O resultado da rejeição da oferta de Caim, revela bem o seu espirito. Só um homem cheio de justiça própria não aceita ser rebaixado, comparado, só um espírito orgulhoso acolhe a inveja o ciúme e torna-se um homicida. Pois só a justiça própria é capaz de matar o semelhante.

Aqui também se distingue a religião que tem por base a justiça própria tendo como Caim seu arquétipo, e a religião da Graça tendo por modelo Abel. Toda religião que mata o outro é uma religião da justiça própria. Porém a religião que opera na fé na misericórdia e no amor, essa é a religião de Abel, a religião do Cordeiro morto.
Deus rejeita toda oferta de justiça própria, mas se agrada dos humildes. Cabe a nós perguntar de que religião somos e que tipo de oferta estamos apresentando a Deus.

Ivo Fernandes
22 de outubro de 2015

(As partes em itálico são de outros textos meus escritos anteriormente) 

domingo, 4 de outubro de 2015

Família, um só amor, muitas formas de amar


Leitura sugerida: Mateus 12.46-50

Nas últimas semanas as redes sociais se encheram de debates com a discussão sobre o conceito de família, isso em razão do PROJETO DE LEI que Dispõe sobre o Estatuto da Família e dá outras providências. Nesse projeto está dito: O Congresso Nacional decreta: Art. 1º Esta Lei institui o Estatuto da Família e dispõe sobre os direitos da família, e as diretrizes das políticas públicas voltadas para valorização e apoiamento à entidade familiar. Art. 2º Para os fins desta Lei, define-se entidade familiar como o núcleo social formado a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou união estável, ou ainda por comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes.

No mesmo site do congresso onde verifiquei o projeto seguia uma enquete sobre a opinião do brasileiro sobre a definição de família como núcleo formado a partir da união entre homem e mulher. O resultado da pesquisa dava 51,62% votos contrários a esse conceito.
É claro que quando o projeto fala “qualquer um dos pais” “homem e mulher” está tentando atingir em especial as famílias constituídas por membros do mesmo sexo. Porém com a discussão, decidi abordar o que o Evangelho tem a dizer sobre isso.

Antes disso é importante ressaltar que a família é um sistema muito complexo, passando por vários ciclos de desenvolvimento ao longo da história. Assim, transformou-se através dos tempos, acompanhando mudanças religiosas, econômicas e socioculturais.
Na tradição da maioria das sociedades a família deriva do conceito de casamento, porém hoje já não depende dele na imensa maioria das sociedades organizadas. Desta forma, a família não mais se baseia na concepção canônica de procriação e educação da prole, nem tampouco na concepção meramente legalista, mas na mútua assistência e satisfação sexual, o que permite que sejam vislumbradas novas possibilidades de entidade familiar, uma vez que o afeto passa a ser pressuposto de constituição dessas relações.
Essa mudança de entendimento pode ser compreendida à luz dos períodos históricos. A partir desta análise se constatam as transformações ocorridas no conceito de família, que hoje admite outras formas de constituição, dentre as quais a união estável e a união homoafetiva.
Houve, ao longo da história, modelos diferenciados de família primitiva, sendo que a maior parte deles tinha como características essenciais a mútua proteção e a segurança. A constituição das famílias mantinha estreita ligação com a unidade de culto e com liames místicos. A formação da família era determinada pela necessidade de subsistência. Era essa necessidade de subsistência quem regulava as uniões e o número de filhos.
Muito atrelada à religião, a procriação era, na Idade Média, considerada essencial para a constituição de uma família, eis que se interpretava literalmente o preceito bíblico: "Crescei e multiplicai-vos. Ide e enchei a terra." Assim, a família, surgida necessariamente com o casamento, enquanto instituição legítima, deveria reproduzir-se, sendo considerado um casal sem filhos inferior aos demais. O sexo dentro do casamento tinha apenas duas finalidades: a satisfação do desejo masculino – a mulher era considerada incapaz de sentir prazer –, e a geração de filhos, razão pela qual as famílias eram muito numerosas.
Com a Revolução Francesa – introdutora dos preceitos de liberdade, igualdade e fraternidade no mundo ocidental – mudam muitos dos paradigmas até então tidos como absolutos, permitindo assim a existência de novos modelos de família. No século XX, simultaneamente ao distanciamento do Estado em relação à Igreja, chamado laicização, novos fenômenos surgiram. A liberação dos costumes, a revolução feminina, fruto do movimento feminista e do aparecimento dos métodos contraceptivos, e a evolução da genética, que possibilitou novas formas de reprodução, foram fatores que contribuíram para redimensionar o conceito de família.
À luz do direito contemporâneo, baseado em princípios democráticos de aperfeiçoamento e de dignidade da pessoa, consagrados na maior parte das constituições modernas, não mais se pode considerar como família apenas a relação entre um homem e uma mulher, ungidos pelos laços do matrimônio. Assim, rompidos os paradigmas identificadores da família, que antes se assentavam na tríade casamento/sexo/reprodução, necessário se faz buscar um novo conceito de família. Dentro deste novo conceito, pode-se vislumbrar novos modelos de família, dentre eles a união estável, e as relações homoafetivas. (Recortes tirados do texto hospedado em http://jus.com.br/artigos/17628/o-conceito-de-familia-ao-longo-da-historia-e-a-obrigacao-alimentar com acréscimo meu do termo relações homoafetivas)
Voltemos agora ao Evangelho. Não encontro no Evangelho nenhuma definição de família atrelada a questão sexual, reprodutiva ou moral. Pelo contrário, está claro na crítica e nos comportamentos de Jesus que esse modelo, patriarcal, machista, e hierárquico e família não casa com a visão do reino. Não somos apresentados a nenhum modelo de família. Não há ideais postos. A própria família de Jesus não é modelo, ou padrão, visto tratar-se de um filho que não é da geração dos pais, e pouco sabemos das relações familiares dos membros dessa família.
O termo família aparece com positividade quando para se referir a família universal dos homens. E o laço fundamental familiar é o amor. Logo no Evangelho é família onde a vontade de Deus for ali manifesta, onde laços de afetos e amor ali se manifestar, onde o bem do outro for promovido, onde se reunirem dois ou três em nome do amor. Na família há um só amor, mas muitas formas de amar. 
Não há, portanto, nem do ponto de vista da história e muito menos do ponto de vista do Evangelho nada que faça esse projeto com seu arcaico modelo de família ser algo digno de aceitação.

Ivo Fernandes
02 de outubro de 15



domingo, 27 de setembro de 2015

Afinal o que importa é ser feliz?!


Ser feliz uma das expressões mais comuns, um dos desejos mais corriqueiros. Mas será que falamos todos a mesma coisa quando falamos de felicidade. Afinal o que significa ser feliz?!

Na contemporaneidade é comum associarmos felicidade a negação da dor e do sofrimento. Se é feliz quando não se pode verificar nenhuma dor ou sofrimento, pensamento bem diferente de muitos gregos antigos onde não podia se pensar em felicidade sem dor, pois é justamente na dor que se revela o amor e amizade.

Hoje se tem uma obrigação de ser feliz. Ser deprimido não é mais comercial como já foi em outras épocas. Todos os nossos comerciais são marcados por extrema felicidade. Nada de problemas, é um verdadeiro mundo encantado. Somos cercados de mídias que fazem recortes da realidade e só importa mostrar a imagem perfeita, a foto ideal, o momento sublime, a felicidade estampada.

Somos a geração dos remédios da alegria. Analgésico e todo tipo de drogas de alivio da dor. Precisamos consumir e ser consumidos pela felicidade. Assim que venham as festas, as academias, as praias, os encontros noturnos, entre outros. Não há espaço para solidões.

Bom, se os gregos estiverem certos sobre o amor e amizade, na geração dos super-felizes não há espaço para eles, apenas para coleguismos, companheiros de noitadas.

E é interessante notar como esse conceito de felicidade está associada ao fim das esperanças eternas. Não havendo mais eternidade, resta-nos apenas ser feliz aqui e agora e então passamos a buscar desenfreadamente sermos felizes.

Ora, e o que é felicidade do ponto de vista do Evangelho? Bom! O Evangelho nunca negou a dor do mundo, ao contrário a afirma como própria da existência, e também não se preocupa em construir uma explicação formidável sobre o problema da dor. Ela simplesmente existe, faz parte da nossa natureza existencial. Portanto não há nenhum convite de evasão da realidade, pois, é a Verdade no Caminho da Vida o poder que liberta.
Logo no Evangelho não há felicidade quando se nega a realidade da dor. Felicidade não é fantasia. Nenhum milagre de Jesus fez a existência mudar, os que foram curados podiam voltar a adoecer e que foram ressurretos morreriam novamente.

Felizes então serão aqueles que choram pois se livram de tornarem-se indiferentes, prepotentes e cínicos. Só os que choram podem amparar outros que choram. Chorar é próprio dos humildes, dos que precisam, dos que tem fome e sede de justiça. A misericórdia acompanha os que choram, pois ao chorar vencemos a inflexibilidade, e temos a chance de tratar do nosso coração. O fruto das lágrimas é paz. Preferimos o choro à guerra; o choro à agressão, ao revide; o choro à perseguição e a vingança.

Porém os que choram também devem e podem rir, pois a vida é cercada de beleza. Somos convidados aos casamentos da existência. Então no ensinos de Jesus a realidade é assumida, com suas lágrimas e seus sorrisos. Chora-se na hora da dor, rir-se na hora da alegria.

Em Jesus nada é objeto de fuga, mas de toque transformador. Ele não busca o confronto, mas nunca foge dele. Ele abomina o narcisismo e o engano da luxuria embriagante, embora isso, para Ele, nada tivesse a ver com fato de rir, dançar, gargalhar, e ser bem-humorado, como bem humoradas são muitas de Suas falas e imagens, por vezes irônicas e até sarcásticas.
Jesus é a pedra de tropeço para todos e é um golpe mortal no narcisismo de todos os humanos; pois, não se priva de nada e nem de ninguém; não foge da dor, antes vive para curá-la; celebra tanto a festa quanto a morte de um amigo com intensidades próprias; enquanto mandava tomar a cruz e segui-Lo, embora, no caminho com Ele, até a hora da cruz, todo andar foi na direção do que era vivo e humano; e feliz por apenas ser.

Logo ser feliz não é meta, pois seria como negar a existência. O que importa é viver, tudo que se há pra viver. O que importa é ser inteiro, ser quem se é. E nada de paranoia atrás de explicações sobre a obviedade da existência. Não busque culpados para sua dor nem fontes para sua alegria, tudo é da vida e tudo está você.

Assim eu desejo deixar de usar essa expressão “o que importa é ser feliz” para usar “o que importa é ser contente com a vida”. Sim! Contentamento que não depende da busca desenfreada para se obter alguma coisa, que não inveja o que outros possuem. A capacidade de alegrar-se com vida do jeito que ela é. Só os contentes são cheios de paz pois não vive de lembranças nem de expectativas.

O contente sabe que não precisa do melhor carro do ano, do melhor celular, de 230 canais, de milhares de seguidores, do melhor corpo, da melhor companhia, da melhor bebida, da melhor festa. O contente não é atormentado pelo que não tem.

Assim, espero que alguns de nós possamos aprender o caminho!

Ivo Fernandes
24 de setembro de 2015


(O texto em itálico é de autoria de Caio Fábio)

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Decepcionados com Deus


São 15 anos de escuta clinica pastoral, e percebi que das dores mais difíceis de sarar a maior é a proporcionada com a decepção com Deus. Sim! Pode-se decepcionar com Deus, e isso ocorre com mais frequência do que se pode imaginar. Tal decepção desencadeia uma série de doenças na alma, e estados aflitivos e angustiosos do ser.

O que de fato está por trás dessas decepções? Não é uma crise de fé, mas antes um desencontro entre a expectativa e a realidade. A religiosidade cristã contemporânea é marcada pela ideia de sucesso, e esperam de Deus a garantia, os meios e a execução de seus projetos. Desenvolvemos uma ideia tão equivocada de Deus que esperamos que ele resolva todos os nossos problemas até os mais corriqueiros – como se questionar o porquê ele deixou seu pneu furar no caminho para o trabalho. Mas afinal não nos haviam ensinado que Deus se importa com todos os detalhes da minha vida?!

Que mal fez a alma ocidental-cristã-evangélica esse tipo de doutrina! Elas produzem essa sensação de abandono, injustiça, traição. Porém será errado esperar algo de Deus?! Claro que não! A questão é que antes de esperarmos algo de Deus precisamos entender como se dá essa relação da criatura com o Criador.

Na maioria das vezes os decepcionados com Deus não se questionam, não se avaliam, não percebem suas motivações e sentimentos. São tão egoístas nas suas expectativas que não percebem que fazem de Deus apenas um instrumento para suas próprias vaidades. Desejam estabelecer uma relação de troca com Deus, como se tivessem condição de garantir para Deus sua própria parte no acordo. A história bíblica de Israel é um ótimo exemplo disso. Por exemplo, quando falamos que algo é injusto da parte de Deus, jamais nos julgamos a nós mesmos, pois se nos julgássemos saberíamos que somos alvos da graça e não da justiça.

O fato é que nunca desejamos a Deus, e sim que ele realize nossos sonhos. Deus é apenas um detalhe nesse processo. O que me leva a concluir é que não existe real decepção com Deus uma vez que tais decepções são frutos de ideias e desejos equivocados nossos. Se Deus fosse como esperávamos que ele fosse nós é que não seríamos.

O fato mais assombroso da fé cristã é que Deus nos fez livres para assumir a própria existência. E não haveria verdadeira liberdade se Deus cedesse aos nossos caprichos, e muito menos haveria qualquer relação madura de amor, numa espécie de toma-la-dá-cá celestial.

Independente das questões teológicas que muitos podem levantar, o fato é que a existência nos foi dada. E isso implica no silêncio de Deus, mas não no seu abandono. Implica que estamos sujeitos às contingências, mas não ao desamparo. Implica possibilidades mas não sentenças.

Oscar Wilde, uma vez disse: "Neste mundo só existem duas tragédias. Uma é não conseguir o que se deseja, e a outra é conseguir”. Ora essa seria a tragédia se Deus fosse como desejamos.

Se então a decepção é fruto de minha própria vaidade, o que esperar de Deus?! A resposta está na história de Jesus de Nazaré. Ele como homem foi tentando em suas vaidades, em suas necessidades, em seus projetos e sonhos, mas diferente de nós, não fez de Deus seu aliado, pois era Satanás quem o incitava a fazer de Deus apenas um instrumento para seus desejos, assim o Cristo abriu mão do caminho da realização pessoal que o conduziria para longe de Deus e se rendeu a misteriosa vontade do Pai. Com esse mesmo espírito ensinou aos seus discípulos sobre os cuidados de Deus, informando que na existência estaríamos abertos a várias possibilidades, mas que não se desanimassem mas amassem a eternidade, onde tudo encontra sua razão de ser. E com isso não estava estimulando uma negação da vida, pelo contrário, estava chamado seus discípulos a atuarem no mundo, com todas as suas forças, e não ficassem esperando algo do céu, mesmo crendo plenamente nele.

“Parece que ele mesmo não faz coisa alguma que possa delegar a suas criaturas. Ordena-nos a fazer lenta e desajeitadamente o que poderia fazer com perfeição e num piscar de olhos. Parece que toda a criação é um ato de delegação. Suponho que isso ocorre porque ele, por natureza, doa.”
— C. S.Lewis

Dar a existência em nossas mãos é um ato de amor, de doação, de graça! Só quem não entende nada de liberdade é que não percebe isso. E só por meio da liberdade é possível surgir o amor – o grande projeto divino! Jamais amaríamos a Deus se ele não fosse exatamente o que é! Jamais conheceríamos o amor se não fôssemos exatamente o que somos.

O Livro de Jó nos revela que Deus decidiu apostar em nós! Poderíamos amar a Deus afetado pelas tragédias da existência? Poderíamos amar se não pudéssemos perder? Satanás, apostou que os homens não amam a Deus, mas somente os seus próprios interesses. Deus apostou na nossa capacidade de amar.

Assim não se trata em porque sofremos, mas para quê. E sofremos para ser felizes de verdade, para conhecermos o que é a liberdade e para experimentarmos o amor.

Não conheço ninguém que creia no Deus de Jesus e com ele tenha se decepcionado!

Ivo Fernandes
17 de setembro de 2015



segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A Psicopatia dos últimos dias


Os “últimos dias” não são dias cronológicos, trata-se de uma dimensão espiritual, de realidades terríveis, eras de morte, de trevas. Na história humana já houveram muitos “últimos dias”, são dias marcados pelo egoísmo, avareza, arrogância, ingratidão, impiedade.

São eras onde o amor se esfria. Eras de gelo. Os homens ficam irreconciliáveis, sem domínio próprio, cruéis, inimigos do bem, traidores, soberbos. É um tempo sem Deus, mas não necessariamente sem religião, aliás, a religião até cresce com aparência de piedade, mas negando na prática a caridade. São enganadores da alma humana que aproveitam o desejo egoístas dos homens e conseguem enganar as massas. Não há nenhuma verdade nos seus ensinos. Tudo que ensinam é fruto da depravação da mente.

É um tempo sem fé, conforme profetizou o Cristo. No entanto em nenhuma das eras do fim, extinguiu-se o caminho do amor. O mal não tem em si eternidade, pois é próprio de si a autodestruição. Consome a tudo até a si mesmo.

Os que possuem fé nos tempos dos “últimos dias” são perseguidos, e sofrem por acreditarem no que é negado por todos. Daí precisarem de muita paciência e perseverança.

Hoje a Psicopatia é o mal da Era! Já foi a Histeria, depois a Depressão, depois o Pânico, e, agora, a Psicopatia. E pior: não há medicação para fazer amar com amor divino, sublime e verdadeiro! 

Psicopatia tem graus, níveis e estágios! Entretanto, sua maior marca é a falta de arrependimento quando se erra a fim de consertar o erro, e de afetividade, no caso de nada se sentir quando se ofende o próximo!

É preciso que cada um de nós em tempos como esse avaliar o próprio ser, para saber se não fomos contaminados pelo espírito desta era.
Somente se transformamos o amor numa disciplina e nele nos exercitarmos é que poderemos proteger nossa alma da doença deste século.

Não é tempo para cochilarmos, pois, as candeias estão sendo apagadas pelo vento frio deste mundo. É tempo de vigília pois vem o ladrão, e os que vem prender a verdade, matar a vida e destruir o caminho. Assim, somente unidos e nos guardando em oração e comunhão é que podemos superar esse tempo, não de maneira ociosa, mas combatendo o bom combate, retribuindo o mal com bem, a injustiça com justiça, o ódio com amor.

Sigamos firme, pois o tempo do fim tem seu fim, e o novo sempre vem!

Ivo Fernandes
24 de agosto de 2015


(O texto em itálico é de autoria de Caio Fábio)

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Conselhos aos jovens cristãos


No último mês fiz algo que fazia tempo que não era a minha dedicação primária – falei a jovens – atividades que exerci durante muitos anos em minha vida, como líder de juventude e pastor. Fiz nesses últimos dias em virtude de uma necessidade na estação que mentorio e por convite de uma igreja amiga.

No último culto que participei fiquei atento ao comportamento dos jovens presentes naquela reunião, dos 13 aos 25 anos. E lembrei do meu tempo de adolescência e juventude e de todas as minhas experiências.

Hoje fazendo uma retrospectiva sei que muito do que vivi foi próprio da imaturidade e paixão da minha adolescência. E muitas das coisas que vi e vejo na juventude cristã de hoje não mudaram muito das do meu tempo. Porém outras coisas mudaram, como, por exemplo: o apelo comercial ‘gospel’ travestido de adoração; condição hormonal-psicológica dos jovens sendo captada para desenvolverem o que chamam de “extravagância”; a necessidade de referências produzindo ídolos gospel e ou fundamentalistas; e a velha incapacidade de entender o que está por trás dos fenômenos em razão de estarem mais ligados as sensações do que ao pensamento.

Em épocas de facebook e WhatsApp a rapidez da informação está cada vez mais associada ao fim do pensamento crítico, e a promoção de uma criticidade sem pensamento. Levantam-se bandeiras que não são essências e tomam-se partidos sem envolvimento verdadeiro com as causas. Todos tornam-se alvos fáceis das figuras que sabem manipular as caraterísticas da juventude e desse tempo.

Bom, eu tenho 3 filhas e a mais velha tem 15 anos e não gostaria de vê-la presa do sistema evangélico-capitalista-idólatra que tem produzido gente, idiotado, preconceituoso, raivoso, e sem noção. Não desejo que se inspire ao pastores-shows que desejam viciar jovens em doutrinas como se fosse cocaína, muito menos em fundamentalistas metidos a inteligentes ou em cantores que só desejam ganhar grana e para isso vendem uma pseudo-espiritualidade. Desejo filhos que amem a Deus, mas que não percam a inteligência. Afinal crer também é pensar.

O conselho mais recorrente das escrituras aos jovens é o da moderação, isto claro, porque se sabe que a maioria dos erros da juventude advém das paixões, das atitudes sem pensar. Ora, mas moderação não é apenas para a vida sexual como apregoam alguns, mas para a vida espiritual também. Ou seja, moderação e extravagância não combinam. Logo a verdadeira adoração, o verdadeiro espirito cristão, o verdadeiro culto é o que é prestado com amor sem descartar a reflexão, que Paulo chamou de culto racional.

Sim! Devemos cantar com força. Sim! Devemos nos emocionar. Sim! Devemos manifestar sensações, mas não, não podemos seguir o absurdo, o sem sentido, o ridículo e menos ainda o militante, bélico, raivoso. Não devemos amar com todas as forças, movimentos, manifestações, estilos, músicas, pessoas, mas o Cristo de Deus. Só Deus e não suas representações.

E só tem um jeito de não sermos enganados por nossas paixões juvenis e por líderes aproveitadores, julgar todas as coisas pelo espirito de Cristo. Ou seja, só vale a pena nos dedicar, seguir, publicar, compartilhar, defender e se envolver com o que carrega o Amor para com Todos, sem distinção alguma. O que não carregar esse princípio pode parecer bom e espiritual, mas na verdade é engano e destruição.

Rejeitem os discursos exclusivistas, rejeitem os discursos de primazia, rejeitem os discursos de separação, rejeitem os discursos preconceituosos, mesmo aqueles que vocês foram induzidos a acreditarem que por ser bíblico deve ser seguido, não é a bíblia e suas diversas interpretações que deve ser seguida, mas a Palavra de Deus encarnada nos atos de Jesus.

Rejeitem o mercado gospel, não confundam adoração com exploração das emoções para gerar grana. Rejeitem os ídolos gospel, eles só querem a fama que as multidões dão. Rejeitem os pastores e pregadores midiáticos que vivem de popularidade, não o sigam, não o republiquem, não deem atenção, nem mesmo para discordar, pois na busca por fama, adoram também os debates intermináveis.

Rejeitem a convocação para qualquer guerra que seja. Não aceitem levantar bandeiras em defesa de nada, o amor não carrega bandeiras de grupos. Não aceitem nenhuma autoridade que não se fundamente no Amor. Não participem de nenhum grupo humano que distingue, segrega e condena pessoas.

Não sejam cínicos nem mentirosos. Não desenvolvam duplas personalidades para agradar a todos. Sejam honestos com vossas sensações e experiências. Não tenham medo da condenação, o Senhor já nos livrou de tudo! Procurem ajuda de gente honesta, boa e cheia de misericórdia para lidar com vossos conflitos. Não entreguem tesouros aos porcos.

Amando a Deus de verdade, orando e pedido sua orientação e fugindo dos anticristos, vocês acharão o Caminho!

Sim! Eu sei!

E quando disserem a vocês para terem cuidado com o que escrevi, mostrando argumentos lógicos, bíblicos e teológicos, façam apenas uma coisa, julguem onde o amor está, pois onde houver amor por Todos, aí Deus está!

Ivo Fernandes

31 de julho de 2015

sábado, 25 de julho de 2015

Dias de um futuro próximo


Sábado, 25 de julho de 2015, 6h00min da manhã, o sol tem uma luminosidade agradável, tornando a cor do mar que vai do azul ao verde. Estou a 10 passos de onde as ondas arrebentam, na casa do mestre Antônio, na praia de Morro Branco, no município de Beberibe – Ce.

Esse é o quarto dia de uma estadia maravilhosa junto as minhas razões, e é a terceira vez que fico nesse mesmo lugar. A casa é simples, mas como disse ontem milha filha Cecília, 7 anos, ela é ótima. Uma casa de pescador, pé na areia, do lado das embarcações que saem todos os dias daqui para pescar, ao pé das falésias de areias coloridas e vizinho ao já meu amigo pescador, que sempre prepara uns peixes fritos do jeito que gosto.

Durante esses dias orei e entre minhas orações ao Mar, me invadiu um propósito. Não sou um homem de muitas metas, na verdade, comparando com a forma de viver da maioria dos homens do meu tempo, sou um ponto fora da curva. Nunca quis muita coisa. Meus desejos são poucos. Minhas orações de petição sempre foram as mesmas, antes das meninas nascerem pedia apenas para servir ao Grande Senhor das Águas, depois que elas nasceram acrescentou-se a esse pedido, a proteção delas para que elas experimentassem a existência. Além dessas pedi uma vez um coração sem expectativas, e depois da doença, alguns anos a mais para ver minhas filhas crescerem um pouco mais. Até aqui o Senhor me respondeu em tudo.

Mas aqui diante do Mar e ao som das ondas e do vento nasceu um desejo que pretendo realizá-lo. Sei que muitas pessoas tiveram desejos para mim, alguns deles até hoje tento realiza-los, mas esse é meu, nascido em mim, talvez o único.

Ano passado escrevi o texto Praia do Futuro, onde expliquei minha relação com o Mar e já revelava meu desejo, e durante aquele ano, consegui o que disse, fiz uma casinha naquele lugar. Uma casa aconchegante que tem agradado a todos os que passam. Tudo foi simbólico, uma mistura de tempos, uma casa tipo loft, construída no quintal da minha mãe, na Praia inicial da minha vida. Foi a melhor coisa dos últimos anos. Tenho enfim um lugar para chamar de meu.

Mas aqui nasceu um outro desejo, ou quem sabe apenas uma expansão daquele. Quero mais do Mar, das Pedras, dos Ventos, das Areias, das Águas. Quero as ilhas de Antônio, quero ir para dentro dos meus contos. E viver a vida simples dos pescadores. Se fui chamado para ser pescador de homens, quero viver como pescador de peixes.

Como conseguirei isso? Não sei exatamente, mas já rabisquei possibilidades. Não farei nada de maneira irresponsável, mas farei de maneira objetiva. Tenho um tempo, tenho uma meta. Já até falei com todas minhas filhas e mostrei como será, e sei que será bom para todos. Existem outras coisas que todos saberão no seu devido tempo, mas por ora basta que saibam que assim é porque no fundo assim sempre foi, desde o meu nascimento até esse momento.
Sou filho do Mar, fruto da relação de um pescador, nascido num porto, criado na Praia do Futuro, dedicado ás aguas. Toda minha espiritualidade se desenvolveu diante das ondas, e o som de Deus é a Voz das muitas Águas. Os seres que me habitam são todos do oceano. Metade da minha alma é feita de Maresia.

Assim começou há quatro dias os dias de um futuro próximo!

Ivo Fernandes
25 de julho de 2015

(Escrito de uma rede na varanda diante das ondas do mar, e durante a assinatura, minha filha mais nova, Clarice, 4 anos me pede para deitar na rede)


quinta-feira, 16 de julho de 2015

A Palavra de Deus e as palavras dos homens


Uma das questões que sempre voltam a respeito de meus pensamentos ou do pensamento da Estação Fortaleza, é o que penso da bíblia. Porém a maioria das pessoas que questionam não sabem exatamente o que estão querendo saber por possuírem uma visão confusa e dogmática das escrituras.
Por exemplo, antes de responder sobre a bíblia era necessário responder sobre revelação, (a respeito deste assunto já tenho outro texto publicado em meu blog, Revelação). Fato é que a crença reformada está alicerçada no entendimento de que a bíblia é a revelação especial de Deus, inspirada e norma suprema de fé e prática.

No entanto desde o movimento do humanismo renascentista, a escritura deixou de ser a única fonte de autoridade para a teologia e outras fontes passaram a ser abraçadas pelos teólogos. No século 20, liberais, neo-ortodoxos e pentecostais passaram a utilizar outros critérios, como a razão, a experiência e a filosofia existencialista.

O conceito reformado de revelação mostra a bíblia como expressão exata da Palavra de Deus, que é sua própria revelação. É o que podemos chamar de pensamento ortodoxo a respeito das escrituras. Trata-se de uma forma objetiva, afinal a questão está posta no texto. Com isso o poder sobre a palavra está nos cânones, concílios, etc. pois em sendo objetivo é preciso delimitar o que chamarão de correta interpretação das escrituras, fazendo em última instância a revelação não está somente atrelada ao texto, mas a igreja, como instituição competente para interpretar corretamente as escrituras.

Aqui mora o grande esquema e problema por trás dessa visão. Não se trata mais de um caminho espiritual, mas institucional, a menos que garanta que a própria instituição é sagrada como pensa o catolicismo. Do contrário é necessário libertar o texto da força da instituição e do controle da mesma, como quis Lutero, mas que só veio a ser possível pós-liberalismo teológico.

Está aqui o nosso entendimento - a Bíblia torna-se a Palavra de Deus, quando esta comunica ao homem o Evangelho, e por este homem é recebida interiormente e existencialmente. Logo é impróprio confundir o texto bíblico com a Palavra de Deus, sendo composição de palavras dos homens, e enquanto palavras dos homens tem falhas e erros.

Porém assumir que a bíblia contém erros não diminui seu caráter comunicador da Palavra. Cabe a cada geração redescobrir a mensagem eterna dentro da bíblia e da tradição e da história, visto que a revelação não está limitada.

E como fica a historicidade dos fatos bíblicos? Não é ela que importa, mas o que ela comunica. Mas dizer não importa, não se trata de retirar a pesquisa séria sobre a mesma, mas entender que não é a informação exata de um fenômeno histórico que valida o texto como Palavra de Deus, mas o efeito da mesmo na vida do indivíduo. A bíblia é apenas texto se não for feita Palavra pelo Espírito no interior do indivíduo.

É o Espírito que é a autoridade na vida da comunidade e não a Bíblia. (E sobre como podemos entender esse tema ler Jesus a Chave Hermenêutica).

Os que buscam a verdade do texto, parecem ignorar todos os desafios por trás de uma análise textual de um documento de mais de dois mil anos. O maior valor histórico da bíblia reside no fato de que ela contém o testemunho daqueles que participaram dos eventos reveladores. É o registro histórico de pessoas que tiveram contato com revelações e de suas respostas a ela. A inspiração dos escritores bíblicos é a sua resposta receptiva e criativa a fatos potencialmente revelatórios. Assim nada contribuiu mais para a interpretação errônea da doutrina bíblica da Palavra do que a identificação da Palavra com a Bíblia.

A bíblia participa da revelação na condição de documento que registra o acontecimento da revelação de Jesus, o Cristo. Ela é uma antologia de literatura religiosa, escrita, compilada e editada através dos séculos e é o testemunho de como os primeiros cristãos entenderam a mensagem do evangelho.

Além dos textos citados acima ver também:


Ivo Fernandes

8 de julho de 2015

O papel das emoções no desenvolvimento do câncer

O tema proposto ainda é motivo de discussões entre especialistas, apesar da crescente admissão da relação entre as emoções e as doença...